O universo das microcervejarias do Rio Grande do Sul

Com 20% das empresas brasileiras do segmento instaladas em território gaúcho, o Estado tornou-se referência em produção de cerveja no País

Por Eduardo Lesina

Empreendedores locais se tornaram referência nacional na fabricação das bebidas artesanais
Obtenção de mosto, fermentação, maturação, filtração, envase e embarrilamento. Em resumo, o processo de produção de uma cerveja atravessa essas grandes etapas. Entretanto, a produção da bebida já não pode mais ser resumida apenas nesses itens. Novos sabores, aromas e texturas revolucionaram o mercado de consumo no País. O crescimento, exponencial, no número de cervejarias, iniciado em 2010, representa essa propagação da cultura cervejeira.
Os dados do Ministério da Agricultura indicam 679 microcervejarias registradas no Brasil, das quais 20% estão localizadas no Rio Grande do Sul. As 142 microcervejarias registradas em solo gaúcho fizeram o Estado se tornar referência na produção da bebida composta por malte e lúpulo, equiparando-se aos clássicos vinho da serra gaúcha. Mas afinal, o que é uma microcervejaria?
Produções mensais entre 50 mil litros e 200 mil litros, as características de um negócio com berço familiar e a liberdade de experimentação de novos sabores são alguns do fatores que unem esse modelo de cervejaria. O crescimento desse modelo de produção acompanha a tendência mundial de consumo local, priorizando os produtos regionais. Além disso, a qualidade da bebida produzida nas terras gaúchas, somada à crescente das cervejas direcionadas para a gastronomia, trouxe novas formas de produzir, comercializar e participar da cena cervejeira atual.
Nesse sentido, o Regional Cervejas Artesanais funciona como um estabelecimento de curadoria das cervejas locais, alavancando as marcas gaúchas no mercado, antigamente dominado pelas cervejas importadas. Criada em 2014, em época de alta do dólar e, consequentemente, com uma viabilidade menor de importar marcas estrangeiras, a Regional encontrou um público crescente que buscava consumir cerveja local e de qualidade: "nascemos de uma demanda do mercado, em um nicho que não havia sido muito explorado ainda, em uma época que já havia um número razoável de marcas do Estado", explica o proprietário, Maurício Zart.

Maurício Zart (e) é proprietário da Regional Cervejas Artesanais, e Renan Gomes (d) é sommelier da casa

Embora o mercado das cervejas popularmente conhecidas como artesanais represente cerca de apenas 1% das vendas no setor cervejeiro, as marcas lutam para multiplicar o conhecimento do consumidor sobre essa esfera ainda em crescimento. "Não adianta disputarmos esse 1%, temos que buscar os 99%", reflete Thiago Galbeno, fundador da cervejaria gaúcha Perro Libre. Para Galbeno, a grande questão atual das cervejarias caseiras é demonstrar ao público que o produto pode ser muito mais que aquela bebida entregue pelas grandes companhias. Como resultado desse apoio mútuo, as microcervejarias fortalecem suas marcas e garantem a propagação da cultura cervejeira.
A colaboração é um aspecto muito presente no cenário de produção local de cerveja ao redor do mundo. As trocas de ingredientes ou informações entre as microcervejarias gaúchas acompanham esse espírito da comunidade mundial. No entanto, essa indústria nem sempre foi assim aqui no Rio Grande do Sul: "antigamente, as cervejarias existiam isoladas como caixas pretas, na qual entrava insumo de um lado e saía produto de outro, sem nenhum engajamento do consumidor com a produção", explica o cervejeiro Leonardo Sewald, sócio-diretor da Cervejaria Seasons, na Zona Norte de Porto Alegre.
Na Capital, as fábricas das microcervejarias estão concentradas no território do 4º Distrito. Com o objetivo de revitalizar o local, tanto a prefeitura quanto as microcervejarias se apoiam em criar eventos para aproximar o consumidor da produção de cerveja. Primeira a se instalar no bairro Anchieta, em 2010, a Seasons viu os seus vizinhos cervejeiros se situarem nas proximidades, e, hoje, há 14 marcas atuando no local. Por ser um bairro industrial, ou seja, permitindo as fábricas para a produção da bebida no Plano Diretor da cidade, os cervejeiros buscam atrair os consumidores para dentro de suas propriedades, propagando cultura e conhecimento sobre a bebida, além de trazer a população para um bairro que não é comumente povoado.
Essas relações, somadas à cultura recebida das influências de colonizações alemãs e italianas - com a produção de bebidas alcoólicas e grandes festas -, ao costume do gaúcho com o amargor e à grande produção de cervejas premiadas e de qualidade, fizeram o Rio Grande do Sul tornar-se um polo cervejeiro no País. Desde as nanocervejarias, com panelas de 50 litros, às microcervejarias, que já representam fortes nomes no cenário cervejeiro, a produção local segue a disputa por estabelecer o seu espaço na prateleira do consumidor.

