O amor pelo futebol é um sentimento que pode ser perpetuado nas famílias mais fanáticas por clubes. Quando o assunto são os camisetas regionais, essa paixão ganha traços ainda mais intensos, tanto pela proximidade quanto pelo orgulho de carregar o escudo da própria cidade no peito. Em Pelotas, esse sentimento e devoção ganham contornos próprios. Inclusive, corre um ditado popular de que o torcedor dos três clubes locais não divide espaço com a dupla Grenal.
Na maioria dos casos, a escolha de um time passa de geração em geração, por influência da família. “Meu pai me contava sobre o Pelotas e eu fui com seis anos de idade à final da Copa da Federação Gaúcha de 2008. E mesmo com pouca idade eu me lembro que o Pelotas foi campeão e o estádio estava lotado”, relembra o torcedor Caetano Retzlaff sobre como nasceu o amor dele pelo Esporte Clube Pelotas. Na ocasião, a torcida invadiu o gramado para comemorar a vitória, por ser criança Retzlaff não participou do momento, mas foi ali que percebeu que queria vivenciar aquela emoção para sempre.
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Quando chegou à adolescência, ele passou a frequentar os jogos na Boca do Lobo com mais frequência e, já na vida adulta, começou a viajar para acompanhar o time. O torcedor vive intensamente cada partida, como em 2024, na semifinal da Divisão de Acesso contra o Inter de Santa Maria. “Eu fui com meu pai e a gente estava na desvantagem, na parte destinada à torcida visitante. E era um negócio ruim em questão de logística no estádio, mas foi bem marcante porque a gente ganhou de dois a um e o nosso time era bem pior”, relata, apontando este como um dos momentos mais marcantes que já presenciou.
Fanatismo pelo Lobão está eternizado em tatuagem
Samantha Beduhn/DIVULGAÇÃO/CIDADES
Entre as “loucuras” já feitas para acompanhar o time, Retzlaff conta que, durante um período em que trabalhava no turno da noite, emendou a saída do serviço com uma excursão para assistir ao Pelotas em São Leopoldo. Foram horas de viagem e sem se alimentar direito, mas o cansaço não o impediu de torcer e vibrar. Além disso, a primeira e única tatuagem que ele tem é o escudo do Pelotas. “Eu tenho uma paixão pelo Pelotas. Além de eu falar, além de eu viver o Pelotas, eu queria deixar um registro no meu corpo, na minha pele, sobre o time que eu amo”, diz Retzlaff.
No lado xavante, a paixão permanece. "O Brasil sempre foi muito presente na família. Eu não lembro, mas eu devo ter ouvido falar nele no dia em que eu nasci, porque eu nasci no dia de um BraPel", assegura o torcedor Leandro Sinott sobre ter crescido em uma família fanática pelo time.
A participação do Xavante no Campeonato Brasileiro de 1985 foi marcante para Sinott, que tinha nove anos na época. "Lembro de cada jogo, de cada etapa, que foram jogos incríveis, fantásticos. Ali estão meus ídolos, as pessoas que fortaleceram essa paixão", conta Sinott.
O torcedor rubro-negro acumula histórias com o clube do coração. Ainda na infância, viajou com o pai em uma excursão de ônibus para São Paulo, onde assistiram ao jogo do Brasil contra a Portuguesa. "Eu lembro como se fosse hoje daquele 4 a 1para a Portuguesa no Campeonato Brasileiro de 1984. Fomos desclassificados e voltamos em mais de 24 horas de viagem", relembra Sinott da primeira de muitas partidas em que ele viajou pelo Xavante.
A vontade de acompanhar o clube em todos os momentos é tão forte que, mesmo morando em Minas Gerais há 15 anos, Sinott retorna a Pelotas para ver os jogos do Brasil. "E não foram nem uma ou duas vezes. A gente aproveita para ver a família também, mas sempre tem o Brasil nessa história", afirma o torcedor. Assim como ele viveu momentos especiais com o pai torcendo pelo Brasil, hoje ele passa esse amor para os filhos. "Eu sempre digo para meus filhos: é muito importante ter a maturidade de entender e saber que isso é um amor; vai ter altos e baixos, perdas e derrotas, mas no fim da história é sempre feliz", finaliza Sinott.
A história do futebol em Pelotas não se resume apenas à dupla BraPel. A paixão da cidade também veste as cores tricolores do Farroupilha. "Eu passei a torcer pelo clube antes de nascer", diz o torcedor Carlinhos Nogueira, que teve parentes diretamente envolvidos na fundação. O coronel José Plácido de Castro Nogueira, seu tio-avô, foi patrono do time e, durante anos, Antônio Carlos Nogueira, pai de Carlinhos, atuou como diretor. Nogueira conta que os primeiros chutes de bola que deu foram no Estádio Nicolau Fico, ainda durante a infância.
Na década de 1970, a família de Nogueira se mudou para Porto Alegre. Durante o período em que morou na Capital, ele permaneceu acompanhando o Fantasma, como o clube é conhecido. "Aos domingos, meu pai reunia dois amigos, mais a mim e meu irmão, e nós vínhamos de Porto Alegre exclusivamente para assistir ao jogo do Farroupilha", relembra Nogueira, contando que fez isso durante muitos anos. Em 1996, ele retornou para Pelotas e, ao longo dos anos 2000, assumiu o cargo de diretor, seguindo os passos de seus antepassados. Entre 2005 e 2006, Nogueira, que era radialista, fundou o programa de televisão "Paixão Tricolor".
Para o tricolor, um dos momentos mais emocionantes vividos com o Farroupilha aconteceu em 2004, quando o clube garantiu a volta ao Campeonato Gaúcho em uma partida contra o Brasil de Pelotas. "Foi uma festa porque as duas torcidas comemoraram juntas, invadiram o gramado e foi uma coisa sensacional", ressalta Nogueira ao lembrar da emoção daquele dia em que os dois times se classificaram. Nogueira deixou a diretoria há 11 anos, mas segue acompanhando o clube como torcedor. "O Farroupilha fez parte da minha vida, foi sempre um grande amor A família Nogueira começou o Farroupilha e estou vendo ele chegar ao fim, então isso é muito triste, e espero que alguém resgate essa história", diz o torcedor sobre a fase atual do time.