Luz Maria reconhece que sua má gestão foi a responsável pela dívida de R$ 70 mil  Entrevista com a designer Luz Maria Guimarães, para pauta do GeraçãoE sobre fracasso nos negócios. Foto: FREDY VIEIRA/JC

Fracassar faz parte do processo empreendedor

O Brasil ainda vê com maus olhos o erro. Conheça histórias de empreendedores que fracassaram e tiraram lições valiosas do processo

Luz Maria Guimarães, 46 anos, é sócia da Santo Expedito Design, empresa fundada há nove anos em Porto Alegre. A escolha do nome veio da agilidade da profissional em entregar os trabalhos no menor prazo possível. Ao eleger o santo para apadrinhar, ela não imaginou que tocar a empresa, dois anos depois de abri-la, seria mesmo uma causa urgente, quase impossível. Ela ficou com R$ 70 mil em dívidas, sem condições de pagar o próprio pró-labore.
"Eu tinha um bom projeto, uma boa ideia e capacidade de trabalho. O que eu não tinha era noção alguma de como administrar uma empresa", afirma. "Como muito empreendedor, eu achava que era só colocar os computadores, sair trabalhando, e as coisas iriam acontecendo." Antes de decidir abrir o próprio negócio, Luz Maria trabalhou anos em companhias reconhecidas no ramo do design e da publicidade, como a agência DCS, Dez e GAD. "Tu sais com uma visão de funcionário. Eu sabia sentar e fazer o trabalho. E achava que isso bastava", resume. Hoje, ela entende que "tudo em uma empresa é fluxo de caixa". Não saber disso, no passado, gerou um acúmulo de empréstimos para cobrir furos e, com eles, as dívidas.
Até que Luz Maria, em 2009, viu-se num ponto em que precisava agir com urgência. Pensou em três saídas: recomeçar a vida em outro país, arranjar um emprego fixo ou assumir o desafio de salvar a Santo Expedito. Foi o que fez. Rompeu a sociedade que mantinha, fez acordo com funcionários - a equipe de cinco se reduziu a um -, foi elegendo as prioridades de pagamento e negociando dívidas com os bancos. No momento mais crítico, conta, "eu ia para o escritório às 4h e saía às 22h". Lá, ela ficava encarando as planilhas do setor financeiro para tentar entender o que acontecera.
Um dos motivos foi que a empresa não se saía bem das negociações com clientes e fornecedores. "Só o cliente ganhava. Trabalhávamos muito e não víamos o dinheiro entrar na mesma proporção", diz. A partir disso, foi reposicionando a Santo Expedito, que de Editoração passou para Design. Assim, começou a atuar menos como freelancer para agências e a pegar mais demandas de clientes próprios.
Em três anos, as dívidas foram liquidadas. Mas a mudança adquirida neste tempo atravessou os ramos pessoal e profissional. "Eu percebi que tinha que mudar meu jeito de lidar com tudo", explica. "Tive que começar a entender qual vida eu queria ter para entender que tipo de empresa eu queria também, e que valor eu iria atribuir a ela", assume. O nervosismo foi acalmando, quando, aos poucos, as contas foram desaparecendo.
A palavra que guiou o processo de reerguimento foi maleabilidade. Enquanto as contas iam sendo pagas, Luz fez uma formação de terapeuta em Filosofia Clínica, o que, segundo ela, ajudou muito. "Eu passei, a partir desta formação, a ter uma maleabilidade maior, uma possibilidade de negociar até comigo mesma e lidar com a minha ansiedade em relação aos negócios", expõe.
Aos poucos, aprendeu técnicas de negociação, participou de workshops, palestras, cursos e recebeu ajuda gratuita de um coach administrativo. "Eu sabia que isso tudo era fruto de uma má gestão minha", lembra.
Hoje, Luz Maria é sócia da amiga Claudia Machado, 42, e a característica maleável segue guiando a empresa.
"O meu trabalho se modificou muito. Agora, eu muito mais articulo coisas, parcerias, projetos. Não sou mais aquela que faz uma cartilha empresarial em uma tarde", responde. Ela conta que, durante a crise, as sócias tiveram a chance de lidar mais criativamente com a empresa, buscando novos produtos e maneiras de impulsionar o trabalho. "Quando tu te abres, tudo acontece."
>> NOSSA OPINIÃO: Veja o lado bom do erro