Sem limites para expandir

A cervejaria Perro Libre propõe, em seu manifesto, a celebração da união entre a cultura da América Latina com as cervejas do dia a dia. Somando essas histórias e a ambição de ser "libre", o início da cervejaria compreende bem o intuito de se libertar. O que começou como um hobby de família, até a inauguração de um bar da marca em São Paulo, a empresa traz as narrativas latinas através do seu produto principal: a cerveja.
O início da Perro Libre acompanha uma das características mais comuns no ramo cervejeiro. Alberto e Thiago Galbeno, pai e filho, começaram a produzir cerveja e logo agradaram os familiares e amigos. Um desses amigos, Lucas Sperotto - hoje, membro da Perro Libre -, foi quem deu a segurança para o início da produção para além dos limites da experimentação caseira. "O que nos fascinou muito na cerveja foi a o espírito de liberdade que ela gera, devido às experimentações na produção", comenta Thiago.
Em 2 de junho de 2014, a Perro Libre lançava-se como uma marca, buscando através do papel como cervejaria compartilhar os sabores e aromas que a América Latina pode produzir. O crescimento, do início até hoje, é expansivo, mas com muita disciplina e cautela. No início, a produção comportava até mil litros mensais; um ano depois, as dimensões dobraram e não pararam de crescer: "De 2014 para cá, fomos dobrando de tamanho a cada ano". Embora os números de crescimento sejam expressivos, Thiago complementa: "a gente cresce o quanto pode crescer priorizando a cerveja".
O cuidado com o produto final trouxe aos sonhadores da Perro Libre estabilidade suficiente para investir além de somente a cerveja. Em 2017, a empresa inaugurou o seu primeiro espaço físico: o Perro Libre Tap Room, no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Neste ano, a cervejaria expandiu ainda mais as suas dimensões. A criação de um bar em São Paulo, no bairro Pinheiros, foi planejada pensando que a cidade chegaria ao mesmo nível de cultura cervejeira que se tem em Porto Alegre. "Em 2016, a gente começou a investir em vendas diretas na cidade, a fim de fazer as pessoas conhecerem o que era a Perro Libre, para, ao fim, abrir o bar", comenta o jovem cervejeiro.
Para Thiago, a microcervejaria obteve esse crescimento porque priorizou sempre a identificação do público com a marca e a qualidade do produto final. "Queremos chegar em quem se identifica com a gente, não com todo mundo." O foco de transmitir uma boa experiência em beber uma cerveja cigana e latino-americana (como é o lema da cervejaria) segue nos princípios da produção: "nos preocupamos em fazer a cerveja que gostaríamos de beber", explica.

Brasileira, inovadora e ousada

Fomentando a ideia de que a cerveja é parte da cultura de um povo, a Tupiniquim não poderia ter escolhido um nome mais característico para rotular seus produtos. A bandeira, com uma arara-azul típica do País, acompanha o lema da cervejaria: inovação e ousadia.
A empresa surgiu através de uma necessidade do mercado. O crescimento da cultura cervejeira trouxe a necessidade de explorar uma produção mais brasileira e de qualidade. Para atender a esse consumidor, em 2010 - acompanhando o crescimento das cervejas artesanais -, o planejamento estratégico da equipe resultou na Tupiniquim. Em outubro de 2013, Christian Bonotto, André Bettiol, Fernando Jaeger, Alex Ribeiro e Márcio Santos finalizaram a primeira sede da entidade e, em março de 2014, a cerveja já circulava. O crescimento dos equipamentos foi seguindo as necessidades da produção: o início, com uma planta que comportava 18 mil litros por mês, deu lugar às instalações da nova fábrica, com capacidade total de 250 mil litros por mês. Mesmo que a produção possa comportar esse valor, a média produzida pela empresa gira em torno dos 100 mil litros por mês.
A filosofia de trabalho da Tupiniquim acompanha o seu lema de inovação. "Sempre procuramos estar atentos às tendências que acontecem no mundo e, principalmente, o que se adapta ao brasileiro", explica Bonotto. Seguindo esse conceito, a empresa também prioriza a ideia de passar ao cliente uma expectativa maior do que o custo para o consumo, passando esse ideal para todos os seus rótulos: "sempre foi uma estratégia da empresa ter isso de combinar o preço justo com qualidade". Para nomear a cerveja, o grupo buscou ter o cuidado de se desvincular do tradicional bairrismo gaúcho e decidiu optar por um nome que incluísse o Brasil como um todo.
Bastante presente nas prateleiras dos supermercados e bares, a cervejaria utiliza suas estratégias comerciais para buscar a presença em todo o território regional. Além disso, a empresa visa expandir seus limites para fora do Estado de maneira mais efetiva, mas, devido a questões tributárias, o planejamento precisa ser bem estruturado: "volta e meia pensamos em expandir para fora do Rio Grande do Sul, mas é um passo para o futuro". Planejando esse futuro, a Tupiniquim projeta um plano estratégico mais agressivo para o ano que vem: "queremos dobrar o know how daqui um ano, mas temos que ver se o mercado comporta", reflete Bonotto.

