Quando a equipe do filme Um Certo Capitão Rodrigo chegou a Santo Amaro do Sul, em 1970, Anajara Maria de Melo da Silva tinha 12 anos. Hoje historiadora, guia de turismo e uma das responsáveis por apresentar a vila aos visitantes, ela guarda lembranças da experiência de ter participado como figurante da produção dirigida por Anselmo Duarte.
O filme, inspirado no primeiro volume da saga “O Tempo e o Vento”, de Erico Verissimo, utilizou diferentes pontos da localidade como cenário. Para a moradora, a presença da equipe representou uma mudança temporária na rotina de uma vila onde, naquela época, todas as ruas eram de chão batido.
“Eu lembro de tudo”, conta Anajara. Carroças, carretas e charretes pertencentes a moradores foram alugadas para compor a ambientação da produção. O próprio casario histórico ajudava a recriar o período retratado na tela. A participação de Anajara ocorreu principalmente em uma cena de casamento e na festa que integra a narrativa. Ela recorda os figurinos preparados para os moradores que atuaram como extras. O vestido que usou tinha estampa florida e era acompanhado por sapatos de couro. “Eles forneciam todo o figurino”, relata.
A celebração filmada também ficou marcada pela movimentação nos arredores de um dos casarões históricos da vila. Nos fundos da casa associada a José Gomes de Vasconcelos Jardim, a equipe montou a cena da festa, com comida, vinho, churrasco e dança.
Filme Um Certo Capitão Rodrigo, de Anselmo Duarte, utilizou a antiga vila como cenário em filmagens de 1970
Cia. Cinematográfica Vera Cruz/Divulgação/Cidades
Mais de meio século depois, a experiência passou a fazer parte das histórias contadas por Anajara durante o Caminho Açoriano. Na Central de Atendimento ao Turista, instalada em um prédio histórico, ela mostra o salão utilizado em uma das sequências e a reprodução da fictícia Venda do Nicolau, cenário da primeira aparição do Capitão Rodrigo Cambará no romance de Verissimo.
Ao conduzir os visitantes pela vila, a historiadora também identifica outros pontos usados nas filmagens, como construções associadas aos personagens da história. A memória do cinema, assim, se soma ao patrimônio arquitetônico, à colonização açoriana e à trajetória política da localidade.
Para Anajara, que chegou definitivamente a Santo Amaro ainda em 1970, a experiência permanece como uma lembrança pessoal e, ao mesmo tempo, como parte da história coletiva de uma comunidade que se viu transformada em parte da história do cinema nacional.