Porto Alegre,

Publicada em 15 de Maio de 2026 às 18:12

Projeto em Três Coroas registra a fauna com ajuda de moradores

Iniciativa, que começou oficialmente em abril, já identificou oito espécies de mamíferos a partir de câmeras instaladas na mata

Iniciativa, que começou oficialmente em abril, já identificou oito espécies de mamíferos a partir de câmeras instaladas na mata

Projeto EcoRaízes/Divulgação/Cidades
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Lívia Araújo
Lívia Araújo Repórter
O município de Três Coroas, no Vale do Paranhana, passou a contar neste ano com um levantamento inédito sobre sua fauna silvestre. Coordenado pela estudante de Biologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Ketlyn Lintener, o projeto EcoRaízes utiliza videomonitoramento e entrevistas com moradores da zona rural para registrar espécies nativas e compreender a relação da comunidade local com os animais da região.
O município de Três Coroas, no Vale do Paranhana, passou a contar neste ano com um levantamento inédito sobre sua fauna silvestre. Coordenado pela estudante de Biologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Ketlyn Lintener, o projeto EcoRaízes utiliza videomonitoramento e entrevistas com moradores da zona rural para registrar espécies nativas e compreender a relação da comunidade local com os animais da região.
A iniciativa começou oficialmente em abril de 2026, após ser contemplada em um edital ambiental da Prefeitura de Três Coroas, e integra o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da pesquisadora. O projeto conta ainda com apoio do Grupo Escoteiro Paranhana, Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema-RS), Instituto de Biociências da UFRGS e Museu de Ciências Naturais. A proposta é criar um banco de dados sobre a fauna local, já que o município possui poucos registros oficiais sobre as espécies que habitam a região.
A ideia surgiu a partir de relatos da própria família da estudante. “Meu avô comentou que tinha visto uma irara no sítio. Depois meu pai falou de outros bichos, e eu comecei a perceber que eu estudava fauna na universidade, mas não sabia quais espécies existiam na cidade onde nasci”, relata Ketlyn.
Ketlyn Lintener idealizou projeto a partir de relatos de moradores de sua cidade natal | Lívia Araújo/Especial/Cidades
Ketlyn Lintener idealizou projeto a partir de relatos de moradores de sua cidade natal Lívia Araújo/Especial/Cidades
Ao investigar registros científicos, ela descobriu a escassez de informações sobre os animais silvestres em Três Coroas. A partir disso, decidiu unir pesquisa acadêmica e conhecimento popular. “As pessoas que vivem no interior têm uma memória ecológica de décadas. Tem gente que vive há 70 anos no mesmo lugar e conhece profundamente os hábitos desses animais”, afirma.
O monitoramento é realizado com 14 armadilhas fotográficas instaladas em áreas estratégicas da zona rural. As câmeras são acionadas por movimento e podem permanecer semanas em operação. A equipe faz rodízio dos equipamentos entre diferentes pontos, revisando os registros periodicamente.
Em pouco mais de um mês de monitoramento, o projeto já identificou oito espécies de mamíferos por meio das câmeras, entre elas irara, tamanduá-mirim, gato-do-mato-pequeno, cutia, tatu, gambá, mão-pelada e macaco-prego. Pelos relatos da comunidade, o número de mamíferos registrados chega a 26 espécies.
Gato-do-mato-pequeno é menor espécie de felino selvagem brasileira | Projeto EcoRaízes/Divulgação/Cidades
Gato-do-mato-pequeno é menor espécie de felino selvagem brasileira Projeto EcoRaízes/Divulgação/Cidades
Um dos destaques é o registro do gato-do-mato-pequeno, felino ameaçado de extinção. Segundo Ketlyn, havia apenas registros anteriores do animal atropelado na região. “Esse foi o primeiro registro vivo da espécie em Três Coroas. Isso mostra que ainda existe habitat para esse animal no município”, explica. Outro registro considerado relevante foi o de javalis, espécie exótica invasora. Apesar de moradores já terem relatado sua presença, não havia comprovação oficial da ocorrência em Três Coroas. A confirmação foi comunicada à prefeitura e à Sema-RS para avaliação de possíveis medidas de manejo.
Além do levantamento científico, o EcoRaízes também busca fortalecer a relação da população com a conservação ambiental. As entrevistas realizadas nos bairros Águas Brancas, Linha Café e Quilombo — este último onde Ketlyn nasceu — revelaram uma convivência majoritariamente harmoniosa entre os moradores e a fauna silvestre. “Há produtores que já plantam pensando que uma parte será consumida pela cutia, por exemplo. As pessoas demonstram carinho pelos bichos e vontade de preservar”, relata a estudante.
Segundo ela, o projeto também pretende valorizar economicamente iniciativas ligadas à conservação, incluindo produtores locais e atividades de turismo em contato com a natureza, como o rafting.
Irara é considerada espécie vulnerável e é pouco avistada no município | Projeto EcoRaízes/Divulgação/Cidades
Irara é considerada espécie vulnerável e é pouco avistada no município Projeto EcoRaízes/Divulgação/Cidades
O trabalho desenvolvido em Três Coroas deverá resultar em uma lista preliminar das espécies da fauna local, além da produção de um livro ilustrado com histórias e relatos dos moradores sobre os animais da região. “A conservação é feita com pessoas. Quanto mais elas se sentem parte disso, mais tendem a preservar”, afirma Ketlyn.
A pesquisadora pretende aprofundar o tema no mestrado, ampliando o estudo para aves, répteis e anfíbios e investigando a relação entre comunidades rurais e biodiversidade.

Caça preocupa e mostra declínio de população de mamíferos na região

Cutia é uma das espécies afetadas por caça ilegal na região do Vale do Paranhana

Cutia é uma das espécies afetadas por caça ilegal na região do Vale do Paranhana

Luara Baggi//MCTI/Divulgação/Cidades
Além de registrar espécies inéditas da fauna silvestre de Três Coroas, o projeto EcoRaízes também identificou ameaças à conservação ambiental na região. Entre elas, a caça aparece como uma das principais preocupações relatadas pelos moradores da zona rural.
Segundo a estudante de Biologia Ketlyn Lintener, da Ufrgs, coordenadora da iniciativa, espécies como paca, cutia, quati e veados estão entre os animais mais afetados. "As pessoas relatam que a paca praticamente desapareceu em algumas áreas. Muitos dos últimos relatos que recebemos são de avistamentos de mais de dez anos atrás", afirma.
A pesquisadora explica que, embora parte da comunidade mantenha uma relação harmoniosa com os animais, a caça ainda faz parte da cultura local em algumas regiões. Além da redução populacional das espécies, a prática também gera impactos indiretos, como danos a cercas, conflitos em propriedades rurais e circulação de caçadores em áreas de mata.
O projeto evita divulgar os locais exatos dos registros de animais justamente para impedir que as informações sejam utilizadas por caçadores. A preocupação aumentou após a confirmação da presença de javalis no município, espécie invasora cujo manejo envolve discussões técnicas e éticas, podendo inclusive envolver o abate de indivíduos.
Além da caça, o EcoRaízes também constata outros fatores de pressão ambiental, como a expansão de espécies vegetais exóticas invasoras, entre elas uva-do-japão, pinus e eucalipto, que podem alterar habitats naturais.

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