Escrevo esta coluna de um jeito diferente. Enquanto uma das mãos percorre o teclado, a outra acolhe minha filha, que chegou ao mundo há menos de uma semana. Entre uma pausa e outra, observo o seu rostinho inocente e penso no futuro que desejo para ela e para o seu irmão. Talvez por isso, a viagem que recentemente fiz ao município de Protásio Alves tenha ganhado um significado ainda mais especial.
Quando nos tornamos pais, passamos a enxergar as cidades por outra perspectiva. Deixamos de observar apenas estradas, prédios públicos e estatísticas. Começamos a procurar lugares onde ainda existam comunidade, acolhimento, segurança e pessoas que compreendam o verdadeiro sentido de servir. Vivemos numa época curiosa. Quanto maior a cidade, mais ela costuma ser apresentada como símbolo de desenvolvimento.
Quase sempre medimos progresso em quilômetros, número de habitantes ou volume de investimentos. Pouco se fala sobre aquilo que realmente faz diferença: a capacidade de uma comunidade fazer alguém sentir que pertence àquele lugar. Essa foi, mais uma vez, a sensação que encontrei em Protásio Alves. Estive no município para mais um período de trabalho junto à Prefeitura e, como de costume, fui recebido com uma cordialidade que parece fazer parte da identidade daquela comunidade.
Há cidades que recebem visitantes. Protásio Alves faz algo diferente: recebe pessoas. Ali, o visitante rapidamente deixa de ser visitante. Ao longo dos dias, acompanhei de perto a dedicação dos servidores municipais. Em tempos que o noticiário costuma destacar apenas as falhas da administração pública — como se o bom serviço não merecesse manchete — é justo reconhecer aqueles que, silenciosamente, fazem o poder público funcionar todos os dias com responsabilidade, respeito e compromisso com a população.
Administrar uma cidade pequena talvez seja uma das tarefas mais desafiadoras da vida pública. Não basta conhecer indicadores. É preciso conhecer pessoas. Saber seus nomes, suas histórias, de que famílias vieram. Ouvir suas angústias, tomar decisões difíceis e continuar encontrando cada cidadão na rua no dia seguinte. Não existe anonimato. Existe responsabilidade. Protásio Alves também encanta por preservar aquilo que muitas cidades perderam na pressa de parecer modernas.
A cultura italiana permanece viva. As tradições gaúchas seguem presentes nas famílias e nas festividades. A Gruta Nossa Senhora de Lurdes, a Igreja Matriz centenária, as antigas ferrovias com seus túneis e a Cascata da Usina, emoldurada pelo Mirante do Rio Turvo, contam uma história que não cabe apenas nos livros. Ela continua sendo vivida, dia após dia. A força das águas parece representar a essência daquele povo: firme, trabalhador e profundamente ligado às suas raízes.
Enquanto tantas comunidades lutam para preservar a própria identidade, Protásio Alves demonstra que é possível caminhar em direção ao futuro sem abrir mão daquilo que lhe deu origem. Talvez seja exatamente esse o tipo de cidade que desejo que meus filhos conheçam. Lugares onde respeito ainda tenha valor, onde a simplicidade não seja confundida com atraso, onde o serviço público seja exercido com dignidade e onde as pessoas ainda tenham tempo para cuidar umas das outras. Porque, no fim das contas, a grandeza de uma cidade nunca será medida pelo número de habitantes que possui, mas pela qualidade humana daqueles que escolhem, todos os dias, cuidar dela e de quem nela vive. E isso, não aparece em nenhuma estatística.