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Mercado dita vai e vem da presença de raças na Expointer
A Expointer é a grande vitrine da genética pecuária do Estado. É de Esteio que saem os grandes campeões que viram referência zootécnica para produção de descendentes excelentes nas suas funções, seja para produção de carne e leite, seja para brilhar nas pistas de provas equinas.
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Grandes destaques de edições passadas, hoje, apresentam participação reduzida em Esteio
O veterinário-chefe do Serviço de Exposições e Feiras da Secretaria da Agricultura (Seapi), José Arthur Martins, lembra que, na década de 1980, o Charolês era o bovino de corte com maior número de inscrições na Expointer, seguido pelo Santa Gertrudis. Em 1982, a feira chegou a contar com 566 exemplares de Charolês, um recorde na categoria de bovinos de corte até hoje não superado. "Mas, por questões de manejo alimentar, falta de sangue novo na raça e de novos criadores, essas raças começaram a cair." Na edição de 2018, apenas 62 charoleses estiveram na feira.
A raça de corte Shorthorn foi outra que reduziu muito o número de animais inscritos na Expointer - de 29 animais, em 1987, ano em que obteve maior número de inscritos, para apenas nove nesta edição. "É considerada a raça mãe da bovinocultura gaúcha, mas, hoje, apenas um criador a traz para Esteio para manter a tradição", afirma a superintendente da Associação Nacional dos Criadores Herd-Book Collares (ANC), Sílvia Freitas de Freitas. A especialista diz que a redução da participação dos criadores também é influenciada pelos altos custos para participar da feira, além de sofrerem com o reflexo da crise econômica.
Martins lembra os casos "de marketing bem feito", como o Limousin. "São raças que entram, fazem barulho e quase somem. Na década de 1990, o Limousin chegou a botar 150 animais na feira, e neste ano, foram 24 inscritos. São raças que têm poucas variações de sangue, e alguns criadores acabam enjoando delas", explica.
O veterinário destacou, ainda, a redução do número de búfalos na feira deste ano devido à baixa demanda de mercado. Em 1987, a Expointer contou com 101 búfalos inscritos, e, na feira de 2018, apenas oito foram ao parque.
Nos equinos, morfologia cede espaço para funcionalidade
A participação de cavalos na Expointer começou bem modesta. Em 1970, apenas 138 equinos foram inscritos. O crescimento teve um ritmo inicial lento, mas, a partir de 1986, a feira já contava com mais de 900 cavalos, e os números nunca mais baixaram desse patamar, chegando a 1.404 exemplares em 2006. Em 2018, foram inscritos 918 equinos.
O veterinário José Arthur Martins diz que a flutuação dos equinos na Expointer se deve, em grande parte, a uma mudança de perfil da mostra: antes, era a morfologia que se destacava; agora, são as provas funcionais. "Os criadores vêm com foco na funcionalidade, sejam de Árabe, Apaloosa, Quarto de Milha ou Crioulo. Provas como o Freio de Ouro estão suplantando a morfologia, e, talvez, em pouco tempo, a Expointer tenha que se adaptar a esse perfil, criando novo regulamento para funcionalidade."
Os modismos também marcam participações, como no caso de Puro Sangue Inglês (PSI), Raflinger, Friesian e Morgan, que tiveram passagens rápidas por Esteio. "Os criadores trazem como novidades, mas, se não tem retorno, acabam não voltando." Outras raças, como o Percheron, oscilam, vão e voltam. Entre as ausências deste ano está o Mangalarga Marchador. Por outro lado, entre as raças que estão se afirmando está o Campeiro.
Novo perfil produtivo reflete no mercado do gado leiteiro
A concorrência do mercado produtivo leiteiro tem feito com que muitos produtores optem por animais com maior constância e rusticidade na hora de produzir leite. O crescimento da participação da raça Jersey - que, pela primeira vez, teve inscrições maiores do que a Holandês na Expointer - e das raças zebuínas, como o Gir-leiteiro e suas cruzas, como o Girolando, é reflexo desse cenário.
"São raças mais rústicas e menos predispostas a terem quebra do leite. Produzem menos, mas com mais constância, ganham na manutenção de produtividade", afirma o veterinário José Arthur Martins. O Gir-leiteiro e o Girolando também têm tido participação importante na feira, mantendo um número alto de inscritos. "Não são modismo, pois têm obtido boa aceitação, é uma genética tropical que com gado de região temperada tem funcionado muito bem no Centro do País", disse.
Outra raça que quase desapareceu e que, agora, está voltando com força é a Normando, por uma readequação de aptidão. "É considerada uma raça de duplo propósito que não funcionou bem como raça carniceira e que, agora, volta com força e foco na produção leiteira de qualidade", disse Sílvia Freitas de Freitas da ANC.
Da lã à carne, gosto do consumidor gerou mudanças nos ovinos
Os ovinos voltados para a produção de lã - como Corriedale, Ideal e Merino Australiano - lideravam as inscrições da Expointer nas décadas de 1970 e 1980. No entanto, a partir da década de 1990, começou a ascensão das raças de carne Texel, Hampshire e Ile de France. Nos últimos 10 anos, de uma média anual de 800 ovinos inscritos na feira, 150 eram das raças de lã, e o restante, das de carne.
A mudança atendeu aos apelos do mercado, com maior foco em carne de qualidade, e não em lã. "Houve uma época em que a lã era a soja da propriedade, era o que sustentava a estância. Continuamos produzindo lã, cujo valor de mercado tem aumentado, mas há uma demanda forte do consumidor pela carne gourmet, por isso o destaque dessas raças na Expointer", disse o superintendente do registro genealógico de ovinos da Associação Brasileira dos Criadores de Ovinos (Arco), Edemundo Ferreira Gressler.
De acordo com Gressler, ao longo das décadas houve pouca oscilação nas raças ovinas participantes da feira, com algumas tentativas de trazer exemplares novos, como foi o caso da Lacaune e da Santa Inês, ambas com aptidão leite. "Temos temperaturas e sistema de produção muito particulares, e nem todas as raças conseguem se desenvolver. Tentaram introduzir a Merilin, a Polypay e a Bergamacia, mas não temos expertise para lidar com elas", recorda.
Três raças estão se consolidando: Dorper e White Dorper para carne, e Naturalmente Coloridas Texel - esta passou de seis inscritos, em 2012, para 45 em 2018. "São animais que estão sendo selecionados e vão ganhando status", diz Gressler.
Wagyu consolida participação e dobra inscritos em 2018
Uma raça que chegou discreta, com poucos animais, e que, hoje, marca presença e desperta o interesse dos criadores gaúchos é a Wagyu. Conhecida como caviar bovino, a raça, de origem japonesa, estreou em Esteio em 2012 com apenas oito animais e foi consolidando sua participação, com 15 animais inscritos em 2017 e 33 neste ano.
"É o mercado que vai determinar se uma raça fica ou se terá participação passageira na Expointer, e o mercado para carne de Wagyu só cresce. Os consumidores estão cada vez mais exigentes, e os criadores, muito curiosos sobre a raça", afirma o criador e diretor de marketing da Associação Brasileira dos Criadores de Wagyu, Marco Andras. Toda produção do Estado vai para São Paulo, onde é comercializada como carne gourmet, com os quilos da picanha e do entrecot cotados de R$ 300,00 até R$ 1 mil.