Porto Alegre,

Publicada em 27 de Maio de 2026 às 00:30

Opinião: Entre fogos e ervais, Missões revelam sabores da própria história

Ana Heidel, chef de cozinha e consultora de gastronomia

Ana Heidel, chef de cozinha e consultora de gastronomia

/Ana Heidel/Arquivo Pessoal/Cidades
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Jornal do Comércio
Ana Heidel, chef de cozinha e consultora de gastronomia

Percorrer as Missões Jesuíticas é muito mais que encontrar um território histórico marcado por guerras, mitos e fé. As marcas do passado, incrustadas no presente, se revelam ao nos aproximarmos desta terra vermelha e vibrante. Há um patrimônio quase em segredo, guardado nos fogos, nas mesas, nas gentes.
Ana Heidel, chef de cozinha e consultora de gastronomia
Percorrer as Missões Jesuíticas é muito mais que encontrar um território histórico marcado por guerras, mitos e fé. As marcas do passado, incrustadas no presente, se revelam ao nos aproximarmos desta terra vermelha e vibrante. Há um patrimônio quase em segredo, guardado nos fogos, nas mesas, nas gentes.
Nas Missões, o alimento nunca foi apenas sustento. Foi também linguagem, história e memória. Entre os cantos, os sinos, o rumor das matas e dos ervais, os guaranis já cultivavam o milho, a mandioca, o feijão, o amendoim, o mel silvestre, os peixes dos rios. Sabiam ler a terra com alma, como o deus que entendiam supremo: seus tempos, suas formas e suas dádivas com respeito e harmonia. O tempo e a mata, o céu e os rios.
Com a chegada da Companhia de Jesus, os jesuítas trouxeram consigo as sementes novas, a agricultura dos pomares e das hortas, os rebanhos e os novos manejos. O trigo, as videiras, os citros e o gado passaram a conviver com os cultivos indígenas, criando uma mesa nova, onde o habitante originário e o estrangeiro aprenderam a compartilhar o mesmo fogo.
Nos largos campos de vacarias, o gado se multiplicou e moldou paisagens, gostos e a história do Rio Grande do Sul. Cada um dos Povos Missioneiros guardou uma forma, um sabor e uma maneira própria de contar a mesma história.
Em São Nicolau, a Primeira Querência, o tempo parece repousar sobre o mate amargo e as charlas, ou em volta do fogo do café de cambona, com o aroma do pão de milho, num abraço entre passado e presente.
Em São Borja, o rio Uruguai, que pinta o horizonte de dourado, oferece memórias recheadas de causos e sabores, e a fronteira correntina nos aproxima da riqueza dos peixes, da carne assada, dos arrozes e dos temperos do Prata.
São Luiz Gonzaga canta sua história em versos e milongas, onde o churrasco, o milho e a mandioca guarnecem as melodias como antigos amigos.
Santo Ângelo, coração urbano das Missões, mescla tradição e movimento. Cidade das tortas, das padarias cheirosas feito casa de avó, revela a influência europeia sem abandonar as raízes essenciais.
São Miguel, entre as pedras iluminadas das ruínas não deixa escapar o que também é seu patrimônio: milho, erva-mate, mel e carne contam a mesma epopeia gravada em cada bloco.
Na região de São João Batista e São Lourenço Mártir, hoje Entre-Ijuís e Vitória das Missões, a lavoura e a pecuária seguem renovando em modernidade o pacto entre o ser humano e a terra. Soja e trigo dividem espaço com hortas, pães, queijos caseiros e receitas transmitidas ao pé de ouvido de geração em geração.
A mesa missioneira é assim: uma colagem de muitas origens e muitos cantos. Estar nas Missões é provar e descobrir um encontro de mundos distintos e longínquos e que, ao compartilharem da mesma mesa, transformaram-se em uma só cultura. As Missões te abraçam como o calor de um longo mate e um aroma inconfundível de amor pela terra.

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