A procura por vagas na rede privada de ensino cresceu de forma expressiva em Capão da Canoa, Torres e Tramandaí, municípios do Litoral Norte do Rio Grande do Sul, ao longo da última década. Segundo o Censo Escolar 2025, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), as matrículas em escolas particulares avançaram entre 27,2% e 122,5% no período, com aceleração adicional entre 2024 e 2025.
O movimento é atribuído à chegada de novos moradores à região, impulsionada primeiro pela pandemia de Covid-19, que ampliou o trabalho remoto, e depois pela enchente de maio de 2024, que levou famílias de outras partes do Estado a se estabelecer no litoral. A avaliação é do presidente do Sindicato do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinepe/RS), Oswaldo Dalpiaz.
Capão da Canoa é o município com o crescimento mais acentuado: as matrículas privadas passaram de 1.153 para 2.566 em 10 anos, alta de 122,5%, sendo 66% apenas desde 2019. Em Torres, o avanço no período foi de 33,6%, de 684 para 914 alunos. Já Tramandaí, que soma 496 matrículas particulares em 2025 ante 390 em 2015 ( 27,2%), registrou o salto mais expressivo no último ano: 9,7% entre 2024 e 2025, impulsionado por um crescimento de 29,6% nas matrículas de anos iniciais do Ensino Fundamental.
Os três municípios tiveram aumento nas matrículas privadas entre 2024 e 2025, período que corresponde ao primeiro ano letivo completo após a enchente de maio de 2024. Para Dalpiaz, esse recorte é o mais representativo do fenômeno migratório para o litoral. "Depois das enchentes, houve um aumento, uma atração maior. E o que aconteceu com isso? Olhando para o lado da educação, não só em relação às escolas públicas, mas também das escolas privadas, houve uma procura enorme", afirma.
O dirigente sindical afirma que a demanda ainda não parou e cita reuniões com mantenedoras de Porto Alegre que avaliam expandir para a região. Segundo ele, o Sinepe/RS deve promover um encontro com diretores de escolas da região, em outubro, para mapear com mais profundidade a situação. Dalpiaz pondera, no entanto, que o crescimento populacional do litoral está mais ligado à migração do que ao aumento vegetativo, já que o Rio Grande do Sul como um todo tem registrado queda populacional.
O aumento da procura tem levado colégios particulares a ampliar sua estrutura física e o quadro de professores. "Estamos numa outra fase, a fase que não basta só adaptação, mas até construir novas salas", diz Dalpiaz, para quem o ritmo de expansão física das escolas privadas se tornou mais frequente nos últimos anos.
Em Capão da Canoa, o Colégio Pastor Dohms é um dos exemplos do fenômeno. A unidade, inaugurada em 2021 com capacidade projetada para 750 alunos, já soma mais de 900 matrículas. "O Litoral Norte oferece uma sensação de segurança para as famílias, e elas estão buscando esse novo espaço para morar, que antes era só um lugar de veraneio", diz a diretora do colégio, Odila Schwalm. Segundo ela, o crescimento é mais forte nos anos iniciais do Ensino Fundamental e há lista de espera para algumas turmas.
Segundo Dalpiaz, outras redes de ensino vem manifestando interesse em ampliar a atuação no litoral. Em Torres, a secretária municipal de Educação, Rosa Lummertz, confirma o aumento de demanda na rede particular da cidade, associado à chegada de antigos veranistas que passaram a residir no município. Segundo a gestora, o fluxo de novos alunos vem majoritariamente da região metropolitana de Porto Alegre.
Enquanto a procura por vagas sobe, os dados do Censo Escolar mostram um movimento oposto na Educação Infantil: creches e pré-escolas particulares registraram queda nas matrículas nos três municípios entre 2024 e 2025, com recuos de até 14% em Torres.