Impasse entre associação de amigos e atual gestão envolve o Theatro Guarani, em Pelotas

Associação, fundada recentemente, deseja assumir a gestão do cineteatro, que completa 101 anos de existência

Por Adriana Lampert

Associação, fundada recentemente, deseja assumir a gestão do cineteatro, que completa 101 anos de existência
No próximo dia 30 de abril, o Theatro Guarany, de Pelotas, completa 101 anos de existência. O espaço que abriu as portas com a apresentação da ópera O Guarany, de Carlos Gomes, é palco não só de apresentações teatrais, mas de cinema, e atualmente também tem sido usado como local de eventos no município. No entanto, por trás de todo o glamour do cineteatro - que é considerado pelos organismos oficiais de turismo da cidade como importante equipamento cultural -, há um impasse sobre o futuro de sua administração.
Fruto de uma sociedade familiar que, com o passar do tempo, gerou novos proprietários após o falecimento dos fundadores, atualmente o Theatro Guarany é administrado pela empresa Zambrano & Zambrano Ltda. No entanto, parte dos sócios está mobilizada para que as atividades do espaço passem a ser geridas pela Associação dos Amigos do Theatro Guarany, fundada recentemente.
De acordo com seus idealizadores,  o projeto vem sendo aperfeiçoado há cerca de dez anos. Além de impulsionar as atividades desenvolvidas no cineteatro, a Associação - que reúne, além de parte dos sócios do espaço, também membros da sociedade civil e do poder público - surge com a finalidade de manter e renovar o patrimônio, para que ele possa seguir de portas abertas, explica o juiz de trabalho Guilherme da Rocha Zambrano, que está entre o grupo de proprietários e é membro do conselho curador da entidade.
"O prédio do Theatro Guarany vem se deteriorando, e atualmente apresenta sinais disso, como a pintura da fachada descascando. Na parte interna, falta ar-condicionado, as cadeiras são muito antigas e de madeira e várias estão com problemas de estofamento, a ponto de faltar assentos; outras chegam a ter a ferragem exposta. Também há relatos de mofo nos camarotes, e reclamações sobre a estrutura dos banheiros, só para citar alguns exemplos", denuncia o juiz de trabalho. 
Segundo ele, a atual administração "é imediatista e tem horizontes estreitos". "Isso está prejudicando o Guarany e a comunidade", lamenta. Guilherme Zambrano destaca que, inclusive, entre os planos que devem ser implementados pela Associação "em breve" está uma maior aproximação com a comunidade pelotense.
Ele garante que o grupo fundador da entidade vem trabalhando, na última década, para renovar a administração do local, conciliar conflitos e evitar o risco de encerramento das atividades, como aconteceu com outros patrimônios culturais no Estado. "Uma das suas marcas deve ser a construção colaborativa do futuro do teatro e a democratização do acesso à cultura, e nada mais justo que tenha a participação da sociedade civil", explana o sócio proprietário - que, segundo ele, não tem acesso à administração atual. "Além disso, esse novo modelo permite que o poder público possa investir em uma reforma do prédio, a exemplo do que está ocorrendo no Theatro São Pedro, em Porto Alegre."
"Este é um sonho de muitos anos que agora começa a mobilizar mais pessoas e a mostrar para toda a sociedade que o Guarany não apenas está vivo, mas também preparado para seguir sendo uma referência cultural e de orgulho para pelotenses e gaúchos", emenda o também fundador e membro do Conselho Curador da Associação, Alexandre Zambrano. Segundo ele, a aproximação com a comunidade será essencial na formatação do programa cultural do teatro e na valorização da sua história.
Alexandre Zambrano pontua que a preocupação principal é com a estrutura física, por se tratar de um prédio do início do século XX e cuja preservação e modernização devem ser permanentes. "Com a participação de todos, podemos vislumbrar o teatro não apenas funcionando, mas também se atualizando e modernizando nas décadas e nos séculos vindouros", concorda Nelson Zambrano, outro fundador e também membro do Conselho Curador.
Segundo o grupo, um dos pilares que motivou a criação da entidade é ampliar a dimensão social do teatro, através de oficinas em escolas municipais para que crianças e adolescentes conheçam e entendam a importância do espaço, além de uma programação diversificada e a promoção de ações sociais que beneficiem a comunidade.
Atual gestão afirma que não reconhece Associação
A visão da atual administração sobre a situação em torno do Theatro Guarani é distinta. Em nota, a diretora da Zambrano & Zambrano, Andréia Fetter Zambrano, afirma que a empresa "não reconhece a autointitulada Associação Amigos do Theatro Guarany como meio idôneo de relacionamento" com o espaço. "O prédio do Theatro Guarany pertence a sete pessoas e, destas, cinco não fazem parte da referida Associação", destaca. 
Guilherme Zambrano afirma que a atual administração não tem pago a locação do espaço. Neto de Maria de Lourdes Guimarães Zambrano, viúva de um dos fundadores do Guarany, ele diz que a dívida já está em torno de R$ 150 mil e que, inclusive o contrato de locação venceu em janeiro deste ano e não foi prorrogado. Ele declara que Andréia e os outros quatro proprietários que não participam da Associação foram convidados a participar, mas se negaram.
"Queremos que minha avó - que detém uso fruto de 50% do patrimônio - exerça seu direito de  receber os recursos provenientes das atividades no teatro, sem apropriação dos lucros de uma empresa intermediária como acontece hoje", detalha o juiz de trabalho.
Na contramão, Andréia Fetter argumenta, também em nota, que "os proprietários do prédio do Theatro Guarany têm contrato de locação com a empresa Zambrano & Zambrano Ltda. em pleno vigor". A diretora da empresa acrescenta que "qualquer benefício oferecido neste momento pela referida associação em relação ao uso do Theatro Guarany é inexequível." 
"Queremos um novo capítulo", diz membro do conselho curador
"Nossa proposta é de união: que todos os interessados possam estar juntos para que o teatro viva novas histórias de sucesso. Queremos colaborar, fazer renascer essa história com o apoio de todos e iniciar um novo capítulo que dê ainda mais orgulho para Pelotas e o Estado", frisa o deputado Luiz Antônio Covatti, fundador e membro do conselho curador da Associação.
Segundo ele, estão habilitadas a se associarem tanto pessoas físicas quanto jurídicas (essas últimas na categoria de parceiros, que terão vantagens específicas nas suas relações com o teatro). No site da ATG é possível conferir o estatuto e preencher o formulário de associação, que neste primeiro momento é gratuita (com eventuais contribuições espontâneas).
"Imaginamos a quantidade de pessoas que nunca teve acesso ao Theatro Guarany e nem a oportunidade de ver uma apresentação no local. Isso nos entristece, porque a cultura e a arte precisam chegar a todos e transformar a sociedade. A associação também está preocupada com isso", destaca o também fundador e diretor da associação, Fernando Witt.