Há calçadas que parecem ter sido projetadas para uma prova de obstáculos. Falta apenas alguém entregar uma medalha a quem chega na esquina. Aos 20 anos, talvez se atravesse o percurso distraidamente. Aos 70, cada buraco pode decidir se haverá passeio ou mais uma tarde dentro de casa.
O Rio Grande do Sul está envelhecendo. Segundo dados do Departamento de Economia e Estatística, divulgados neste ano, pessoas com 60 anos ou mais representam quase 21% da população, enquanto os menores de 15 anos são pouco menos de 18%. A expectativa de vida chegou a 76 anos no triênio 2022–2024. Viver mais é uma conquista. A questão é saber como os municípios estão acompanhando essa mudança.
Por muito tempo, as cidades foram planejadas para receber mais moradores, mais alunos e novos bairros. As projeções apontam para um Estado que poderá começar a perder população nos próximos anos. O futuro municipal vai exigir outra conversa: além de crescer, será preciso adaptar. E essa adaptação começa bem antes da porta do posto de saúde. Começa no tempo do semáforo. Na parada de ônibus com cobertura. No banco da praça que permite um descanso mais confortável. Na iluminação do caminho. Na calçada em que duas pessoas conseguem conversar enquanto caminham, sem uma delas precisar olhar permanentemente para os pés.
Também passa pela prefeitura digital. É ótimo resolver tudo pelo celular, desde que o cidadão não precise convocar o neto, recuperar três senhas e provar para um computador que não é um robô. Há uma ironia nessa cena: alguém que trabalhou a vida inteira precisa identificar semáforos em nove fotografias para conseguir atendimento.
Modernizar exige facilitar o acesso, inclusive oferecendo ajuda presencial. Na saúde, o envelhecimento pede acompanhamento, prevenção e cuidado continuado. Na assistência social, atenção a quem vive sozinho e às famílias que cuidam de pessoas dependentes. No planejamento urbano, acessibilidade. Na cultura e no esporte, oportunidades de convivência. Quem chegou aos 60 não virou automaticamente paciente: continua sendo consumidor, trabalhador, vizinho, eleitor e morador da cidade. Uma oficina de grupo, uma caminhada feliz e até um baile para terceira idade, podem fazer parte dessa resposta.
A política pública não para. Ela precisa continuar na segunda-feira, depois que o salão fecha e cada participante volta sorridente para casa. O orçamento municipal precisa acompanhar esse novo retrato. Os dados demográficos precisam entrar nas decisões sobre equipes, equipamentos, transporte e espaços públicos. Do contrário, teremos planos novinhos em folha para uma população que já mudou.
Talvez um bom teste de gestão seja imaginar o próprio envelhecimento naquela cidade. Conseguiremos atravessar a rua, pegar o ônibus, encontrar amigos e resolver uma demanda sem depender de alguém? Se a resposta exigir excesso de coragem, preparo físico e um neto especialista em informática, ainda há bastante trabalho pela frente.