Renan Evaldt, presidente do Magia Esporte Clube Renan Evaldt, presidente do Magia Esporte Clube Foto: MARIANA CARLESSO/JC

Discurso de palco prejudica a causa LGBTI

Apropriar-se de discursos visando estratégias de marketing não é bem visto pelo público

Recentemente, os lançamentos das músicas "Me solta", do Nego do Borel, e "Arrasou, viado", da Jojo Marontini, levantaram na internet uma discussão importante: as marcas, cantores e políticos se preocupam, de fato, com a causa LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais ou Transgêneros) ou estão apenas de olho no poder de compra e decisão deles? Ricardo Gomes, 48 anos, presidente da Câmara de Comércio e Turismo LGBT do Brasil, primeiramente, esclarece a diferença entre os termos pink money e pink washing, bastante usados nesse debate.
"Pink money é o dinheiro injetado na economia, gasto pela população LGBTI através da compra de produtos e serviços. Apesar desse termo ser usado de forma negativa, isso é bom. Já o pink washing é o lado negativo da coisa: uma empresa, artista, poder público, enfim, pessoas usarem a questão da bandeira da causa com o objetivo de ganhar dinheiro ou para se mostrarem amigos da diversidade", esclarece Ricardo.
O presidente da entidade expõe que os casos de marcas que apoiam a causa por apelo comercial são frequentes. "Existe muita empresa que se coloca como amiga da diversidade, mas tem como único objetivo vender para essa população. Na hora de devolver, seja em patrocínio de evento que promova esporte, cultura ou educação, ela sai fora. Em algumas vezes, até por não querer se declarar publicamente num evento que pode desagradar a alguns clientes", revela Ricardo.
CÂMARA DE COMÉRCIO E TURISMO LGBT/DIVULGAÇÃO/JC
Para ele, é necessária também compreensão com as empresas. Ele explica que há diversos fatores que podem impedir uma companhia de financiar algo, listando esgotamento de recursos, respeito aos prazos internos para liberação de verba e interesse em evidenciar a marca no formato proposto pelo evento. "As empresas, seja de qualquer setor ou segmento, não poderão ajudar todos os eventos que batem à sua porta", completa. "Não é porque uma empresa é friendly ou partidária das causas que obrigatoriamente tem que patrocinar essa ou aquela iniciativa", aponta. "Precisamos entender também que as empresas têm seus negócios."
Ricardo, entretanto, adverte sobre a necessidade de conscientização dos empreendimentos. Quando se dizem apoiadores de uma causa, é necessário ter um compromisso. "É importante que definam sua estratégia de trabalho de forma muito clara, de atuação com a população LGBT e que sejam fiéis à ela. Ela precisa trabalhar de alguma maneira algo para essa população. Como e o quê fazer, desde que seja de uma forma verdadeira e legítima, ela quem deve decidir."
Ricardo entende que há diversas formas de apoio autêntico. "Há empresas que, mesmo que não patrocinem nenhum evento, têm em sua totalidade de colaboradores LGBTs, gerando emprego, principalmente para a população trans que é tão vulnerabilizada e que tem dificuldade de se colocar no mercado de trabalho. Então, não é porque eles não patrocinaram um evento que não estão fazendo a sua parte."
"De repente, a empresa tem todo um comprometimento, investe, cuida dos seus colaboradores de forma assertiva, respeitando a orientação sexual, a identidade de gênero, dando possibilidade de crescimento e participam de vários projetos. Não dá para fazermos um julgamento porque a gente pode correr o risco de cometer uma injustiça."
O representante da entidade adverte, ainda, que se a atuação não for condizente com o discurso, em algum momento, os clientes se darão conta e podem boicotar as marcas. "O patrão é o cliente, podendo demitir do faxineiro ao presidente da empresa, simplesmente pegando seu dinheiro e gastando-o em outro lugar", alerta Ricardo.