Um tropeço que é uma beleza

Alexandre Serodio fundou o Beleza na Web após fracassar com salão Entrevista com a designer Luz Maria Guimarães, para pauta do GeraçãoE sobre fracasso nos negócios. Foto: FREDY VIEIRA/JC
Fundador do Beleza Na Web, e-commerce de cosméticos brasileiro, Alexandre Serodio, 41, começou a trabalhar muito cedo, inspirado pelo exemplo do pai, Ademar, presidente da Avon na América Latina na década de 1990. Serodio, aos 13 anos, vendia ostras na praia, e mais tarde, estudante de Economia na PUC-Rio, começou a carreira precoce.
Aos 23 anos, era responsável pela conta da marca Unilever na International Flavors & Fragrances (IFF), multinacional de perfumaria. No ano seguinte, assumiu a gerência de marketing. Aos 26, era diretor de vendas da Jafra, hoje uma das mais rentáveis empresas de venda direta do mundo. Jovem e com a carreira em ascensão, movimentos no mercado o fizeram se perguntar qual impacto estaria fazendo na sociedade em 10 anos. "Aí, fiquei deprimido. Não estaria fazendo é nada", rememora.
Desta prerrogativa, já fora da Jafra e trabalhando em uma fábrica de biodiesel - ambiente que em nada se identificava -, largou o emprego e virou sócio de um salão de beleza em 2005, no bairro Itaim, em São Paulo. O questionavam: "você abandonou sua carreira para ficar sócio de um salão de esquina?". Em busca de diferencial, além dos atendimentos, ele renovou os serviços vendendo produtos por telefone.
Mas a estratégia não funcionou. "E aí, deu tudo errado, o salão já estava com dificuldade, e não conseguimos progredir com a proposta", relata. Por mais que o empreendedor tenha que correr riscos, Serodio avisa que existe diferença entre risco e aventura. "Risco você calcula, aventura você se joga e vê o que acontece. E foi o ensinamento que eu tive, o de transformar a aventura em risco", conta, após fracassar na empreitada de diversificar o salão. Depois da tentativa, resolveu começar do zero - de novo.
Alugou uma sala, comprou móveis e foi conversar com as empresas de cosméticos, dizendo que iria montar um site e recomendar produtos como cabeleireiro on-line. Por não ser um salão de beleza, muitas marcas fecharam as portas para ele. Mesmo assim, Alexandre passou a comprar de distribuidoras. Surgiu, aí, outro entrave: não havia dinheiro em caixa para o estoque. "Quebrei na pessoa física", conta.
No início do e-commerce, o Beleza na Web era Serodio, um desenvolvedor para o site e um motoboy, Washington Roque, que hoje toca a operação logística da empresa no Tocantins. Até processo judicial da L'oreal eles sofreram, mas ganharam a causa. "Se você vai empreender, tem que saber que está tudo contra você, que é difícil pra caramba", emenda Serodio.
Atualmente, o site da varejista tem 4 milhões de visualizações por mês e, em 2015, o faturamento passou dos R$ 100 milhões. O diferencial desta nova fase do Beleza na Web está nos investimentos captados. "Conseguimos convencer pessoas inteligentes de que o Brasil tem um potencial muito grande a longo prazo", sustenta Serodio. Estas "pessoas inteligentes" são a Kaszek Ventures, empresa de investimentos dos fundadores do Mercado Livre, e o fundo norte-americano Tiger Global, que tem investido pesado em e-commerces brasileiros líderes, como Netshoes, Peixe Urbano, Catho e Decolar.com.
Agora, 11 anos depois de ter feito a si mesmo a pergunta que mudou sua vida, Serodio acredita que o que importa são os valores que se constroem. "Sonhar pequeno e sonhar grande gasta a mesma energia. Sonhar grande é mais desafiador, mais emocionante, mais inspirador", recomenda.
 

Junto ao erro,o aprendizado

Afif participou do Fórum da Liberdade, na Pucrs, neste mês Entrevista com a designer Luz Maria Guimarães, para pauta do GeraçãoE sobre fracasso nos negócios. Foto: FREDY VIEIRA/JC
Segundo pesquisa realizada pelo laboratório de análises Mission Control, de setembro a outubro de 2015, menos de 2% das menções nas redes sociais quando o assunto é empreendedorismo são sobre fracasso. No entanto, ele perpassa todo o processo de empreender, da fase embrionária à execução. Além do mais, é o motor para o aprimoramento, uma vez que identificar as falhas do negócio é essencial para crescer. Ao contrário dos Estados Unidos, onde a cultura do erro é bastante cultuada (não é incomum empreendedores reunirem-se para contar sobre seus fracassos), no Brasil, segundo a mesma pesquisa, a palavra empreender está ligada às palavras "crise" e "oportunidade".
Para o presidente do Sebrae nacional, Guilherme Afif, no entanto, independentemente do período de crise, "em qualquer circunstância, você precisa estar com o pé no chão, e não dar o passo maior que a perna". Ou seja, há maneiras de evitar erros. Em contrapartida, ele ressalta que não se pode ter medo. "Aqui no Brasil, nos acostumamos a massacrar quem errou, quebrou", avaliou Afif, durante sua passagem por Porto Alegre.
Artigo da especialista em gestão e liderança Amy Edmondson, publicado na Harvard Business Review, afirma ser importante, além de reduzir o estigma do insucesso, criar uma "cultura do aprendizado". Nisso, o líder tem um papel essencial, de incentivar iniciativas experimentais. "Somente um líder pode criar e reforçar uma cultura que neutralize o jogo da culpa e faça com que as pessoas se sintam autorizadas a errar e responsáveis em aprender com o erro", cita. "Nos EUA, o sujeito que quebrou é olhado de forma diferente. Eles acham que quem quebrou tem mais chances da próxima vez do que quem não quebrou, porque aquele já passou pela experiência do erro, não vai repeti-lo. É uma questão de cultura que vai chegar no Brasil em breve", emenda Afif.
 
 

BOM SABER

Amy C. Edmondson ocupa a cadeira de Novartis Professor na Harvard Business School e é autora de livros sobre desenvolvimento de organizações e equipes. O artigo dela na íntegra sobre estratégias de aprender com os erros você pode ler em: https://bit.ly/1RUCEYA
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