Antes de incluir o serviço de guarda-volumes, o chaveiro Paulo Vitor foi até São Paulo ver como funcionava Antes de incluir o serviço de guarda-volumes, o chaveiro Paulo Vitor foi até São Paulo ver como funcionava Foto: /LUIZA PRADO/JC

Pense no ponto e ganhe pontos

Empreendedores que instalam seus negócios em regiões onde a demanda já parece turbinada

O Consulado dos Estados Unidos da América abriu suas portas em Porto Alegre em junho do ano passado. Antes mesmo da inauguração, empreendedores atentos viram que seria uma oportunidade para começar novos negócios ou incrementar os existentes em torno do local. Afinal de contas, o ponto entre a avenida Assis Brasil e a rua Bezerra de Menezes, no bairro Passo D'Areia, ganhou um fluxo constante e outra importância para a cidade. Saber entender o que a redondeza demanda é uma estratégia que pode gerar resultados positivos. Mas fica o alerta: as adaptações têm de ser constantes, pois nem sempre as coisas funcionam conforme o esperado. 
No entorno do consulado houve um "boom" de guarda-volumes, já que é proibida a entrada com celulares, entre outros objetos pessoais. Paulo Vitor de Souza Barbosa, 31 anos, chaveiro, incorporou o serviço à sua banca. Para isso, foi até São Paulo ver como funcionava por lá. "O que eu percebi é que as pessoas são bem exigentes com a questão de segurança. Então, não podia ser qualquer tipo de armário, que não tivesse chave, teria de ser um bem padronizado", comenta Paulo. Após a viagem, ele foi atrás do mesmo modelo e os instalou junto às chaves e equipamentos. 
O empreendedor calcula ter investido em torno de R$ 4 mil, entre viagem, compra de um computador para recibos e colocação dos armários. O serviço custa entre R$ 10,00 e
R$ 20,00, dependendo se o cliente escolher entre gaveta ou prateleira. O que diferencia é o tamanho e quantidade de objetos que podem ser guardados. Por dia, entre cinco e 20 clientes são atendidos. O chaveiro ainda vê o negócio como um extra na renda, pois o movimento não é tão intenso quanto imaginava. "Não é tudo aquilo, não está o que a gente esperava. Eu não tinha noção de como seria, mas não está do jeito que vi em São Paulo", compara ele, que lucra entre R$ 1,5 mil e
R$ 2 mil só com o guarda-volumes ao mês.
Segundo Paulo, a concorrência é outro fator que interfere. Só na esquina de sua banca, outros três negócios cuidam de pertences. "Todos trabalham na mesma média de preços. A gente tenta fazer uma divisão para todo mundo conseguir pegar serviço", afirma ele.
O guarda-volumes, conforme observa, é o que vem salvando os negócios de outros segmentos que também incluíram os armários. Muitos comércios em volta abriram em função do consulado, como cafés e restaurantes. Porém, se dependesse apenas do fluxo de quem frequenta a instituição norte-americana, a maioria dos empreendimentos já teria fechado, entende o chaveiro.
"O pessoal montou toda uma estrutura aqui, mas não há demanda para isso. As pessoas vêm preparadas para fazer a entrevista e ir embora. Não é que nem no Rio de Janeiro, por exemplo. Como lá é uma cidade turística, o pessoal fica mais tempo, consome o que tem em volta", reflete. Para quem quer abrir um empreendimento próximo a alguma novidade da cidade, Paulo tem uma recomendação: "espere o negócio abrir para ver o que ele realmente necessita". 

O que levar em conta na hora de escolher o local certo para sua empresa

Na hora de alugar ou comprar o ponto de venda, há muitos fatores para prestar atenção. O principal deles é a viabilidade de circulação de pessoas pelo local, conforme explica o vice presidente da Associação Gaúcha do Varejo (AGV), Sérgio Galbinski. "Até o lado da rua que tem sol faz diferença." Você sabia disso?
"As pessoas procuram caminhar na sombra, quando podem escolher. Se à tarde pega muito sol onde sua loja está, as pessoas estarão andando do outro lado da rua", justifica.
Além disso, é importante que as pessoas procurem regiões que tenham a ver com o que será vendido. "Um exemplo clássico é a loja de roupas brancas para profissionais de enfermagem que se instala perto de hospitais."
A escolha de onde abrir um negócio pode se dar a partir do produto à venda, como no exemplo dos tapetes (ao lado), ou das oportunidades que o próprio ponto de venda proporciona, como na história do chaveiro (acima). A seguir, algumas dicas fornecidas por Sérgio:
> Restaurantes de almoço fazem sentido perto de locais que tenham escritórios;
> Imóveis perto de esquinas são bons porque têm grande visibilidade, costumam ter circulação intensa. "Só tem quatro esquinas em uma quadra, então ela é muito visível, é onde concentra um bom número de pessoas para atravessar a rua. Todos os minutos em que a loja conseguir fazer com que a pessoa esteja perto contam, porque podem gerar venda de impulso";
> É necessário levar em conta, se for de necessidade do negócio, a existência de vagas para estacionar na frente. "Não adianta ter grande circulação de automóveis se ninguém pode parar o carro", fundamenta. Principalmente se a loja for de produtos mais pesados para levar a pé, como tintas etc;
> Veja aonde está a circulação de pessoas. Pontos de ônibus são locais estratégicos.

