No município de Taquara, Vale do Paranhana, terra querida que me acolheu há tantos anos, existe uma bela história que ajuda a explicar a força da nossa tradição. Antes de ser sede, antes de ser baile, antes de ser invernada ou desfile, o CTG O Fogão Gaúcho foi exatamente aquilo que seu nome anuncia: um pequeno fogão. Ao redor dele, a água do chimarrão permanecia quente. E, enquanto o mate passava de mão em mão, homens proseavam, cultivavam amizades e, talvez sem perceber, ajudavam a aquecer uma parte importante da alma do Rio Grande.
Existem histórias que começam com discursos solenes. Outras, com decretos, atas e formalidades. A história do Fogão Gaúcho começou com carvão, nó de pinho, chimarrão e convivência. Nas rodas de mate realizadas no escritório do advogado Dr. Antônio Aguiar, em Taquara, há quase oito décadas, foi surgindo mais do que uma confraria de amigos. Nascia ali um sentimento de pertencimento. Um modo de afirmar que a tradição gaúcha não estava apenas no campo aberto, no cavalo encilhado ou na lida campeira.
Estava também na conversa, na hospitalidade, na música, na dança e na vontade de manter viva uma identidade. Fundado oficialmente em 7 de agosto de 1948, o CTG O Fogão Gaúcho carrega uma marca histórica extraordinária: é apontado como o segundo Centro de Tradições Gaúchas do Rio Grande do Sul e o primeiro fundado no interior do Estado. Depois do 35 CTG, de Porto Alegre, foi Taquara que ajudou a espalhar essa chama para além da Capital.
O Fogão Gaúcho nasceu como símbolo de integração, de brasilidade e de amor ao Rio Grande. Mostrou que a cultura gaúcha nunca foi pequena demais para caber em uma só origem. Ela se formou da mistura, do encontro e da capacidade de transformar diferenças em pertencimento. No dia 2 de maio, essa história ganhou mais um capítulo especial com a reinauguração da sede do CTG O Fogão Gaúcho. E foi com o maior sucesso. Casa lotada, muita dança tradicionalista, emoção e orgulho estampados no rosto de quem sabe que não estava apenas participando de um evento. Estava testemunhando a renovação de uma memória coletiva.
Uma sede de CTG não é apenas um prédio. É um lugar onde a cidade se reconhece. É onde a criança aprende os primeiros passos da dança, onde os mais velhos reencontram lembranças, onde as famílias se abraçam, onde a cultura deixa de ser discurso e vira convivência. Em tempos em que tantas cidades procuram sua identidade em slogans, marcas e campanhas, a cidade de Taquara, aos seus 140 anos, guarda uma resposta mais antiga e mais verdadeira: às vezes, a identidade de um povo começa de forma muito simples, em volta de um fogão.
Pequeno no tamanho, imenso no significado. Um fogão que aqueceu a água do mate, aproximou pessoas, formou gerações e ajudou a manter acesa uma chama que, passados mais de 75 anos, segue iluminando o tradicionalismo gaúcho. E, por falar em tradição, do meu mate eu não abro mão.