A região Metropolitana e Litoral do Rio Grande do Sul teve o menor avanço nos Anos Finais do Ensino Fundamental no Ideb 2025 entre as cinco macrorregiões do Estado, mesmo concentrando a maior renda e infraestrutura gaúcha. O levantamento, feito pela reportagem do Jornal Cidades com base em dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), avalia os 45 municípios que compõem a região no recorte do Mapa Econômico do Jornal do Comércio, área que inclui Porto Alegre, Canoas, Novo Hamburgo, São Leopoldo e o Litoral norte.
A nota da região nos Anos Finais passou de 4,89 em 2023 para 5,18 em 2025, uma evolução de apenas 0,29 ponto — a menor entre as cinco regiões do Estado e abaixo da média estadual, que subiu de 5,05 para 5,51. O padrão se repete nas outras etapas: nos Anos Iniciais, a média regional (5,91 para 6,20) também fica atrás da média do RS (6,30 para 6,59), assim como no Ensino Médio (4,14 para 4,72, ante 4,28 para 4,89 no Estado). Em todas as três fases, a região Metropolitana e Litoral tem a segunda pior colocação entre as cinco macrorregiões gaúchas, à frente apenas da Metade sul.
Porto Alegre segue abaixo da média estadual e da própria média regional nas três etapas, apesar da maior evolução proporcional entre os dois maiores municípios da região — passou de 3,6 para 4,4 no Ensino Médio. Canoas praticamente estagnou: avançou só 0,1 ponto nos Anos Iniciais (5,4 para 5,5) e nos Anos Finais (4,7 para 4,8).
Segundo o professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Mateus Saraiva, o resultado reflete a concentração de populações vulneráveis nas franjas dos grandes centros urbanos. Nas periferias das regiões metropolitanas é onde estão as populações mais empobrecidas, afirma o pesquisador, ao explicar por que cidades maiores tendem a ter desempenho pior no indicador do que municípios menores.
A média ponderada pela população da região — que dá mais peso a Porto Alegre, Canoas, Novo Hamburgo e São Leopoldo — é sistematicamente mais baixa que a média simples entre os municípios: nos Anos Iniciais de 2023, foi de 5,44, ante 5,91 na conta simples, o efeito mais acentuado entre as cinco regiões do Mapa Econômico.
O interior da própria região, no entanto, supera a capital: municípios menores como Ivoti, Dois Irmãos, Campo Bom e Santo Antônio da Patrulha lideram os rankings de nota nas três etapas. No litoral, Caraá e Cidreira tiveram a maior evolução nos Anos Iniciais, com altas de 1,1 e 0,8 ponto, respectivamente.
Para Saraiva, o Ideb mede desempenho em provas de português e matemática, mas não captura sozinho a qualidade da educação. "A gente já tem mais números para ter uma análise multidimensional da qualidade, e a gente continua tendo uma análise bidimensional", diz o docente, citando indicadores do Inep sobre adequação e esforço docente que recebem pouca divulgação dos governos.
Nem todos os municípios seguiram a tendência de melhora: Capivari do Sul teve a maior queda da região nos Anos Finais, de 6,1 para 4,8, e também recuou nas outras duas etapas. Eldorado do Sul e Glorinha, no Corede Metropolitano do Delta do Jacuí, também tiveram notas menores em 2025 do que em 2023 nos Anos Finais.
Para o professor da UFRGS, “o crescimento do Ideb não representa necessariamente um avanço proporcional na qualidade da educação”, afirma Saraiva, citando políticas de premiação a alunos e professores com melhor desempenho adotadas por redes municipais e pela estadual.
O pesquisador defende que o enfrentamento das desigualdades educacionais depende de políticas que possam ir além da sala de aula, como programas de transferência de renda e de formação voltados também à comunidade escolar. Segundo ele, o nível de instrução das mães é outra variável associada ao desempenho dos filhos nas avaliações.
Sobre o papel dos grandes centros, Saraiva pondera que municípios como Porto Alegre poderiam articular formação técnica mais complexa, em parceria com institutos federais e universidades, mas que prefeituras isoladamente têm limitações para isso sem articulação com Estado e União — movimento que classifica como ainda incipiente, mesmo após a aprovação da lei do Sistema Nacional de Educação.