Para abocanhar o público do centro comercial ao lado

Loja Social Express idealizada pelos empreendedores Vitor Vasconcellos e Guilherme Brambilla. Loja Social Express idealizada pelos empreendedores Vitor Vasconcellos e Guilherme Brambilla. Foto: /ARQUIVO PESSOAL
Com 25 anos de história, a Exuberance Noivas, loja de aluguel de roupas para festas, mantém dois pontos no Rio Grande do Sul, um na avenida Independência, em Porto Alegre, outro, recém-aberto, na avenida Sezefredo Azambuja Vieira, em Canoas. Motivados pela inauguração do ParkShoppingCanoas e pelo movimento que vai gerar na Região Metropolitana, os fundadores da marca quiseram lançar, no mesmo bairro do centro comercial, a Social Express Trajes, voltada para o público masculino. 
Guilherme Brambilla, filho dos donos da Exuberance, formado em Administração de Empresas, e seu amigo Vitor Vasconcelos, arquiteto, ambos de 26 anos, sabiam que as atenções do público estariam voltadas ao ParkShoppingCanoas nesses últimos meses. "Abrimos um mês antes da inauguração do novo shopping", comenta Guilherme.
E não foi só eles que tiveram essa ideia. Ao caminhar pela avenida principal e pela região do novo empreendimento é visível a quantidade de restaurantes, bares, lancheiras, pet shops, entre outras operações com tinta fresquinha.
Guilherme comenta que é perceptível o crescimento na região. "Eu tenho representantes que viajam o Rio Grande do Sul inteiro e eles, volta e meia, me dizem que não tem lugar que está crescendo tão rápido quanto aqui. Especialmente essa avenida", afirma.
O negócio de Guilherme e Vitor já existe há dois anos na internet. O site oferecia o serviço de aluguel aos clientes e o produto escolhido era levado até a casa do consumidor. "A gente teve mais de 250 pedidos durante esse tempo", diz. Agora, são atendidos cerca de 100 clientes na loja física por mês. Os aluguéis custam entre R$ 220,00 e R$ 680,00, todos com trajes completos.
E a escolha do ponto parece que trouxe a visibilidade esperada. Os clientes vêm de diversos lugares, como Porto Alegre, São Leopoldo, Novo Hamburgo e Serra.
O lado desafiador de se fixar ao lado de um shopping é a concorrência que ele gera. No Park, por exemplo, há duas lojas que trabalham com a venda de trajes sociais, mas Guilherme considera que isso não atrapalha seu negócio. Pelo contrário. "Todos clientes falam que é positivo a gente ter vindo para cá", comprova.

A parcela residencial da região precisa ter onde comprar tapetes

Pedram trocou região de muitos escritórios pela avenida Nilo Peçanha Pedram trocou região de muitos escritórios pela avenida Nilo Peçanha Foto: / Renan Abraham/divulgação/jc
Nem sempre a escolha do ponto certo é avaliada como prioridade, mas, com o passar do tempo e com a observação do fluxo de clientes, isso fica mais claro. Foi assim com o Império Persa Home e Design, loja que comercializa objetos de decoração, móveis e tapetes Persas, na avenida Nilo Peçanha, nº 2.577, em Porto Alegre. Antes de 2002, o negócio funcionava na avenida Carlos Gomes, até que a mudança foi estratégica. "A Carlos Gomes ficou uma avenida de office, de escritórios. E a Nilo Peçanha começou a pegar o charme das lojas. Então, a gente começou em 2002 com a operação de móveis. A repercussão foi tão boa que decidimos fechar na Carlos Gomes e trazer os tapetes para cá, em 2003", explica Pedram Zaman, diretor de marketing da Império Persa.
A proximidade de outras lojas de rua e também do shopping Iguatemi faz com que a circulação seja maior, em comparação com o antigo endereço. "Aqui, tu vês o Detran, a loja de lingerie Janaína Crescente, a Bontempo, de cozinha, entre outros comércios. Neste bairro, se caminha uma quadra para lá e a característica é residencial. Uma quadra para cá, tem essa pegada totalmente comercial", acrescenta ele, ciente de que muitos de seus produtos atendem a personalidade de moradia da região.
Apesar do saldo positivo, Pedram entende que a mudança do ponto precisa ser bem pensada para não afastar clientes. Por estar, agora, em uma zona mais elitizada da cidade, há quem pense que os preços dos produtos sejam exorbitantes. Mas, segundo ele, "tem para todo mundo". Os valores dos tapetes variam entre R$ 80,00 e R$ 100 mil.
A Império Persa foi fundada pelo pai de Pedram em abril de 1982. De lá para cá, houve alterações no nome, sociedades feitas e desfeitas, até se consolidar no que é hoje. Os tapetes comercializados são, em sua maioria, orientais, vindos do Paquistão, Tibete, Turquia e do Irã. A loja também trabalha com itens da China, caso dos modelos industriais.
Segundo Pedram, 2016 foi um ano complicado para o negócio, pois apresentou uma baixa nas vendas.
O último semestre de 2017, no entanto, salvou os números, apresentando um crescimento entre 7% e 8%. Para 2018, o plano é de um crescimento de até 20% com a nova campanha da empresa, chamada de Tapetes que marcam.
"Os tapetes persas são produtos bem clássicos. A gente tinha vontade de fazer um link com algo mais ligado à modernidade, mais arrojado", comenta Pedram.
Pensando nisso, o tapete foi relacionado à tatuagem. "A pessoa tatuada quer deixar uma marca, quando nasce um filho ou em dedicação a outra pessoa, um momento de vida. O tapete persa é quase indestrutível e também marca um ambiente, uma família, uma geração."
 
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