Viajar pelo interior do Rio Grande do Sul não é apenas uma experiência, é uma aula que não consta em nenhum currículo. Cada município tem um jeito próprio de receber, contar histórias e preparar um mate que transforma uma visita de trabalho em compromisso afetivo.
Na última semana, foi a vez de São Francisco de Assis, município que me acolheu com a sua enorme hospitalidade. Carinhosamente conhecida como Querência do Bugio, é uma cidade que sabe receber. E receber bem, no interior, não significa apenas indicar um endereço ou oferecer um chimarrão. Significa conversar sem pressa, apresentar pessoas, explicar costumes e fazer o visitante sentir que, se permanecer por mais alguns dias, será incluído na comunidade.
Também chama atenção a força do tradicionalismo. Ali, a cultura gaúcha não parece montada para turista ver. Ela está no calor das conversas, nas roupas, nos encontros, na música e na maneira como a comunidade preserva suas referências. Em São Francisco de Assis, tradição não é decoração de Semana Farroupilha. A impressão é de que até o vento, antes de soprar, pede licença, ajeita o lenço e ronca como bugio.
Mas foi uma visita ao Museu Municipal Cônego Hugo que revelou o cuidado da cidade com sua memória. É daqueles lugares que começam discretos e, poucos minutos depois, fazem o visitante perceber que reservou pouco tempo para conhecê-lo. Seu acervo reúne aproximadamente 10 mil itens, entre objetos museológicos, fotografias, documentos e livros.
É possível atravessar diferentes períodos da história em poucos passos. É uma surpreendente viagem no tempo, com vantagem de não precisar enfrentar fila de aeroporto nem explicar a bagagem de mão. Um dos destaques é a coleção paleontológica, relacionada aos dinossauros mais antigos do mundo encontrados na região, com direito a selo no Guiness Records World.
O acervo também preserva elementos da Arte Sacra Barroca Jesuítico-guarani e registros das reduções que existiram no território onde hoje está o município. Em outra parte, objetos pessoais, peças presidenciais e cartas manuscritas de Getúlio Vargas aproximam o visitante de um personagem que normalmente conhecemos apenas pelos livros. A evolução da medicina também ganha espaço por meio de antigos consultórios, instrumentos, documentos e coleções bibliográficas. Entre eles estão o consultório médico do Dr. Velocino Pereira, de 1926, livros médicos e o consultório odontológico completo do Dr. Bento Oliveira, da década de 1950.
Depois de observar alguns instrumentos, saí ainda mais agradecido por ter nascido na época da anestesia moderna. Há municípios que tratam o passado como um conjunto de coisas antigas guardadas em caixas. São Francisco de Assis escolheu outro caminho: organizou, preservou e abriu sua história para que todos possam conhecê-la. Isso revela muito sobre uma comunidade. Afinal, preservar a memória não é viver olhando para trás. É compreender de onde viemos para escolher, com um pouco mais de consciência, aonde queremos chegar. E algumas cidades, quando cuidam bem de sua história, não deixam o visitante partir sem levar consigo um pequeno pedaço dela.