O possível fim da escala 6x1 não é uma simples mudança trabalhista. É uma reconfiguração na rotina das cidades. No Interior do Rio Grande do Sul, certamente ela não vai aparecer primeiro nos grandes relatórios econômicos. A mudança vai bater na porta do mercadinho que abre no sábado, nas farmácias de plantão, nos restaurantes, no único posto de gasolina que fica na entrada da cidade, na padaria da esquina e no trabalhador que, depois de seis dias seguidos, muitas vezes só deseja mais tempo para viver ao lado da sua família.
Existe um lado humano que não pode ser ignorado. Trabalhar seis dias para descansar um parece pouco quando se olha para a vida fora do crachá: filhos, pais idosos, estudo, igreja, esporte, saúde, sono, lazer e convivência. Para muita gente, o segundo dia de descanso não é luxo. É o pedaço da semana em que a pessoa recupera o fôlego.
Quem defende o fim da escala 6x1 enxerga uma correção necessária, um avanço civilizatório e uma tentativa de adaptar as relações de trabalho a um tempo em que produtividade não pode ser medida apenas pela exaustão. Não esqueçamos que toda moeda tem dois lados. No outro, temos o comércio local.
No interior, normalmente o empregador não é uma grande empresa com forte setor de Recursos Humanos, margem confortável e capacidade de reorganizar turnos. Ao contrário, existe dificuldade para contratar. Muitas vezes é o dono da loja que abre a porta, atende no balcão, descarrega mercadoria, fecha o caixa e tenta pagar em dia os salários, impostos, aluguel, energia e fornecedores. E do lado do empreendedor o que não faltam são despesas para manter o seu negócio em pé.
Para esse pequeno empresário, reduzir jornada sem reduzir salário significa contratar mais gente, diminuir horário de atendimento, fechar em alguns turnos ou repassar os custos aos preços. Essa conta pode parar onde? No consumidor final. O bom debate não pode ser tratado como uma guerra entre exploradores e explorados. Essa caricatura empobrece a discussão. O trabalhador não é máquina. Precisa descansar, ter lazer e saúde. O pequeno comércio também não é uma planilha infinita de custos. Precisa sobreviver para continuar empregando e movimentando a economia da cidade.
No Rio Grande do Sul, são mais de 300 municípios que possuem menos de 10 mil habitantes. Nos grandes centros, talvez a reorganização será absorvida com mais facilidade. No interior, tudo tem nome, rosto e endereço. A colaboradora da padaria atende a professora do filho. O dono do mercado patrocina o time da comunidade.
Na prática, o empregado compra no comércio que o emprega. A economia local é uma rede pequena, próxima e interdependente. Quando uma regra tão importante muda, a vida real precisa ser reorganizada no balcão.
E esse balcão não está no governo federal. Ele está em cada cidade do nosso País. Por isso, a conversa mais sensata talvez não seja simplesmente ser contra ou a favor do fim da escala 6x1. A pergunta correta é como fazer essa transição sem sufocar o empreendedorismo e sem negar uma vida melhor ao trabalhador.
Se a mudança vier, vamos precisar de diálogo, adaptação e bom senso na tomada de decisões. Mais descanso pode ser uma conquista importante. Mas conquista verdadeira é aquela que melhora a vida de quem trabalha sem destruir a base econômica que sustenta o emprego.