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Ciência pode ajudar a reduzir perdas no campo



Alvaro Renato Guerra Dias destaca cuidados no plantio e colheita
CRÉDITO: ACERVO PESSOAL/DIVULGAÇÃO/JC
Diego Nuñez
Em um cenário em que os custos da produção rural no Rio Grande do Sul estão cada vez mais elevados, cada grãozinho importa. Ainda mais em uma cadeia produtiva tão extensa, onde as possibilidades de perda em quantidade e qualidade dos alimentos são reais. É justamente quanto a rentabilidade do produtor e agricultor fica mais apertada que a ciência, a pesquisa e o conhecimento se tornam mais necessários para possíveis alternativas.
Professor titular da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel), o doutor em tecnologia de alimentos Alvaro Renato Guerra Dias acredita que o futuro da agricultura gaúcha passa por reduzir as perdas em quantidade e qualidade dos alimentos produzidos no solo. "A demanda mundial por alimentos vem crescendo. Então a perspectiva dos próximos anos seria aumentar a produção, aumentar a produtividade e reduzir as perdas de alimentos. Como faremos isso? Através da ciência e da tecnologia", afirma o pesquisador.
Dias integra um grupo de pesquisa que estuda formas de se evitar perdas na produção de alimentos em toda a cadeia - desde o planejamento para a colheita até o produto chegar ao mercado para o consumidor. Os trabalhos vão desde alimentos mais perecíveis, como frutas e hortaliças, e produtos in natura, como o leite e as carnes, mas passam também pelos grãos.
"Muitas vezes essa perda não está muito clara para o produtor e até mesmo para os avaliadores das perdas. Não se consegue enxergar muito bem ela. Existe a perda quantitativa e a perda qualitativa", diz o cientista. Para ilustrar, ele usa o exemplo na cadeia produtiva do arroz. "Eu preciso colher ele na época adequada. Se colher antes e estiver muito verde, vai sair muito grão da máquina e ficar na lavoura. Se esperar muito tempo para colher, posso ter muita bolha natural, posso ter a quebra desse grão. Nós gostamos do arroz bom, soltinho, e para se conseguir isso é necessário planejamento", ilustra ele.
Dias continua: "Esse caminho que a gente tem que estudar e evitar as perdas, que são grandes. E, às vezes, são nas pequenas coisas. Vai que chove por uma semana durante o transporte, naquela fila de caminhões. O arroz fica úmido. Acaba amarelando. E aí fica uma carga de arroz com baixa qualidade. São pequenos detalhes que se espalham por toda a cadeia produtiva", conta ele.
O cuidado com a colheita e maior aproveitamento dos alimentos pode ser uma alternativa aos custos elevados para se produzir no Rio Grande do Sul. Segundo a Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), a safra 2021/22 será a mais cara em pelo menos uma década, desde que a entidade iniciou a série histórica do Índice de Inflação dos Custos de Produção (IICP). Apenas entre julho de 2020 e julho de 2021, os custos de produção do agronegócio gaúcho registraram uma alta de 26,91%.

Falta de financiamento em pesquisa atrasa evolução do agro

É inegável que o agronegócio do Brasil avançou muito nos últimos anos. Durante a pandemia, se tornou o responsável por mais de um quarto de todo o Produto Interno Bruto (PIB) do País. Para muitos, foi o agro que impediu um colapso completo da economia brasileira após quase 19 meses desde o primeiro registro do coronavírus em terras nacionais.

E, ainda assim, há espaço para crescimento. A Universidade Federal de Pelotas (Ufpel), por exemplo, tem dado contribuições significativas com inovação para o avanço do conhecimento na área de ciências agrárias, especialmente pelas pesquisas realizadas em industrialização e qualidade de grãos.

Na universidade pelotense, foram realizados projetos como "Trigo: Características estruturais, funcionais e tecnológicas, micro e nano aplicações" e "Produção e caracterização de nanofibras pelo método de electrospining e aplicação no encapsulamento de peptídeos e embalagens inteligentes".

Ambas são pesquisas coordenados pelo doutor em tecnologia de alimentos e professor titular da Ufpel Alvaro Renato Guerra Dias, que faz um apelo: "Não existe ciência sem dinheiro."

"E a pesquisa é barata. O que o governo federal investe em ciência, só na parte de agronegócio, é muito pequeno para os resultados que podem gerar. Nós estamos transformando nossas instituições de pesquisa em ferros velhos", comenta Dias, fazendo um alerta.

Segundo o pesquisador, o que se consegue perceber internamente é que o investimento em pesquisa e ciência tem chegado a níveis próximos aos dos anos 2000 - ou seja, duas décadas atrás. "Estamos regredindo", concorda.

"Nós vínhamos com um financiamento razoável. Conseguimos produzir a parte de nanotecnologia. Tinha um financiamento que não existe mais. Simplesmente parou. Isso já de antes da pandemia", conta o pesquisador.

Ele vê, na ciência, uma oportunidade para o agronegócio superar problemas que o produtor corriqueiramente precisa lidar  - como a estiagem, a perda de alimentos e os invasores naturais das lavouras. Porém, a ciência só pode contribuir com investimento tanto do poder público quanto da iniciativa privada. Investimento este que, na visão de Dias, tem capacidade de gerar muito retorno para a produtividade dos agricultores e pecuaristas do Rio Grande do Sul e do Brasil.



Publicado em 09/09/2021.
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