A metade Sul do RS, incluindo as regiões Sul, Campanha e Fronteira-Oeste registrou, entre 2023 e 2025, o maior avanço de pontos do Ideb entre as cinco macrorregiões do Rio Grande do Sul nas três etapas avaliadas – Anos Iniciais, Anos Finais e Ensino Médio da rede pública. Apesar disso, a região seguiu com as notas mais baixas do Estado nas três etapas, segundo levantamento com base nos microdados do Ideb 2023 e 2025 (Inep/MEC), que consideram o conjunto das redes municipal, estadual e federal.
Nos Anos Iniciais, a média da macrorregião passou de 5,54 para 5,98 pontos, abaixo da média estadual, que foi de 6,30 para 6,59. Nos Anos Finais, a nota subiu de 4,41 para 5,07, também aquém da média gaúcha, de 5,05 para 5,51. Já no Ensino Médio, o avanço foi de 3,78 para 4,49, novamente inferior à média do Rio Grande do Sul, que passou de 4,28 para 4,89.
O avanço foi puxado principalmente por municípios do Corede Centro-Sul, incluído nesta macrorregião por critério editorial da reportagem, enquanto Coredes da Campanha e da Fronteira-Oeste apareceram com menos frequência entre os destaques regionais. Para o professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Álvaro Hypólito, parte da defasagem histórica da metade Sul do Estado está associada à estrutura agrária da região, marcada pela pecuária e pela lavoura extensivas, em contraste com a agricultura familiar predominante na metade norte gaúcha.
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No Ensino Médio, o levantamento indica que a maior parte do ganho de nota da macrorregião veio da aprovação dos alunos, e não da melhora do aprendizado medida pelo Saeb, padrão observado em todo o Estado, mas mais acentuado nessa região. Hypólito pondera que esse tipo de crescimento não representa, necessariamente, avanço na qualidade do ensino. "Esse índice expressa um dado quantitativo que o economista que criou o método acha que indica a qualidade", criticou.
A baixa densidade populacional da metade Sul também dificulta a retenção de professores e a continuidade pedagógica nas redes de ensino, na avaliação do professor — um fator que se soma às dificuldades estruturais enfrentadas pelas secretarias municipais para atender escolas distantes das sedes urbanas. "O atendimento às escolas fica mais dificultado onde os municípios são muito grandes. Nos municípios da metade Norte, que são menores em proporção, isso ajuda as secretarias municipais de educação a ter uma ação mais próxima das escolas", explicou Hypólito.
O pesquisador lembrou ainda que, na região, o ensino rural fica majoritariamente sob responsabilidade das prefeituras, o que amplia o desafio logístico das redes municipais em municípios de maior extensão territorial. Hypólito citou estudos anteriores que relacionam a diferença histórica entre as metades Norte e Sul do RS à distinta estrutura fundiária das duas regiões, com reflexos que ainda se refletem na organização e no financiamento das redes de ensino da região.
Município do Centro-Sul gaúcho
puxam recuperação do Ideb na região
Municípios do Corede Centro-Sul, concentraram boa parte da evolução do Ideb na Metade Sul do RS entre 2023 e 2025, segundo os microdados do Inep/MEC. Arambaré teve o maior salto de nota entre os Anos Iniciais e os Anos Finais da rede pública, enquanto municípios da Campanha e da Fronteira-Oeste tiveram presença mais discreta entre os destaques de desempenho e de evolução.
Em Arambaré, a nota dos Anos Iniciais subiu de 5,3 para 7,2 pontos, e a dos Anos Finais avançou de 4,5 para 6,3 — os dois maiores ganhos da macrorregião nessas etapas. Cerro Grande do Sul, Cristal e Barra do Ribeiro, também do Centro-Sul, figuram entre os municípios com maior evolução nos Anos Iniciais. No Ensino Médio, Chuvisca, do mesmo Corede, lidera tanto em nota quanto em evolução na macrorregião, com alta de 4,3 para 5,4 pontos.
Outras duas cidades do Centro-Sul, São Borja e Itacurubi, da Fronteira-Oeste, aparecem isoladamente entre os melhores desempenhos de suas etapas, mas o Corede não repete a presença constante do Centro-Sul nos rankings de evolução, conforme os dados apresentados. Aceguá, da Campanha, teve resultado misto: caiu 0,4 ponto nos Anos Iniciais, mas avançou 0,9 ponto no Ensino Médio, um dos maiores saltos da etapa na macrorregião, ao passar de 4,0 para 4,9.
Professor da UFPel questiona uso do Ideb como medida de qualidade
O professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Álvaro Hypólito questiona o uso do Ideb como indicador de qualidade da educação. Para o docente, o índice, criado em 2005 e inspirado na avaliação internacional Pisa, mede principalmente dados quantitativos passíveis de manipulação, sem refletir necessariamente o aprendizado dos estudantes.
Hypólito lembra que o Brasil seguiu um modelo baseado em currículo nacional e provas padronizadas, adotado também por países que, segundo ele, não avançaram de forma significativa no próprio Pisa nas últimas décadas. Já a Finlândia, apontada internacionalmente como referência, dispensa currículo nacional e avaliações padronizadas, e mantém, segundo o professor, prestígio social elevado para a carreira docente e ausência de rede privada de ensino. "Eles têm professores muito bem pagos, com prestígio social muito grande. É a profissão mais procurada pelos jovens", disse.
Segundo o professor, a Lei do Custo Aluno Qualidade (CAQ), desenvolvida por pesquisadores da USP e hoje incorporada à legislação, estabelece parâmetros mínimos de infraestrutura e insumos para todas as escolas do país. Ele defende que o financiamento adicional necessário poderia vir de recursos ligados à exploração do petróleo do pré-sal, e não do orçamento já destinado à Previdência ou à Saúde.