Revolução cervejeira

"Comece uma revolução, beba uma cerveja melhor." O lema da Cervejaria Seasons acompanha a trajetória do próprio empreendimento. Em 2010, Leonardo Sewald e Caroline Bender concluíram o projeto da Seasons, iniciado dois anos antes, com viagens de Sewald a Alemanha e aos Estados Unidos, onde o cervejeiro participou de cursos de formação para preparar o negócio.
Com a ideia de criar cervejas longes do usual, a microcervejaria utiliza da experimentação para criar cervejas com personalidade e consistência: "não fabricamos Pilsen, que seria o tipo de cerveja mais comum, e não porque não gostamos, mas sim porque queríamos inovar e fazer coisas diferentes", explica Sewald.
Pioneira no característico bairro cervejeiro de Porto Alegre, o bairro Anchieta, a Seasons deu o primeiro passo para o crescimento da cultura cervejeira no local: "quando a gente começou, em 2010, éramos a menor cervejaria em nível de produção no Brasil. Conhecíamos outros empreendedores que estavam prestes a concretizar seu negócio e convidamos para vir para o bairro", conta Sewald. Esse início ajudou a fomentar um senso de comunidade entre os microprodutores. O aumento de presença na localidade acompanhou também o crescimento da própria Seasons: hoje, a microcervejaria produz mensalmente 20 mil litros, em média.
Quando as IPAs passaram a ter uma visibilidade maior, e consequentemente a busca por consumi-las aumentou, a Seasons já tinha esse estilo como carro chefe da empresa - e permanece até hoje. Dessa especialidade surgiu a "Greencow", a cerveja que ajudou a marca a se consolidar no mercado, tanto pelo estilo agressivo e intenso no paladar, quanto pela ilustração de uma vaca no rótulo, que viria a se tornar o mascote da empresa logo após.
O ideal de comunidade que a Seasons busca para o cenário cervejeiro tem, além do seu lado fraterno, a questão econômica. Para Sewald, seus concorrentes são claros: "o trabalho da Seasons é competir com o desconhecimento do consumidor e com as grandes corporações que simplesmente massifica, vende e pronto".
A cervejaria mantém 70% da sua produção dentro do Estado, mas é possível encontrar uma Seasons em qualquer região do Brasil. Planejando expandir as dimensões da produção local, Sewald e Caroline estão em processo de elaboração do plano de exportação da Seasons. Em um primeiro momento, na região do Mercosul; depois montar um canal de distribuição na Europa e na Austrália, locais onde a empresa já realizou vendas isoladas. Essa pretensão de espalhar a cultura cervejeira é muito clara para Sewald, que afirma que não se pode minimizar a importância da bebida: "a cerveja tem todo um contexto de entretenimento, história, cultura, ciência, tecnologia e arte em estado líquido".

Pequeno espaço do céu

As microcervejarias gaúchas ascenderam a cultura cervejeira. Essa elevação no setor impulsionou novas marcas e novos modelos de produção da bebida no Estado. Além das micros, as nanocervejarias tornaram-se mais competitivas e estabilizadas. Um exemplo desse modelo é a Cervejaria Sagrada, fundada em 2015 por Alexandre Paz, a cervejaria atende aos requisitos mínimos do Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para dimensões da panela de preparo.
No final de 2015, Marcos Ruperti e André Halbig se uniram a Paz e puseram a Sagrada no mercado no ano seguinte. Quando Paz deixou a empresa, Halbig combinou seus conhecimentos sobre produção e apostou no segmento, comprando as instalações da nanocervejaria. "Sou engenheiro mecânico com especialização em controle de qualidade, mas achei que seria um bom negócio comprar e manter a Sagrada."
Mantendo-se como uma nanocervejaria, após os três anos do registro, a empresa produz na sua sede, mas também atua em parceria com as marcas Diefen Bros e Polvo Loco no "tap house" 4Beer, no qual as marcas produzem a bebida. "Adotamos o modelo cigano, e há 9 meses, unimos esforços com as marcas aqui dentro (4Beer) para melhorar a qualidade da nossa cerveja", explica. Desse modo, a Sagrada produz entre 5 mil e 7 mil litros mensais. Segundo o empresário, para tornar rentável uma planta cervejeira, é necessária uma produção de 10 mil litros por mês: "para ganhar dinheiro com cerveja, tem que ter volume".
Pelo berço profissional dentro da indústria, Halbig utiliza seus conhecimentos de produção para aperfeiçoar o produto final da cervejaria: "meu grande foco enquanto empresário industrial é ter a repetibilidade do produto", explica. Segundo o engenheiro mecânico, a repetibilidade de um produto é de máxima importância quando se busca afirmação como marca dentro do mercado.
Sendo uma cervejaria de menor porte, Halbig pretende, em um futuro próximo, tornar-se um prestador de serviços para outras cervejarias: "É impossível fazer a cadeia como um todo, produzindo, envasando, comercializando e cobrando, além de propagar a marca e participar da comunidade", analisa. O objetivo do empresário é participar do segmento de produção de cerveja, apenas como operador, realizando as receitas dos cervejeiros. Essas estratégias somam-se na busca por enaltecer as cervejas produzidas na cidade, bem como propagar a cultura cervejeira na sociedade.