Entrevista com Viviane Lemos e Gizela Fonseca (de casaco vermelho), organizadoras da Feira de Moda Plus Size. Gizela e Viviane são organizadoras da feira de moda plus size que ocorre no próximo fim de semana na ADVB/RS Foto: MARCELO G. RIBEIRO/JC

Marcas percebem a potência do mercado all sizes?

Por mais que pareça óbvio, as empresas ainda não enxergam o público plus size como um forte consumidor. Há quem esteja trabalhando para mudar esse cenário

Uma das premissas básicas da lógica de mercado é atender às demandas da clientela. Se tem gente querendo consumir, as marcas e serviços passam a oferecer. No entanto, alguns segmentos, mesmo que promissores, ainda não recebem um olhar atento das empresas. É o caso do nicho de mercado plus size que, mesmo ganhando mais quórum de marcas e serviços nos últimos anos, não é unanimidade no varejo. Pensando em acolher esse público, Viviane Lemos, 39 anos, criou em 2016 a BPSPOA, feira de moda para quem veste tamanhos grandes. Trabalhando há 20 anos como secretária jurídica, no momento de colocar o filho na escola Viviane percebeu que precisava de uma renda extra e decidiu vender lingeries.
“Avisei todas as minhas amigas que estava vendendo do 38 até o 54 e quem me respondeu que queria era quem precisava de tamanhos maiores, então eu entendi que era nisso que eu precisava focar”, conta. Por perceber essa demanda das mulheres que não eram contempladas nas lojas tradicionais, logo surgiu a ideia de reunir outros expositores e criar uma feira voltada somente para esse segmento. “De lá para cá, venho tentando movimentar o mercado sempre com essa ideia de agregar. Sempre com a ideia de auxiliar que isso se torne uma grande rede, porque muitas vezes os empreendedores se veem como competidores. É muito cultural. Tento plantar a sementinha de que todo mundo é colega, que temos que nos ajudar. É um trabalho de formiguinha, mas só colhemos frutos bons", acredita.
Em 2018, Viviane ganhou reforços para tocar a empreitada. Cansada de atuar no mercado corporativo, a paulista Gizela Fonseca, 37 anos, decidiu morar em Porto Alegre e tornou-se sócia do projeto. “De certa forma, o fato de eu me achar feia era o que me dava sucesso no mercado financeiro porque mulher bonita não pode ser inteligente. Então as pessoas me olhavam e pensavam ‘ah, a Gizela pode porque ela é feia, ela é gorda’. Em um momento, começou a me incomodar esse ambiente tóxico, machista.” O desejo de empreender, que já fazia parte dos seus planos, ficou mais sólido ao visitar a BPSPOA pela primeira vez como consumidora. “Foi uma sensação muito única de, pela primeira vez, poder escolher o que eu quero usar e não comprar o que cabe. Foi quando pensei que precisava fazer com que outras pessoas sentissem o que eu senti, de ver outros corpos gordos como pessoas bonitas, de estar em um ambiente acolhedor onde as pessoas não estão julgando como é o teu corpo”, conta Gizela que hoje faz parte do coletivo Gordoridade, que busca dar visibilidade as questões vividas pelas pessoas gordas junto a órgãos públicos.
A chegada de Gizela, segundo as sócias, foi imprescindível para o crescimento do projeto, que está em sua 14ª edição e tem arrecadação média de R$ 100 mil a cada evento. “Como sempre trabalhei com finanças e com gestão de risco, olhei os processos da feira, para organizá-los de forma que a gente possa fazer com que a feira seja escalável. Temos intenção de, ano que vem, expandir para outras cidades”, afirma Gizela. A dupla ainda está fazendo pesquisas de mercado para entender quais cidades seriam mercados interessantes para levar o projeto. “Fazemos a feira em Porto Alegre, que é uma capital, e as pessoas ainda têm dificuldade de encontrar roupas. Imagina como é para quem está no interior, no litoral”, complementa.
Além de tocarem a feira, as duas criaram a Consultoria Plus Size para ajudar empreendedores que desejam investir no segmento. “Temos interesse em alcançar pessoas que já empreendem no segmento e querem melhorar seu posicionamento, aumentar suas vendas, e também para pessoas que não conhecem o mercado e que querem entrar, investir”, conta Viviane que afirma que um de seus desejos é que as pessoas já ingressem no mercado com mais informações que quando ela começou a empreender. “A consultoria funciona para que eles possam ter um diferencial e não fazer como eu que entrei no escuro, sempre descobrindo na tentativa e no erro. Então temos essa proposta de fortalecer o segmento para que as pessoas já entrem um passo além.”
A feira, que recebe, em média, 600 visitantes por edição e tem ticket médio de compra de R$ 197,00, é para as sócias, mais que um negócio, uma maneira de dar visibilidade e acolher o público que veste tamanhos grandes. “O propósito não é vender roupa, o propósito é acolher pessoas e fazer com que essas pessoas se sintam inseridas na sociedade de forma digna”, expõe Gizela. Para participar do evento, os expositores têm que oferecer peças que vão do 46 ao 56, não podem vender produtos oriundos da China e não podem vender a mesma marca que outros participantes. “Temos essa política de não fortalecer essa economia louca que acontece na moda. Aumentamos a grade esse ano, era até o 54, mas 25,6% dos nossos visitantes vestem acima do 54, então quem produz roupa plus size e não atende essa numeração, está deixando de atender um quarto dos consumidores que querem comprar”, explica Viviane.
Acompanhando de perto do mercado plus size, Viviane acredita que o momento é promissor, já que muitas marcas estão enxergando as pessoas que vestem tamanhos grande como um potente público consumidor. “As pessoas estão entendendo que isso é oportunidade, e não só na moda. Quando falamos em serviços, falta um cabeleireiro que tenha uma cadeira que caiba um quadril gordo, um arquiteto que não projete um ambiente para um casal gordo e faz tudo apertadinho, um advogado que não conhece as leis que protegem contra a gordofobia. São vários setores que têm oportunidades para atender a população gorda”, pondera. Prova desse crescimento de mercado são as redes de fast fashion apostando no segmento. A gaúcha Renner inaugurou em 2018 as lojas físicas da sua linha plus size, a Ashua, que hoje tem cinco unidades, sendo duas no Rio Grande do Sul e três em São Paulo. “Quem vai conseguir puxar as marcas, aumentar as grades, ainda são as fast fashions. A maioria das marcas que hoje atendem plus size são pessoas gordas que não encontravam roupa para si e começaram a produzir. Não sei até que ponto é fat money ou não, mas são elas que vão conseguir exigir que bojos de sutiãs acima do 56 sejam criados no Brasil, que manequins gordos bonitos sejam fabricados. São aspectos que só as marcas grandes conseguem forçar o mercado como um todo.” 

