Às margens do rio Jacuí, a cerca de 80 quilômetros de Porto Alegre, uma pequena vila de ruas tranquilas guarda parte da história da formação do Rio Grande do Sul. Santo Amaro do Sul, distrito de General Câmara, foi um dos primeiros núcleos de povoamento açoriano no Estado e conserva um conjunto arquitetônico que atravessou mais de dois séculos. Praça, igreja e 14 edificações integram o patrimônio histórico protegido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
O isolamento relativo, no entanto, ajudou a manter Santo Amaro fora dos roteiros turísticos mais conhecidos. A localidade, que já foi sede municipal, tem hoje uma população estimada entre 500 e 600 pessoas. Para quem percorre suas ruas, o patrimônio construído e a paisagem ribeirinha formam um cenário que remete a diferentes períodos da história gaúcha.
A ocupação da área começou com a chegada de casais açorianos em meados do século XVIII. Fundado em 1752, antes de Porto Alegre, o povoado tornou-se freguesia em 1773 e, mais tarde, chegou a ser sede do município. A mudança da sede para Margem do Taquari, atual cidade de General Câmara, alterou a trajetória de Santo Amaro, que passou à condição de distrito.
Entre as construções preservadas está a Igreja de Santo Amaro, datada do século XVIII e referência da paisagem local. O templo também é o centro da principal manifestação religiosa da comunidade. Em janeiro, a festa do padroeiro reúne romarias, novenas, comércio de alimentos e artesanato e amplia a circulação de pessoas na vila.
Construções tombadas da vila de Santo Amaro do Sul, em General Câmara
André Liziardi/Prefeitura de General Câmara/Divulgação/Cidades
A guia de turismo e historiadora Anajara Maria de Melo da Silva acompanha visitantes pelo roteiro Caminho Açoriano, criado para apresentar a história e os elementos culturais da localidade. Ela resume a experiência de quem chega ao distrito: “a gente mostra que cada casa tem uma história, que não é só um conjunto de prédios antigos, mas a memória viva de quem construiu esse lugar”. Segundo ela, a visitação inclui estudantes, pesquisadores e excursões de diferentes cidades.
Um dos imóveis históricos foi local de nascimento de José Gomes de Vasconcelos Jardim, personagem da Revolução Farroupilha e primeiro presidente da República Rio-Grandense. Outras construções tiveram usos públicos, comerciais ou residenciais ao longo dos anos. Parte do conjunto, porém, permanece fechada e enfrenta problemas de conservação.
Santo Amaro também ficou registrada na história do cinema brasileiro. Em 1970, a vila serviu de cenário para “Um Certo Capitão Rodrigo”, dirigido por Anselmo Duarte e inspirado na obra “O Tempo e o Vento”, de Erico Verissimo. A presença da equipe transformou temporariamente a rotina da comunidade. Carroças, charretes e outros elementos foram incorporados à produção, enquanto moradores participaram como figurantes. A memória do longa integra atualmente as visitas guiadas. No prédio que abriga a Central de Atendimento ao Turista, Anajara mostra aos visitantes o salão utilizado em uma das cenas.
Construções tombadas da vila de Santo Amaro do Sul, em General Câmara
André Liziardi/Prefeitura de General Câmara/Divulgação/Cidades
Além da arquitetura e do cinema, a vila busca reforçar manifestações ligadas à herança açoriana. Há iniciativas de retomada de celebrações tradicionais, como a Festa do Divino Espírito Santo, além de atividades de culinária e danças. Aos sábados, produtores e artesãos participam de uma feira próxima à igreja, especialmente quando há excursões.
O turismo, contudo, ainda tem alcance limitado pela estrutura disponível. Santo Amaro conta com poucos estabelecimentos comerciais voltados aos visitantes, e parte das edificações históricas não possui nenhum tipo de uso, seja residencial ou comercial. Na administração municipal, o secretário de Turismo, Cultura, Esporte e Lazer, Alessandro Rasquinha, afirma que a prefeitura busca recursos para intervenções e analisa projetos de recuperação de espaços culturais. Segundo ele, as restrições da proteção patrimonial e os custos das obras tornam a restauração um processo complexo.
Entre o casario açoriano, as margens do Jacuí e as lembranças de um filme rodado há mais de meio século, Santo Amaro preserva uma história que ainda tenta transformar sua singularidade em atividade econômica. O desafio, como resume Anajara, é fazer com que “a memória não fique só no passado, mas continue viva e útil para quem mora aqui hoje”.