Nadia faz peças em ferradura, como essa estrutura para equilibrar panelas e chaleiras sobre o fogo de chão, o chamado trempe Nadia faz peças em ferradura, como essa estrutura para equilibrar panelas e chaleiras sobre o fogo de chão, o chamado trempe Foto: FREDY VIEIRA/JC

É possível viver apenas de artesanato?

Conversamos com artesãos e com o Programa Gaúcho de Artesanato para conhecer a realidade de quem escolhe a profissão das atividades manuais

O artesanato é considerado uma das atividades mais antigas da história, com aproximadamente 12 mil anos. Os homens que poliam pedras para produzir armas e objetos de caça e pesca foram os primeiros a explorar essa arte.
De lá para cá, virou profissão e teve seus altos e baixos no mercado, devido, principalmente, a concorrência com as máquinas e padronização de peças. Em pleno 2016 percebe-se uma revalorização do que é personalizado e sustentável, e a partir disso abre-se um caminho de oportunidades.
Seja como ocupação prioritária, um extra financeiro para ajudar durante a crise ou hobby, o trabalho manual movimenta milhões no Rio Grande do Sul.
Apenas em julho foram comercializados R$ 1,165 milhão em artesanato no Estado, conforme o Programa Gaúcho do Artesanato (PGA) considerando somente os artesãos que carimbam suas notas fiscais. Atualmente, há mais de 48 mil profissionais gaúchos devidamente registrados, com uma renda média de R$ 1,6 mil mensais.
Segundo o PGA, nos 10 dias de Expointer, em 2015, por exemplo, foram vendidos R$ 997 mil. Alguns chegaram a faturar sozinhos cerca de R$ 50 mil. No ano anterior, ultrapassou R$ 1 milhão.
Marco Aurélio Garbinatto, 62 anos, e Nádia Garbinatto, 57, de Porto Alegre, estão no meio termo das estatísticas. Faturaram em média R$ 25 mil durante o evento de Esteio em 2015. Esse valor praticamente se repetiu nesta edição, que acabou domingo passado (os números ainda estão sendo calculados).
As peças idealizadas por Marco Aurélio, e produzidas manualmente por ambos, são feitas prioritariamente de ferraduras reaproveitadas. O que explica o nome do negócio: Arte em Ferraduras
A primeira criação foi um suporte de cuia, e logo em seguida já vieram outras. Paneleiro, adegas, mesas, cadeiras, porta-revistas, porta-chaves e cabideiro estão entre os itens.
Eles estimam que são utilizadas 500 ferraduras por mês captadas em fazendas parceiras , o que rende cerca de R$ 4 mil mensais para a família. Os preços das peças variam entre R$ 15,00 (chaveiro) e R$ 1.650,00 (mesa).
A inspiração em desenvolver objetos rústicos veio muito da paixão que o casal tem pela cultura gaúcha. "Desde criança eu gostava deste contato com o campo. Se eu pudesse, morava para fora (no interior)", conta a artesã.
Além das ferraduras, há 37 anos produzem, juntos, móveis em ferro. Chegaram a ter inclusive uma loja, que fora fechada por conta do baixo movimento. "Tivemos de fazer outra coisa. Só os móveis de ferro não davam mais. Hoje, uma renda complementa a outra", revela Marco Aurélio.
Embora fature acima da média com o artesanato, ele acredita que não é simples viver apenas disso. "Algumas peças nossas têm um preço elevado, então até conseguimos um dinheiro razoável. Mas essas pessoas que vendem panos de prato, por exemplo, não têm como viver só disso", compara.
Para ele, o tipo de artesanato e a qualidade do trabalho é o que define o faturamento. A coordenadora do PGA, Marlene Garcia, explica que a renda é muito relativa às técnicas e materiais utilizados. "Tem escultores que pedem R$ 2 milhões em uma peça, mas há quem venda fuxico, que, com certeza, vai ter um lucro menor."
Nádia acredita que para ter sucesso no ramo é preciso inovar sempre. "O público é atraído por novidades. E quem já comprou de ti, não vai comprar de novo se tu não tiveres nada de diferente para oferecer", avisa. A exposição do trabalho, para ela, também é muito importante.
Por isso, a Arte em Ferradura participa de feiras e rodeios em todo o Estado, de onde surge a maioria das encomendas. Apesar das diversas andanças no interior, Marco Aurélio lamenta que, há dois anos, não tem condições financeiras de expor no Parque da Harmonia, durante a Semana Farroupilha.
"Precisamos de um espaço grande para as pessoas verem bem. Daí vai de R$ 5 mil a R$ 6 mil. Quanto temos que vender para pagar isso e ainda ter lucro? Para quem faz artesanato, fica muito pesado", desabafa.

