Porto Alegre,

Publicada em 06 de Maio de 2026 às 00:30

Quarta Colônia busca transformar ciência em destino

Vista aérea do Recanto Maestro, na Quarta Colônia

Vista aérea do Recanto Maestro, na Quarta Colônia

/Gabriel Margonar/Especial/Cidades
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Gabriel Margonar
Gabriel Margonar
Entre vales, lavouras e pequenas cidades do Centro do Estado, a história dos dinossauros deixou de ser apenas um objeto de estudo para se tornar parte de um projeto coletivo no Rio Grande do Sul. Na Quarta Colônia, o passado de 230 milhões de anos vem se traduzindo em placas de sinalização, roteiros turísticos, cardápios temáticos e visitas guiadas. Mais do que revelar fósseis, a região passou a organizar a forma como se apresenta ao mundo.
Entre vales, lavouras e pequenas cidades do Centro do Estado, a história dos dinossauros deixou de ser apenas um objeto de estudo para se tornar parte de um projeto coletivo no Rio Grande do Sul. Na Quarta Colônia, o passado de 230 milhões de anos vem se traduzindo em placas de sinalização, roteiros turísticos, cardápios temáticos e visitas guiadas. Mais do que revelar fósseis, a região passou a organizar a forma como se apresenta ao mundo.
Reconhecido como Geoparque Mundial da Unesco em 2023, o território reúne nove municípios (Agudo, Dona Francisca, Faxinal do Soturno, Ivorá, Nova Palma, Pinhal Grande, Restinga Seca, São João do Polêsine e Silveira Martins) que compartilham uma mesma base geológica - e, agora, um esforço comum de desenvolvimento. A certificação não veio apenas pela relevância científica dos fósseis encontrados ali, alguns dos mais antigos do planeta. Exigiu, sobretudo, a construção de uma estratégia que integrasse ciência, educação e economia local.
“Não basta ter esse patrimônio. É necessário que exista uma estratégia de desenvolvimento sustentável junto à comunidade”, resume a diretora do Geoparque, Eduarda Brum. Ela explica que a proposta se sustenta em três pilares: geoeducação, geoturismo e geoconservação - conceitos que, na prática, se materializam em ações cotidianas, como visitas escolares, formação de empreendedores e qualificação de atrativos.
A presença do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (Cappa) é central nesse processo. Além de concentrar a pesquisa científica, o espaço se tornou um dos principais pontos de visitação. Quem chega para entender como se estuda um fóssil acaba conhecendo também a cultura, a gastronomia e a paisagem da região. “O Cappa nos dá a oportunidade de mostrar a ciência acontecendo aqui e de atrair visitantes de diferentes lugares”, afirma Eduarda.
Esse fluxo ajuda a movimentar uma rede que vai muito além da paleontologia. Restaurantes, hospedagens, propriedades rurais e pequenos negócios passam a se conectar em torno de uma mesma narrativa: a de um território que une natureza, história e conhecimento. 
O número de visitantes, incluindo estrangeiros, cresceu nos últimos anos, especialmente após a certificação. E, com eles, a percepção de que a Quarta Colônia pode ocupar um espaço mais consolidado no mapa turístico do Rio Grande do Sul. O desafio, agora, é integrar esse potencial em um território amplo, fazendo com que quem chega por um atrativo circule pelos demais.
“É uma rede. Os municípios caminham juntos, indicando uns aos outros. Na prática, isso significa que uma visita ao Cappa pode se estender a um almoço típico, a um passeio de natureza ou a uma experiência cultural em cidades vizinhas... Todos podem ganhar juntos", conclui a diretora do Geoparque.

