O radialista Abel Dullius Franzen foi morador do bairro Bom Fim, em Cruzeiro do Sul, e sempre conviveu com enchentes. O local ficava ilhado quando o rio Taquari alcançava 23 metros. Em maio de 2024, a régua chegou a 33,66 metros, acima de qualquer outro cenário visto anteriormente. A família ficou presa dentro de casa e foi resgatada de helicóptero na manhã do dia 3 de maio de 2024. De barco, socorristas e voluntários até tentaram buscar a família antes desta data, mas não conseguiram por causa da correnteza do rio.
A primeira solicitação de resgate foi realizada no dia 1º de maio, por volta das 17h15min. "Não tem como esquecer a data. Chovia ininterruptamente e isso começou a bater no psicológico, da severidade daquilo, do perigo. Eu lembro que fiz uma participação na rádio, mandando um áudio na madrugada do dia 1º, por volta de 5h50min, descrevendo como estava a situação. Já tinha água dentro de casa e a gente já tinha corrido para o segundo piso", relembra.
Ele conta que, ao terminar o áudio, percebeu que a água não parava de subir. Ouvia o barulho de correnteza, que passava pelo galpão da propriedade , e arrastou a estrutura e os animais que lá estavam. "Eu olhava para um lado e era água; olhava para o outro e era água. As casas iam sumindo, as árvores estavam caindo e aí bateu um desespero daquilo que poderia acontecer também com a nossa casa", complementa.
Abel lembra com clareza do momento do resgate. "A aeronave sobrevoa nossa casa, dá duas voltas, verifica um lugar ideal, que é o telhado da casa da minha avó, ao lado da nossa, e ali em cima, com uma escada, que eu não sei porque estava em cima daquele telhado, a gente caminha em cima das telhas que estavam molhadas, velhas e podres", recorda.
Abel Dulluis teve que se abrigar no telhado de casa para aguardar resgate em 2024
Abel Dullius/DIVULGAÇÃO/CIDADES
Hoje, a família reside em Santa Clara do Sul. Parte da casa que eles tinham em Cruzeiro do Sul sofreu danos e acabou caindo em função da enchente. "A gente deu uma ajeitada, mas ficou, por enquanto, pra passar o final de semana. Do governo não veio nada de auxílio", relata.
Já Mirta Horn Jung, DE 79 anos, tinha sua casa própria no Centro de Arroio do Meio. Ela também teve a casa destruída pela força das águas e foi contemplada pelo Compra Assistida. Em 22 de dezembro de 2025, 19 meses após as cheias, conseguiu entrar na sua nova moradia.
Nesse período, a idosa se abrigou na casa dos filhos, mas as marcas daquela enchente ainda estão presentes na memória. "Não quero nem me lembrar. Perdi tudo. Fiquei só com a roupa do corpo, o resto foi tudo", relata, emocionada. Ela já tinha sido atingida pelas enchentes de setembro e novembro de 2023.
A idosa ainda está se acostumando com o novo lar, mas afirma que sente muita falta da antiga residência, que lhe permitia ir à missa a pé. "Agora, só consigo ir de táxi. Mesmo com saudades, ela não teve mais coragem de visitar a sua casa, que nos próximos dias deve ser demolida por estar em área de risco.
Situação semelhante viveu Ana Damacena, de 32 anos. Ela morava de aluguel em Arroio do Meio e também foi contemplada no programa Compra Assistida. Ana conta que perdeu tudo o que tinha e ficou vários meses morando em abrigos que foram organizados pela Prefeitura, até conseguir uma casa provisória construída pela iniciativa privada. "A gente não tinha mais como conseguir casas de aluguel em Arroio do Meio. As casas foram todas condenadas e o que sobrou para alugar era muito caro", recorda. Antes da enchente, ela trabalhava em Lajeado, e teve o deslocamento prejudicado por causa da queda da ponte da ERS-130 e da Ponte de Ferro, o que a levou a perder o emprego.
Logo após conseguir uma casa provisória da iniciativa privada, ela voltou a trabalhar e também conquistou a casa própria. "Moramos três meses nas casinhas do Front e saiu o meu nome na lista do Compra Assistida. Coisa que eu não esperava, porque eu não era proprietária. Nunca achei que eu fosse ter essa oportunidade. Hoje, enão pago aluguel e também não moramos mais na enchente", celebra.
Governo estadual
Sobre a demora na entrega das habitações, o governo estadual explica que o trabalho está sendo realizado em parceria com os municípios. Cada cidade fez a identificação das famílias que necessitavam de moradia e a avaliação das áreas que podiam receber as estruturas. Para auxiliar as famílias, o Estado ajudou no pagamento do aluguel social e na entrega das moradias temporárias. "A casa temporária, é porque a gente sabe que vai levar tempo para as definitivas", disse o governador Eduardo Leite em coletiva de imprensa realizada no Palácio Piratini. "Tem que identificar a área, tem que construir e tem todas as dificuldades e complexidades que a gente está enfrentando ao longo desse tempo", complementou.
Governo federal
O secretário especial de articulação e monitoramento da Casa Civil da Presidência da República, Rogério da Veiga, esclarece que a solução imediata criada pelo governo federal foi o Compra Assistida. Ele também admite a demora na entrega das moradias. "Nada acontece no tempo que a gente espera que aconteça e isso é uma coisa que nos aflige. O Compra Assistida foi o método mais rápido de conseguir gerar casas, de prover habitação e estamos acelerando o processo das obras. Os empreendimentos que foram aprovados estão sendo contratados, muitos estão em construção, alguns já estão entregues. O fato é que o processo de construção é um pouco mais complexo", diz.