Aposta do estilo gaúcho na Bahia

544855 Jane Buhl trabalha com patchwork e pretende abrir loja em Arraial D'ajuda Foto: MARCELO G. RIBEIRO/JC
Há sete anos, Jane Buhl, 58, de Porto Alegre, utiliza o trabalho manual para complementar sua aposentadoria. Os pedidos chegam através de sua página no Facebook, a Jane Buhl Patchwork. Com o extra, fatura cerca de R$ 1,5 mil mensais. Por uma questão estratégica de concorrência, ela pretende se mudar para a Bahia com os seus produtos e aumentar essa cifra.
Em suas viagens de lazer para o Nordeste brasileiro, a artesã teve a oportunidade de conhecer diversas cidades e seus respectivos trabalhos manuais. "Eles (nordestinos) não têm o artesanato que temos aqui, são técnicas diferentes. Então, acho que vou me destacar."
Com isso em mente, resolveu que vai montar uma loja em Arraial D'ajuda (distrito de Porto Seguro) e apostar na sua especialidade: patchwork.
A empreitada também está baseada em outros fatores, como o declínio de vendas e o término das aulas que ministrava em algumas casas de artesanato - o que lhe garantia grande parte da renda.
Jane conta que, nos primeiros anos, vendia até R$ 3 mil por mês e, com os cursos, faturava cerca de R$ 1,2 mil por turma. Para ela, aliás, uma grande sacada para quem trabalha com artesanato é ministrar cursos. "É muito rentável, pois não há custos, apenas de tempo", opina.
A artesã indica, ainda, muita organização para que o trabalho dê certo e seja rentável. "Quanto menos desperdício tiveres, melhor. Se estás desorganizado, tu podes esquecer que tens um material e precisar comprá-lo novamente", argumenta.
Jane repete a questão da importância dos pontos de exposição do trabalho. "O artesanato só é comprado se for visto, e quanto mais bonita a vitrine mais chama para as compras." Ela já expôs em feiras e lojas com o foco de se fazer conhecida e como ponto para receber encomendas.

Carteira de artesão

A Carteira de Artesão é emitida pela Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social e tem como objetivo identificar o artesão como profissional devidamente registrado e reconhecido pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Entre as vantagens de se ter a carteira é poder usufruir dos benefícios da Previdência Social, isenção do ICMS (a partir da apresentação da nota fiscal de venda no PGA), possibilidade de participação de feiras, atividades desenvolvidas pelo Programa e exposição dos trabalhos em uma das 29 casas do artesão do Rio Grande do Sul, além de poder solicitar a Carteira Nacional de Artesão, que autoriza a venda para outros estados.
Para obter a Carteira de Artesão é preciso realizar testes de habilidade e pagar a taxa de R$ 22,00, respectiva à emissão. Para mais informações, acesse bit.ly/2bEJ3eu
O Programa Gaúcho de Artesanato oferece oficinas e cursos gratuitos, sem a necessidade de possuir a Carteira do Artesão. As atividades são divulgadas em datas bem próximas aos eventos. Quem tiver interesse, fique atento e confira sempre a programação no site www.fgtas.rs.gov.br/eventos 
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