Uliana trabalhou em uma empresa provedora de internet até ser dispensada, em novembro passado, dando início à Uli Bakery Uliana trabalhou em uma empresa provedora de internet até ser dispensada, em novembro passado, dando início à Uli Bakery Foto: JONATHAN HECKLER/JC

Profissionais driblam o desemprego com empreendedorismo

Como profissionais que não conseguem se recolocar no mercado de trabalho criam suas oportunidades?

Após cinco anos de estabilidade profissional, a publicitária Uliana Pietta Lorenzi, 41 anos, perdeu o emprego em novembro passado. Por conta disso, voltou ao antigo refúgio financeiro: a fabricação de doces caseiros com toques artísticos.
Natural de Garibaldi, e agora morando em Porto Alegre, recentemente ela criou a marca Uli Bakery. O diferencial de suas produções remete à infância. Inspirada pela mãe, que é professora de Artes, desde pequena foi apaixonada por desenhos. Seus doces, portanto, servem de tela para formas coloridas, que seduzem o cliente pelo visual. "Por causa dessa relação artística, nenhum doce é igual ao outro", aponta.
Enquanto empregada em uma empresa provedora de internet, Uliana diz que sua renda ficava em R$ 4 mil. Ela, porém, praticamente não via a cor do dinheiro uma vez que seu trabalho a obrigava a deixar a filha, Érica, de oito anos, mais tempo na escola. Consequentemente, seus gastos eram maiores. Com os doces, garante ser possível ganhar entre R$ 1 mil e R$ 2 mil por semana, dependendo da época.
Não é a primeira vez que Uliana recorre aos doces. Em períodos de instabilidade, foram eles que equilibraram as contas. Quando morava em Caxias do Sul, sua produção chegou a 5 mil unidades por semana - e ela montou o quarto de Érica com os lucros.
No cardápio, estão alfajores, docinhos tradicionais, com Nutella e bolos saudáveis (com açúcar mascavo e sem lactose). "São receitas tradicionais das minhas avós. Não coloco farinha para render mais e uso mel puro", exemplifica Uliana. "É uma alternativa aos bolinhos cheios de gordura trans que têm por aí", ressalta, sobre as características das receitas.
As vendas, atualmente, se dão em escolas ou pelas redes sociais. No futuro, a ideia é montar um ponto físico. Uliana, no entanto, não pretende fornecer para confeitarias ou padarias, devido aos preços de negociação. "Não quero prostituir meu doce", avisa, em relação à sua preocupação em manter a qualidade dos ingredientes. Seus produtos custam entre R$ 2,50 e R$ 4,00 - e podem ser encomendados para eventos. O cento dos docinhos tradicionais varia entre R$ 120,00 e R$ 140,00.
Para começar o negócio em casa, a publicitária usou R$ 300,00 para a compra dos ingredientes no Mercado Público de Porto Alegre e contou com a ajuda do marido, Alexandre Moschini. Hoje, ela consegue pagar a escola de Érica, cuja mensalidade é de R$ 900,00, e está confiante sobre esta nova fase. "Sei que vai dar certo."

Empreendedorismo pela primeira vez, mas com todo gás

492490 O engenheiro mecânico André Moraes cuida da segurança de centrais e tubulações de condomínios Foto: Mauro Belo Schneider/Especial/JC
O engenheiro mecânico André Moraes, 44 anos, perdeu o emprego de 10 anos em dezembro passado. Ele chegou a fazer algumas entrevistas depois da demissão, mas os salários não chegavam à metade do que recebia em sua última função, que passava dos R$ 15 mil (além de carro, celular e plano de saúde). A solução foi empreender no ramo em que atua desde a saída da faculdade: o do gás.
Moraes montou, em casa, um escritório e criou site e redes sociais para a ASM Engenharia do Gás. Em seu plano de negócio, ele prevê que consiga atingir o padrão de vida que tinha como empregado dentro de seis meses.
A ASM tem como principal foco o mercado residencial. Condomínios que queiram segurança em termos de equipamentos de gás e que tenham problemas de vazamento são os clientes-alvo de Moraes.
Sua empresa faz inspeções, projetos e manutenção de centrais e tubulações - um segmento que ganhou muita relevância após o episódio da boate Kiss, de Santa Maria.
O desligamento do engenheiro da antiga função foi inesperado. "A gente acaba se dedicando ao negócio da empresa e não pensa no momento em que isso pode acontecer", diz, sobre a saída. Com a experiência, Moraes precisou de um tempo para se desapegar e avaliar as possibilidades que tinha na mão.
Como seu mercado é específico e ele tem um know-how de 16 anos, quis apostar na própria mão de obra. Parcerias, no entanto, são firmadas para alguns laudos que requerem certas capacidades técnicas. No futuro, a intenção é montar um espaço onde possa ter outros profissionais atuando lado a lado.
Recentemente, Moraes fechou um acordo com a imobiliária Guarida, que o indica para síndicos. "Sozinho, eu vi que não conseguiria", confessa. Sua situação atual é de aprendizado e descobertas, já que nunca tinha empreendido e considera que a universidade não o preparou para isso.
Consciente sobre a velocidade de amadurecimento de uma empresa, ele divide os rumos de seu negócio em duas fases: primeiro, a etapa de se sustentar, segundo, a de gerar receita para investir na própria empresa.

O café que surgiu pela incompatibilidade de salário no Rio Grande do Sul

487945 A gaúcha Juliana e o paulista Lattes abriram o Piccolino Café, no bairro Moinhos de Vento Foto: FREDY VIEIRA/JC
O paulista Eduardo Lattes, 43 anos, publicitário de formação, tinha parte na empresa de assessoria de imprensa da família antes de se mudar para Porto Alegre, cidade natal de sua esposa, Juliana Canellas, 41. Em São Paulo, ele faturava cerca de R$ 15 mil por mês. Na capital gaúcha, os empregos lhe ofereciam cerca de R$ 2 mil.
Para manter o padrão de vida que levava em São Paulo, Lattes teve de empreender. Há cerca de um ano, ele comprou um ponto que não ia bem na rua Félix da Cunha, no bairro Moinhos de Vento, e criou o Piccolino Café. Os custos fixos dele, hoje, partem de R$ 15 mil - quantia que consegue cobrir com trabalho diário. A operação abre de segunda a segunda.
"Com o Piccolino, consigo ter certos luxos que com o piso da minha categoria não conseguiria. E, com a minha idade, se inserir no mercado de trabalho não é fácil", considera ele.
Recentemente, Lattes foi diagnosticado com câncer na região da nasofaringite. Como se apaixonou pelo empreendedorismo, a doença não lhe impediu de trabalhar. O movimento constante e o contato com os clientes e funcionários - que chama de família - o mantiveram longe de sintomas de depressão durante o tratamento.
No Piccolino, o carro-chefe é a torta de banana. Outro detalhe que Lattes considera um diferencial é a louça da casa. A porcelana inglesa era de sua avó.
Ser o próprio chefe, apesar da liberdade, também tem seus desafios. "As pessoas veem só o lado glamouroso de empreender, mas esse mês nós investimos
R$ 6 mil em sistemas. E eu raramente consigo sentar aqui."
 

BOM SABER

O desemprego no Brasil passou dos dois dígitos na última pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Economia e Estatística (IBGE): 10,2% dos trabalhadores estão fora do mercado, sem ocupação. É a maior taxa da série histórica, que começou em 2012. Em números absolutos, são 10,4 milhões de brasileiros ociosos.
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