Marca aposta em temática geek

Angelica explica que a Gudamagoo produz 2 mil peças por mês Angelica explica que a Gudamagoo produz 2 mil peças por mês Foto: /LUIZA PRADO/JC
Camisetas estampadas com super-heróis, com temas de séries e filmes são comuns no mercado da moda, mas não são acessíveis a todos. Para democratizar o uso das peças chamadas geeks, a Gudamagoo lançou, em 2014, a sua primeira coleção. A marca porto-alegrense, inspirada no cachorro da sua criadora, Gisele de Cândido, 47, começou somente com camisetas e hoje tem em seu catálogo vestidos, saias e jaquetas.
"É um segmento que está expandindo, mas estava carente há um bom tempo. Chegamos para atingir o gordo rockeiro, a gorda rockeira. Como remete aos anos 1980, anos 1990, outras pessoas também foram se apaixonando pela marca", conta Angelica Selmo, 54, assistente de moda que está na empresa desde o início. 
A produção das peças, que vão do 44 ao 60, chega a 2 mil unidades por mês. As vendas acontecem na loja Mulher Bonita, no Shopping Total, e no e-commerce da marca, que tem cerca de 50 pessoas envolvidas na sua cadeia de produção. 
Apesar da temática descontraída, o público da Gudamagoo está longe de ser restrito a jovens. "São peças diferentes. Temos cliente de 60, 70 anos, que querem a camiseta da Luluzinha, porque foi a primeira personagem feminista dos quadrinhos", conta Angelica. As peças variam de R$ 89,00 a R$ 189,00.
Ao longo dos seus cinco anos de vida, a Gudamagoo viu o cenário plus size sofrer transformações. A chegada das fast fashion é um desafio diário que instiga a constante renovação da grife.
"A cada dia estamos criando uma coisa diferente. Tem a concorrência, mas a gente procura imagens que conquistem. Ficamos buscando os nichos que as pessoas gostam e que não aparecem tanto. É uma pesquisa diária", conta Angelica. Ela acredita que a visão sobre ser uma pessoa gorda também mudou.
"Tenho uma filha de 14 anos que não é nem gorda, nem magra, e ela não está preocupada com isso como eu estava há 50 anos. Claro que ainda tem muita loja que restringe até o 44, e isso é uma coisa que incomoda. Mas hoje o bonito é a cliente usar uma peça do tamanho dela. A elegância, às vezes, não está no modelo, mas no tamanho", destaca Angelica.  

