A necessidade de recompor escalas de trabalho diante da redução da jornada semanal esbarra em um problema que antecede a discussão sobre a escala 6x1: a escassez de mão de obra qualificada nos polos produtivos do interior gaúcho. Em Caxias do Sul, a Câmara de Indústria, Comércio e Serviços (CIC) pontua que contratar novos trabalhadores para cobrir as horas reduzidas será, na prática, tão difícil quanto absorver o custo financeiro da mudança.
André Zuco, vice-presidente de Serviços da entidade, aponta que muitas empresas da região já operam com vagas abertas há meses sem conseguir preenchê-las. No setor de serviços, onde a operação não para, a reposição de horas é obrigatóriam, e não há trabalhadores disponíveis para isso. "Além do custo econômico, tem um custo real e prático. Ainda ainda não sabe como isso vai ser feito", afirmou.
Em Estrela, Leandro Kremer, vice-presidente da Cacis de Estrela, salienta a mesma dificuldade. Com necessidade já identificada de novas contratações em suas lojas de calçados em Estrela e Lajeado, o empresário enfrenta um mercado em que parte dos trabalhadores prefere a informalidade ou o trabalho como microempreendedor individual, o que complica a reposição formal de quadros. "Eu tenho uma necessidade de contratação, mas tenho uma dificuldade de mão de obra. Existe um grande número de pessoas que estão na informalidade e querem continuar desse jeito", disse.
No Vale do Rio Pardo, o presidente do Sindilojas, Mauro Spode, compartilha do diagnóstico. Com atuação no varejo desde 1981, o dirigente classifica a aprovação como “prematura” e de “viés eleitoral”, e aponta a dificuldade de reposição de pessoal como o principal obstáculo à adaptação. "A gente tem gargalos na admissão de funcionários. Existe uma dificuldade muito grande de conseguir pessoas que entrem no mercado de trabalho", afirmou.
Spode também avalia que o pagamento por hora trabalhada seria um modelo mais adequado à realidade do setor, e não descarta a possibilidade de redução de horários de funcionamento em parte do comércio local como saída para equilibrar as escalas.
Para os dirigentes, a combinação de aumento de custos com escassez de pessoal qualificado é o cenário mais preocupante trazido pela PEC, e um que exigirá mais do que adaptação de escalas para ser equacionado.
A dificuldade de reposição de mão de obra no comércio do Vale do Rio Pardo, que tende a se aprofundar com a eventual redução da jornada semanal, pode abrir uma oportunidade para um perfil de trabalhador ainda subutilizado pelo setor: os profissionais com 50 anos ou mais. A avaliação é do presidente do Sindilojas Vale do Rio Pardo, Mauro Spode, que vê na chamada economia prateada uma das saídas para o gargalo de contratações.
Spode observa que o varejo local já enfrenta dificuldades para atrair trabalhadores mais jovens, que tendem a rejeitar escalas que incluem sábados e mostram menor disposição para se adaptar às exigências do atendimento ao cliente. Trabalhadores mais maduros, na avaliação do dirigente, apresentam perfil mais aderente às necessidades do comércio, como maior estabilidade, experiência de relacionamento e disposição para permanecer no emprego formal. "O varejo está muito focado nessa geração como consumidor, mas também acho que uma das saídas vai ser trazer essa turma para o mercado de trabalho", afirmou.
O tema ganhou reforço recentemente em evento promovido pelo Sindilojas, onde a economista-chefe da Fecomércio-RS, Patrícia Palermo, abordou a tendência de valorização dos trabalhadores acima dos 50 anos tanto como consumidores quanto como força de trabalho.