Loja de decoração do DC Shopping, Ornatum inaugura espaço dedicado a homens. Os sócios Everton Sbruzzi e Marcelo Werlang investiram R$ 500 mil e dizem ter ouvido o mercado Loja de decoração do DC Shopping, Ornatum inaugura espaço dedicado a homens. Os sócios Everton Sbruzzi e Marcelo Werlang investiram R$ 500 mil e dizem ter ouvido o mercado Foto: FREDY VIEIRA/JC

Empreendedores mostram não haver mais campo restrito para homem ou para mulher

Loja de decoração inaugura espaço para clientes do sexo masculino, e mulheres assumem controle da churrasqueira e vendas de pneus. Empreendedores estão quebrando paradigmas sobre a questão do gênero

Atentos à demanda de interesse masculino por decoração, os sócios Éverton Sbruzzi, 33 anos, e Marcelo Werlang, 37, querem que sua loja, a Ornatum, seja reconhecida como a primeira do Brasil a lançar um espaço voltado para homens, a partir de maio. Dos 800 metros quadrados ocupados no DC Shopping, em Porto Alegre, 200 deles serão dedicados à clientela. Foi um movimento, dizem, que surgiu ao ouvirem o mercado.
A ideia é que os itens para ambientes como escritório, biblioteca, garagem e canto do churrasco, inclusive com estilo retrô, fiquem no piso superior. Também serão servidas cervejas artesanais, haverá uma adega e artigos para compor o home theater.
O local deve receber confrarias e eventos - tudo para que relacionamentos gerem negócios. "Ao longo dos anos, viajei muito pelo Brasil e ouvi comentários sobre a falta de peças para homens", diz Werlang, que também tem uma fábrica de móveis. "A gente percebe que os homens ficam entediados nas lojas convencionais."
A Ornatum funciona desde novembro, e recebeu um investimento de quase R$ 500 mil. A proposta é que os casais frequentem o ponto de venda e encontrem artigos para todos os perfis. Com experiência no ramo varejista, os sócios percebem que geralmente a mulher, na hora de comprar um móvel ou adereço, escolhe pelo design e conceito. Já o homem prioriza o conforto. Mas não é regra. "Talvez isso não aumente o faturamento, mas queremos nos aproximar dos nossos públicos de interesse", ressalta Sbruzzi sobre a novidade.
E será que o homem é econômico nesse nicho? "Quando são peças para si, ele fica menos comedido, não é tão preocupado com custos", avalia Werlang.
Como o assunto é pluralidade, a discussão sobre identidade e papéis de gênero não é nova e vai longe. Hoje, o que acontece é uma virada sociocultural no velho padrão binário, ainda que aos poucos.

A publicitária que quis assumir o fogo e fez disso profissão

460082 Clarice Chwartzmann, conhecida como A Churrasqueira, ensina mulheres a assumirem o comando do assado através de seus cursos Foto: Tatiana Feldens/Divulgação/JC
Clarice Chwartzmann, 51 anos, publicitária de formação, hoje é conhecida como A Churrasqueira, e quer que mais mulheres se aproximem da brasa.
Ela trabalhou durante muitos anos como empregada de grandes empresas. Quando foi se aproximando dos 50, teve a sensação de estar constantemente "vestindo a camiseta dos outros". Queria vestir a própria camiseta, e, por isso, fez um resgate para redescobrir o que lhe fazia bem: a resposta foi o churrasco.
"Eu tinha aquela sensação de desencaixe. Me surgiram muitas perguntas sem respostas sobre o meu papel no mundo. Foi um momento superdifícil, por isso resolvi parar e me escutar. Me recolhi e fiz um momento de contemplação e silêncio, o que me fez olhar para a infância e descobrir as coisas importantes da minha história e que me faziam feliz", descreve.
Num processo de redescobrimento de si mesma, Clarice percebeu que estar ao redor do fogo sempre foi um momento de felicidade, de compartilhar experiências alegres. Quis fazer disso uma profissão, e criou A Churrasqueira.
Com o tempo, percebeu que não queria aquela satisfação da proximidade com o carvão de forma egoísta. Quis que outras mulheres assumissem esse papel do assado - tão vinculado ao homem. Suas convicções tinham tanta verdade, como ela mesma define, que o negócio deu certo. Hoje, Clarice representa uma quebra de paradigmas por atuar num ramo, normalmente, considerado masculino no Brasil.
A aposta, em 2014, de trazer as mulheres para perto da churrasqueira em pouco tempo repercutiu nacionalmente. Ela foi entrevistada por mais de 15 minutos no programa Mais Você, da Ana Maria Braga, e palestrou no TEDex, em São Paulo.
"Por que as mulheres não fazem churrasco se é algo tão prazeroso? É uma gastronomia informal, que aproxima as pessoas. Quando somos convidados, ficamos felizes. Foi por isso que quis ensinar as mulheres a fazer. Quero que elas enxerguem o prazer ao redor do fogo", explica.
O fogo, aliás, como Clarice lembra, foi o responsável pelo desenvolvimento do cérebro humano na era da descoberta de seu uso para assar os alimentos. "Mas se deixou lá atrás outro órgão: o coração", compara.
Para ela, o churrasco é um ritual, e a mulher tem um papel de resgate de conversas. "Quero resgatar o elo perdido, voltar ao ponto em que a mulher tinha a responsabilidade de cuidar do fogo", ressalta.
Os primeiros cursos de churrasqueira para mulheres promovidos por Clarice lotaram graças a sua grande rede de contatos. Ela calcula que cerca de 250 já tenham aprendido as suas técnicas. Além do Rio Grande do Sul, já promoveu edições em São Paulo e Minas Gerais.
A Churrasqueira ainda está em fase de construção do plano de negócios, pois pode ter muitos desdobramentos. Entre eles, cursos, programas de TV, geração conteúdo, publicação de livros. "A mulher precisa sair do fogão e ir para brasa criar o que quiser. O primitivo pode ser algo espontâneo", destaca, orgulhosa por sua mudança de rumo.