Vestidos inspirados nos anos 1960 para todos os tamanhos

Alessandra Giordani vende peças grandes a pronta entrega em eventos ou a domicílio Alessandra Giordani vende peças grandes a pronta entrega em eventos ou a domicílio Foto: /LUIZA PRADO/JC
"Não existe moda, não existe regra, existe se sentir bem", acredita Alessandra Giordani, 44 anos. Desde 2010, ela comanda uma marca de vestidos sob medida que leva seu nome.
O contato com a costura e a vontade de desenvolver peças começou na infância. "Sou filha de costureira e, desde nova, dizia para a minha mãe como queria as minhas roupas", conta. Apesar da paixão pelo mundo dos tecidos, trabalhar com moda não foi sua primeira aposta. Formada em Administração de Empresas, ela passou 13 anos trabalhando na indústria automotiva. Foi durante uma crise no setor que viu no empreendedorismo a possibilidade de realizar o sonho antigo. "A companhia em que eu trabalhava estava passando por uma crise muito forte e abriu para demissão voluntária. Eu já pensava em ter minha própria marca. Foi então que conheci a Rosangela, modelista de Porto Alegre. Fiz uns desenhos e ela fez as peças", lembra. 
Apesar de já ter tido espaços físicos, hoje Alessandra vai até a casa das clientes com as suas peças. Além do atendimento a domicílio, ela participa de feiras e recebe a clientela aos sábados no Artéria Tattoo Studio (Travessa La Salle, nº 75, bairro Menino Deus). Recentemente, a empreendedora decidiu apostar no mercado plus size de pronta-entrega.
"Desde o início, fiz sob medida para todo mundo, do PP ao plus size. Faz apenas três meses que trabalho com pronta-entrega plus size. Nunca tinha feito além do GG, não tinha molde", conta.
O desejo surgiu quando ela visitou uma edição da BPSPOA junto com uma amiga. "Há um ano, fui visitar a feira com uma amiga que tinha se aceitado gorda e queria procurar roupas. Fui muito bem recebida na feira e as pessoas começaram a pedir para eu expor, que a minha roupa tinha uma modelagem muito boa. Comecei a me dar conta que tinham muitas clientes que iam gostar de chegar na minha arara e não ter que encomendar a peça", conta Alessandra, que participou pela primeira vez do evento em julho deste ano. 
Os vestidos, que custam de R$ 130,00 a R$ 200,00, são feitos em malha e também com tecidos reaproveitados de roupas de brechó. Alessandra busca inspiração em revistas dos anos 1960 e 1970 para elaborar as peças. "Faço uma modelagem muito simples. E sempre foi assim, desde o início, para deixar a mulher bonita. Valoriza o corpo do 36 ao 60. Minha mãe sempre dizia que a roupa tem que vestir bem, independentemente do corpo", expõe. Preocupada em manter uma relação próxima com as clientes, Alessandra acredita que incluir os tamanhos plus size na grade fixa foi uma maneira de acolher as consumidoras que vestem tamanhos maiores.
"Duas semanas depois da minha primeira feira plus size, chegou uma cliente que foi direto querendo encomendar. Quando viu que tinham itens no tamanho dela na arara, comprou todas as roupas que estavam disponíveis. Isso é gratificante. Pessoas que nunca tinham me procurado estão chegando até a marca."
 
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