O apoio não chega efetivamente aos eventos realizados

Time de futebol de Porto Alegre luta para conseguir pagar despesas Time de futebol de Porto Alegre luta para conseguir pagar despesas Foto: /GUILHERME BECKER/MAGIA/DIVULGAÇÃO/JC
Em ligações recebidas no intervalo de 20 minutos, Carlos Renan Evaldt foi informado de que quatro grandes patrocinadores desistiram de apoiar o campeonato de futebol para times gays que organizava. Renan, de 41 anos, é o atual presidente do Sport Club Magia, time de Porto Alegre que promove há 13 anos a diversidade sexual no esporte e acredita que a desistência seja movida por preconceito e desinteresse por parte das empresas de ter o nome atrelado a um evento destinado à população LGBTI .
Fundado em 2005, o clube surgiu como uma opção para os apreciadores de futebol que queriam fugir dos estádios tradicionais, onde há xingamentos e cânticos de cunho homofóbico. "Éramos um grupo de 15 amigos que nos reuníamos para jogar futebol sem maiores pretensões", lembra. "A partir de 2017, quando assumi a presidência, entendemos que precisávamos fazer parte de um movimento maior e nos organizarmos para constituir uma diretoria", orgulha-se.
Atualmente, os atletas arcam com as despesas de uniforme, material esportivo e viagens para as competições. A única modalidade patrocinada é o futebol masculino, que conta com o apoio de quadra, da treinadora de uma empresa de educadores físicos e do Espaço 900, que ajuda com despesas básicas. "A gente se cotiza, faz festas, vende rifas", lista Renan. "Cobra uma mensalidade simbólica dos atletas para manutenção do clube e promove festas para poder arcar com as despesas de viagens das competições", descreve.
O pedido de patrocínio negado se aproximava da quantia de R$ 60 mil - 65% do valor do evento. "Provavelmente, as marcas conversaram entre si e resolveram não se atrelar ao evento", deduz. "Inclusive, empresas que falam muito bem do movimento, que têm campanhas internas para os funcionários através dos seus prides destacados e elogiados mundialmente. Mas isso é só uma política para aparecer na mídia, justificar para o acionista que é uma empresa socialmente responsável. Na prática, não faz o correto, que é incentivar", desabafa. Ele reforça, ainda, que "movimento nenhum, seja ele político ou apolítico, se mantém sem dinheiro".
Apesar dos pesares, a competição aconteceu. Mas Renan, que é bancário, conta que a maior parte da verba para a realização da competição foi arrecadada de forma desafiadora.
O presidente do clube se diz ciente sobre a incapacidade de as empresas participarem de todas as competições e eventos que aparecerem, porém acha que algumas devam repensar em como aproveitar melhor esse público consumidor. "O movimento que está sendo feito, além de chamar a atenção para o preconceito, está abrindo mercado, dando oportunidade de consumo e fornecendo para esse público um time para torcer", reflete.
Durante a Ligay, calcula ele, a competição apareceu em mais de 80 jornais, sites e periódicos. Exposição que muitas marcas buscam.

Dar palco e voz

Sócios do Espaço 900, César Marroni Burigo, Thiago Braga e Franciana Von Wurmb Sócios do Espaço 900, César Marroni Burigo, Thiago Braga e Franciana Von Wurmb Foto: MARIANA CARLESSO/JC
O Espaço 900, pub localizado na Cidade Baixa, na Capital, faz a lição de casa. Além de empregar LGBTI , recebe shows de artistas transexuais, uma população que dificilmente consegue alocação no mercado formal de trabalho. Em 2017, o estabelecimento patrocinou um dos trios elétricos da Parada Livre de Porto Alegre, que teve negada a verba para a sua realização. Para eles, o respeito é o principal norteador. "A educação e o respeito são as normas. Acreditamos que isso tenha nos tornado um local amigável sem que tenhamos feito esforço para isso", dizem os empreendedores César Marroni Burigo, Thiago Braga e Franciana Von Wurmb.

Apoiar com doçura

Tiago Schmitz, proprietário do Charlie Brownie. Tiago Schmitz, proprietário do Charlie Brownie. Foto: FREDY VIEIRA/JC
Tiago Schmitz, proprietário do Charlie Brownie, tem como propósito principal de seus dois estabelecimentos a criação de ambientes seguros e de respeito para todos. Mas a sua atuação não se atém às sedes da empresa. O estabelecimento já apoiou às organizações das Paradas Livres da Capital, tanto financeiramente quanto na divulgação. Além disso, nas estantes do pub estão à disposição livros de ONGs LGBTI. Não à toa, Tiago é convidado frequentemente para palestrar em escolas, universidades e empresas para falar sobre como a sua "saída de armário" pesou na decisão de empreender.

Dados

A população LGBTI+ movimenta R$ 150 milhões ao ano no Brasil, segundo a consultoria InSearch Tendências e Estudos de Mercado. #economia
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Comentários ( 1 )
  1. Gerson Brito

    infelizmente oque diz a reportagem e triste e serio ao mesmo tempo! acompanho em redes sociais e converso com pessoas desse meio agora ligado ao esporte de inclusao ( que ao meu ver nao deveria ter que ser separado do meio " hetero" e sim um ser inclusivo ao outro) mas infelizmente nao e , e ta dificil sem apoio os times sobreviverem ! existem muitos contrapontos tanto dentro do meio , como fora dele !

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