Alexandre Wohlgemuth de Souza*
A eleição termina na urna, mas parece que ninguém avisou ao grupo da família. Ali no WhatsApp, a apuração segue sem prazo para acabar. O bom dia vem acompanhado de denúncia, o vídeo chega com sentença pronta e até a foto do almoço corre o risco de provocar uma crise institucional. Tem família precisando de um ministro só para decidir quem leva a sobremesa. O humor até ajuda a respirar, mas o cansaço é real.
A política, que deveria nos permitir discutir o país que queremos, tem ocupado espaço demais nas relações que precisamos preservar. Aos poucos, vamos conhecendo a preferência eleitoral de todo mundo e esquecendo como essas pessoas são fora dela. O vizinho que emprestava a escada virou “aquele que vota errado”. A prima que ajudou a cuidar da nossa mãe passou a ser “redefinida” por uma publicação. O amigo de décadas agora cabe numa palavra atravessada. É pouco espaço para tanta história.
Nos municípios, essa divisão tem rosto, endereço e encontro marcado ali na esquina. Nas cidades menores ninguém vive apenas entre os seus. Quem pensa diferente está na mesa ao lado, atende no comércio, trabalha na prefeitura, participa da associação do bairro. Pode ser o professor do nosso filho ou a pessoa que nos oferece uma carona. No cotidiano das cidades, a vida nos coloca diante de uma realidade que as redes sociais permitem evitar: precisamos uns dos outros. O buraco na rua incomoda eleitores de todos os partidos. A falta de água atravessa os muros das casas sem consultar bandeiras. Quando uma ambulância é chamada, a pergunta que importa é onde está o paciente. Há uma urgência concreta na vida das cidades que deveria nos ajudar a reencontrar alguma medida de serenidade.
Mas isso não exige abandonar convicções, deixar de fiscalizar governos ou tratar injustiças com indiferença. A democracia precisa de divergência, de cobrança e de gente disposta a participar. Mas a firmeza de uma opinião não depende do volume da ofensa. Podemos defender uma ideia sem desejar a humilhação de quem está do outro lado. Aliás, talvez uma boa regra para as redes fosse esta: antes de publicar, imaginar que será preciso repetir a frase, olhando nos olhos da pessoa, na fila do supermercado. Muita valentia digital perderia a conexão antes de chegar no caixa.
Prefeitos, vereadores e lideranças locais têm responsabilidade nesse ambiente. Suas palavras circulam por uma comunidade em que os conflitos permanecem depois do discurso. Uma provocação pode render aplausos por alguns minutos e constrangimento por muitos meses, até anos. Governar também exige cuidar das condições para que a cidade consiga conversar. E nós, cidadãos, podemos começar por gestos pequenos. Conferir antes de compartilhar. Esperar a irritação passar. Telefonar em vez de responder com uma acusação. Aceitar que alguém querido pode chegar a uma conclusão diferente da nossa sem ter perdido o caráter.
Em algum momento, será preciso guardar as bandeiras, recolher o material de campanha e voltar à reunião da escola, ao trabalho e ao almoço de domingo. Seria bom chegar lá ainda conseguindo sentar à mesma mesa. O município é esse lugar onde o Brasil deixa de ser uma discussão distante e passa a ser convivência. É onde alguém percebe nossa ausência, pergunta pela nossa saúde e aparece quando precisamos. Que a gente consiga superar qualquer eleição preservando essa disposição de cuidar. Depois da urna, a cidade continua. E seria triste vencer uma discussão sobre o futuro do país e perder, no caminho, alguém com quem gostaríamos de compartilhá-lo.
*Advogado, Especialista em Direito Público, Governo Digital e Licitações e Contratos. Consultor em Administração Pública