As vendedoras de pneus

464698 Equipe de atendimento e vendas da KD Pneus, de São Paulo, composta apenas por mulheres, teve de superar desconfianças no início Foto: KD Pneus/Divulgação/JC
Na KD Pneus, e-commerce automotivo de São Paulo, a equipe de atendimento e vendas é formada somente por mulheres. Segundo Mariana Bertolini, gerente de atendimento, alguns clientes ainda se surpreendem.
No início da empresa, fundada em 2007, a resistência era maior. "Quando passávamos alguma informação um pouco mais técnica, nem sempre nos davam credibilidade", conta ela. Partindo do princípio de que "ninguém entende de pneus, a menos que trabalhe com isso ou que tenha tido problemas sérios com eles", Carlos Molina, diretor e fundador do e-commerce, procurou recrutar profissionais que tivessem o traquejo suficiente para realizar um atendimento especializado. Assim, a equipe de sete mulheres se formou.
Atualmente, 80% do tráfego da empresa é masculino. No passado, alguns clientes exigiam ser atendidos por homens, "devido a esse paradigma cultural". "A pessoa tem de saber que está falando com um especialista no atendimento, não importa o gênero", sustenta Molina.
"São pessoas, independentemente do gênero, orientação sexual, religião. A gente trata por igual mesmo. Não existe sexismo ou fragmentação", reforça. Para eles, a inserção cada vez maior de profissionais em ramos não usuais culturalmente é benéfica. "O diferencial na nossa empresa não é o fato de sermos mulheres, mas de prezarmos por um bom atendimento", emenda Mariana.

Rever os papéis

460904 Patrícia Klaser Biasoli, estatística da FEE Foto: MARCELO G. RIBEIRO/JC
Segundo Patrícia Biasoli, estatística da FEE, que estuda mulheres em cargo de gestão na iniciativa privada na Região Metropolitana de Porto Alegre, a presença da mulher vem reinventando o mercado, mas ainda há muitas disparidades de gênero.
GeraçãoE - Por que é importante rever os papéis de gênero dentro do empreendedorismo?
Patrícia Biasoli - Observa-se, na Região Metropolitana de Porto Alegre, que a participação das mulheres no mercado de trabalho vem crescendo enquanto a dos homens permanece no mesmo patamar. A inserção feminina no mercado de trabalho de uma forma geral é fruto da luta feminina assim como da necessidade econômica de contribuir para o orçamento familiar, bem como proveniente do aumento da escolaridade das mulheres e da redução das barreiras culturais para o seu ingresso delas no mercado de trabalho. As mulheres querem e precisam trabalhar, e para isso estão rompendo barreiras para conquistar seu espaço no mercado de trabalho, e vejo o empreendedorismo como um exemplo dessa inserção feminina neste universo.
GE - Como os empreendimentos podem tocar na questão de gênero sem reforçar preconceitos, por exemplo? Sem ser segregacionista?
Patrícia - O preconceito e a segregação ocupacional ainda é muito presente, apesar do aumento da inserção feminina, há uma tendência, ainda que lenta, de as mulheres ocuparem funções tradicionalmente masculinas ("guetos masculinos"). Além disso, um bom indicativo da ausência de segregação é a igualdade de rendimento. Os estudos apontam que a segregação ocupacional é a causa principal do hiatos salarial entre gêneros. 
GE - O empreendedorismo ainda está à margem de questões de sexualidade?
Patrícia - Acredito que sim. Observa-se que as mulheres estão ascendendo profissionalmente em um cenário adverso, no qual, no âmbito da reprodução, as atividades domésticas, os cuidados com filhos e família ainda estão concentradas nas mulheres e no, âmbito da produção, a segregação ocupacional erige-se como barreira de acesso ou de retenção do desenvolvimento das carreiras das mulheres. O sucesso destas mulheres exemplifica a tendência de rompimento destas barreiras. Além disso, num contexto do melhor uso do tempo e necessidade de conciliação entre trabalho remunerado e não remunerado (atividades domésticas), acredito que o empreendedorismo feminino seja uma alternativa para conciliar a sua vida profissional e as suas atividades domésticas diárias, que ainda estão atreladas as mulheres, em especial com filhos pequenos, gerando uma sobrecarga de trabalho.
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