A região da Serra Gaúcha, que reúne 78 municípios dos Coredes Serra, Vale do Caí, Paranhana-Encosta da Serra e parte de Campos de Cima da Serra, registrou em 2025 as melhores notas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) entre cinco macrorregiões do Rio Grande do Sul, nas três etapas avaliadas: Anos Iniciais, Anos Finais e Ensino Médio.
Os dados são de um levantamento do Jornal Cidades com base nos microdados do Ideb 2023 e 2025, coletados pelo Inep/MEC, e cruzados pelas regiões do Mapa Econômico do Jornal do Comércio. A Serra já liderava o ranking estadual em 2023, mantendo a primeira posição nas três etapas em ambos os anos.
Apesar da liderança, a região foi a que menos avançou nos Anos Iniciais entre as duas edições da avaliação: a nota subiu apenas 0,21 ponto, de 6,52 para 6,73, a menor variação entre as cinco regiões gaúchas, que tiveram, em média, alta de 0,29 ponto nessa etapa.
Para a professora e pesquisadora Cristiane Welter, da Universidade de Caxias do Sul (UCS), o resultado é compatível com um efeito estatístico esperado para quem já está próximo do topo da escala. Segundo ela, a mobilidade de professores é um dos fatores que ajudam a explicar a estabilização das notas na região, e que dificulta um maior avanço.
Rede de apoio ao estudante
Welter atribui o bom desempenho da Serra a um trabalho de acompanhamento que vai além da sala de aula. "Os municípios que têm uma estrutura composta, onde eles têm equipes de apoio, onde eles têm esse olhar individualizado", pontua a docente, tendem a registrar melhores resultados. Segundo a pesquisadora, esse acompanhamento envolve fonoaudiólogos, psicólogos e assistentes sociais atuando junto às escolas ao longo do ano letivo. "Não é a escola sozinha, lá, solitária, no seu cantinho, que faz tudo", diz Welter. "É a rede conjunta que vai olhar para essa criança e vai tentar auxiliar para que ela possa superar todas as dificuldades que ela encontra no caminho."
Nos Anos Finais e no Ensino Médio, a Serra também apresentou a maior nota entre as cinco regiões em 2025 — 5,71 e 5,05, respectivamente —, ambas acima da média estadual. O pequeno município de Fagundes Varela repetiu a liderança em mais de uma etapa da avaliação, o que rendeu uma homenagem da Câmara de Vereadores às escolas locais no fim de agosto.
O panorama do levantamento mostra um Estado dividido em dois blocos. De um lado, Serra, Norte/Noroeste/Missões e Central/Vales concentram as notas mais altas nas três etapas. De outro, Sul/Campanha/Fronteira Oeste segue com o pior desempenho do Estado, ainda que tenha sido a região que mais avançou entre 2023 e 2025 — uma recuperação que parte de uma base mais baixa. Já a Região Metropolitana e Litoral aparecem com a segunda pior nota nas três etapas, mesmo concentrando os maiores centros urbanos, caso de Porto Alegre, Canoas e Novo Hamburgo.
Welter também chama atenção para o aumento da mobilidade das famílias entre municípios, o que considera outro fator que interfere nos resultados. "Nós temos uma mobilidade muito maior do que nós tínhamos há tempos atrás", diz. Segundo ela, crianças que chegam a uma escola no meio do ano letivo, vindas de outra rede, muitas vezes não tiveram acesso ao mesmo suporte oferecido aos colegas desde fevereiro. "Essa criança vai ter dificuldades a superar, e talvez as outras da turma já tenham até superado", afirma a pesquisadora.
Aposentadorias e enchente
Entre os fatores que podem explicar a menor evolução da região nos Anos Iniciais, Welter cita a renovação do corpo docente. "Temos um número bem significativo de profissionais mais antigos que, nos últimos anos, estão se aposentando, e tem chegado um grupo novo", diz a pesquisadora, para quem essa mobilidade interfere na rotina das escolas e pode interferir no teto de desempenho da região. Ela também lembra os impactos das chuvas registradas no Rio Grande do Sul nos últimos anos, com deslizamentos e escolas que precisaram mudar de endereço temporariamente, como outro fator que pode ter pesado no resultado.
Como exemplo de case de sucesso na região, a pesquisadora cita o trabalho da rede de Farroupilha, cujas escolas estão entre os principais destaques estaduais no índice. Para os municípios que não atingiram suas metas, ela recomenda a troca de experiências com localidades de porte semelhante. "A rede cresce como um todo. Não é a Cristiane que vai lá, vai buscar a experiência e vai trazer pra cá. É as duas escolas se encontrarem", diz.
Em todo o Estado, o Ideb 2025 atingiu os maiores valores da série histórica iniciada em 2005 nas três etapas, segundo o Inep. Na rede pública, a nota passou de 5,8 para 6,1 nos Anos Iniciais, de 4,7 para 5,2 nos Anos Finais e de 3,9 para 4,7 no Ensino Médio.
A pequena cidade de Fagundes Varela, com cerca de 2,5 mil habitantes na Serra Gaúcha, lidera o ranking estadual do Ideb 2025 em duas das três etapas avaliadas. Nos Anos Iniciais, a nota da EMEF Caminhos do Aprender chegou a 8,3, alta de 1,2 ponto frente a 2023 — a maior variação da região nessa etapa. No Ensino Médio, o Colégio Estadual Ângelo Mônaco alcançou 6,4, também a melhor marca entre os municípios da Serra. Nos Anos Finais, porém, a nota caiu de 6,3 para 5,7, uma das maiores quedas registradas na região nessa etapa.
Os resultados da cidade serrana renderam ao município uma homenagem da Câmara de Vereadores às duas escolas, na noite de 27 de agosto. Segundo a Casa, a iniciativa reconhece o trabalho de estudantes, professores, equipes diretivas e famílias ao longo do processo de aprendizagem.
Para a professora Cristiane Welter, da UCS, o porte pequeno do município favorece o acompanhamento individualizado dos estudantes em todos os anos. Ela cita Fagundes Varela como referência para municípios de população semelhante, caso de Presidente Lucena, cidade do Vale do Sinos, também entre os 10 melhores do Ideb na região dos Coredes..