Manter um clube de futebol em atividade é um desafio financeiro de alto custo, e a instabilidade nos cofres impacta diretamente o desempenho em campo. De acordo com o economista e fundador da Pluri Sports, Fernando Ferreira, o esporte vive uma forte inflação impulsionada por folhas salariais elevadas, custos logísticos e taxas federativas.
Antes da sanção da lei da Sociedade Anônima do Futebol (SAF), em 2021, os clubes funcionavam, em regra, como associações, modelo que limitava a entrada de investidores externos. Sem alternativas viáveis para equilibrar as contas, a saída recorrente era o atraso ou o não pagamento de obrigações, prejudicando diretamente jogadores e credores. “Foi acontecendo por anos e anos, essa prática tornou-se o que hoje são dívidas gigantescas. Você pode ver que, invariavelmente, as dívidas dos clubes são de dois tipos principais: tributária e trabalhista”, explica Ferreira sobre a origem do endividamento histórico das equipes.
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Ferreira ressalta que, somando o alto endividamento ao encarecimento da gestão, as instituições acabam caminhando para a falência financeira. “Ou seja, o clube vai tendo uma falência esportiva, que é a perda da importância e da relevância. O time vai ficando fraco porque chega uma hora em que ninguém quer jogar ou trabalhar nele”, salienta o economista. Um exemplo prático foram equipes como Vasco da Gama, Botafogo e Cruzeiro, que que caíram para a segunda divisão nacional e tiveram dificuldades de sair de lá por reflexos de problemas financeiros anteriores, assim flertando com a falência esportiva. Atualmente, os três se transformaram em SAF e voltaram para a primeira divisão.
Em outubro de 2025, os sócios do Brasil de Pelotas aprovaram em assembleia o modelo de SAF para o clube. “Sabíamos que Pelotas era uma das cidades com maior histórico de formação de jogadores de qualidade do Brasil, baseado em pesquisas que a gente fez, que mostravam que Pelotas era a oitava cidade que mais forneceu jogadores para a Seleção Brasileira nos últimos 25 anos”, ressalta Ferreira, que também é diretor da SAF do Brasil de Pelotas, sobre as qualidades que influenciaram na proposta.
O clube fez história ao se tornar o primeiro do Rio Grande do Sul a adotar o modelo de SAF, firmando um acordo de investimento plurianual estimado em cerca de R$ 141 milhões ao longo de uma década, estruturada para modernizar o estádio Bento Freitas, construir um centro de treinamento próprio e pagar as dívidas de R$ 50 milhões via recuperação judicial.
Atualmente, o processo de implantação avança com a reorganização administrativa interna, o que inclui a retomada de estruturas antes terceirizadas, como a categoria de base. No âmbito esportivo, o time vive uma fase decisiva de temporada na Divisão de Acesso do Campeonato Gaúcho. A equipe, que foi rebaixada em 2025, tenta retornar ao cenário da elite estadual em 2027.
PELOTAS RECEBE SEGUNDA PROPOSTA DE COMPRA
Já o principal rival do Brasil, o Pelotas, recebeu pela segunda vez uma proposta de SAF. O projeto prevê um valor de R$ 190 milhões para o setor imobiliário e R$ 50 milhões para o futebol ao longo de 10 anos. A análise está na fase inicial. “O Pelotas é um clube atrativo para o mercado, mas, claro, a gente também tem que estar sempre zelando, sendo responsável para que toda e qualquer negociação que possa vir a acontecer seja boa para o clube”, afirma o presidente do Conselho Deliberativo do Pelotas, Gabriel Ribeiro. Ele destaca, ainda, que atualmente o clube não possui dívidas e que os salários estão em dia. Isso é resultado da contribuição dos sócios, dos patrocínios e, principalmente, dos aluguéis. Ao redor da Boca do Lobo, salas comerciais são alugadas para os mais diversos empreendimentos, como fast-foods, restaurantes e ferragens, entre outros.
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No âmbito do futebol, a equipe sabe que permanecerá, por mais um ano, na Divisão de Acesso. O clube não conseguiu atingir a fase decisiva da competição, terminando a classificatória na 11ª colocação.
FARROUPILHA AGUARDA INÍCIO DA CONSTRUÇÃO DO NOVO ESTÁDIO
Já a situação financeira do Farroupilha é a mais delicada dos três times pelotenses. No ano do centenário, o clube não possui uma “casa”. Isso ocorreu porque, em 2024, o estádio Nicolau Fico, localizado no bairro Fragata, foi vendido por R$ 10 milhões e, posteriormente, foi demolido para a construção de um supermercado. “Surgiu uma empresa idônea que quis comprar, que foi a construtora Navarini. Ela nos daria um estádio, né? E pagaria todas as nossas dívidas e construiria um estádio de 4 mil lugares para nós. E isso aí foi feito, mas depois a direção resolveu construir o estádio”, relata o presidente do Conselho Deliberativo do Farroupilha, Alcy Moraes, afirmando que, antes da compra, o espaço estava previsto para ir a leilão.
O novo estádio se chama Arena Ninho do Cardeal, em homenagem ao ídolo do time, e deve ser construído na avenida 25 de Julho. Entretanto, a obra sofreu com pausas devido a ordens judiciais por conta de dívidas trabalhistas. Conforme Moraes, a expectativa é que as dívidas sejam quitadas e a obra retorne, com previsão de entrega para o fim de 2026.
Por enquanto, os jogos acontecem no Estádio Estrela D'Alva, do Guarany de Bagé, e a principal receita são os patrocínios de empreendimentos locais. Atualmente, o Farroupilha é comandado pelo técnico Bruno Coelho e disputa o Campeonato Gaúcho da Série B, que equivale à terceira divisão estadual.