Sede do Cappa, São João do Polêsine aposta na temática paleontológica para os turistas

Pequeno município da região central do Rio Grande do Sul vê na paleontolgia a oportunidade para criar novos roteiros e se firmar como destino turístico da região

Pequeno município da região central do Rio Grande do Sul vê na paleontolgia a oportunidade para criar novos roteiros e se firmar como destino turístico da região

/Gabriel Margonar/Especial/Cidades
Em São João do Polêsine, município que por muito tempo esteve à margem dos grandes fluxos e atenções, a paleontologia deixou de ser apenas campo de pesquisa para se integrar ao cotidiano e à economia local. Sede do Cappa, a cidade passou a sentir, de forma concreta, os efeitos do aumento da visitação e da visibilidade impulsionadas pelo trabalho desenvolvido no Geoparque Quarta Colônia e pelas sucessivas descobertas fósseis dos últimos anos.
"Hoje nós nos tornamos um destino turístico com bastante orgulho", afirma a prefeita Jaqueline Milanesi. Segundo ela, o reconhecimento internacional ajudou a mudar a percepção dos próprios moradores sobre o território. "Antes, muitas vezes, era visto como um lugar pequeno, sem grandes atrativos. Agora, as pessoas passam a entender a riqueza que existe aqui e as oportunidades que surgem com isso", celebra.
Essa transformação aparece também nos negócios locais. No Dino Cammino, restaurante temático inspirado em dinossauros, a proposta é justamente dialogar com essa identidade. "A cidade é marcada por isso, então é importante que o turista tenha uma experiência completa", explica o gerente Francis dos Passos.
O movimento no local cresce especialmente nos fins de semana, com visitantes que passam pela região - muitos deles hospedados em atrativos próximos, como as Termas Romanas - e ampliam o roteiro para conhecer o município. Famílias, grupos escolares e turistas estrangeiros (principalmente uruguaios) fazem parte desse fluxo.
A certificação da Unesco, de acordo com Francis, ajudou a impulsionar essa procura. Para o futuro, a estratégia do restaurante é ampliar parcerias com roteiros turísticos, trilhas e atividades educativas, fortalecendo a integração entre diferentes pontos do território.
Para a prefeita, o desafio é justamente esse: transformar o interesse crescente em desenvolvimento contínuo. "Temos uma identidade única, uma história rica e uma cultura forte. Agora, precisamos potencializar isso e mostrar ao visitante tudo o que a Quarta Colônia e, principalmente, São João do Polêsine podem oferecer", afirma.

Dinossauros também ganham destaque no Vale do Rio Pardo

Museu Municipal Aristides Carlos Rodrigues, em Candelária, tem exposição com cerca de 50 animais pré-históricos

Museu Municipal Aristides Carlos Rodrigues, em Candelária, tem exposição com cerca de 50 animais pré-históricos

/Carlos Nunes Rodrigues/Divulgação/Cidades
Fora da Quarta Colônia, mas ligada ao mesmo patrimônio geológico que atravessa o coração do Estado, Candelária também se afirma como ponto-chave nesse verdadeiro mapa da paleontologia. Logo na chegada, onde o pórtico já anuncia a ligação com os dinossauros, a cidade transforma essa identidade em experiência concreta. Já no Museu Municipal Aristides Carlos Rodrigues, o passado não apenas está exposto como pode ser tocado, observado de perto e, sobretudo, compreendido como parte viva da história local.
Com cerca de 50 animais pré-históricos em exposição, o acervo apresenta diferentes momentos da paleofauna encontrada na região do Vale do Rio Pardo. O espaço recebe desde estudantes do ensino básico até pesquisadores e turistas interessados em compreender a história da vida na Terra.
Curador voluntário do museu, Carlos Rodrigues destaca que o trabalho vai além da exposição. "A instituição participa da identificação de novos afloramentos, auxilia na retirada de fósseis e atua na preservação e divulgação do material".
Um dos marcos do acervo é a mandíbula encontrada em um dos primeiros trabalhos de campo acompanhados pela equipe local. O fóssil, posteriormente identificado como uma espécie inédita, recebeu o nome de Candelariodon barberenai e se tornou o registro número 1 da coleção.
"Sendo o material paleontológico de Candelária de relevância internacional, ele se consolida como uma das maiores riquezas do município. O encontro com um fóssil, por si só, materializa a certeza da existência da pré-história", resume Rodrigues.

Estado vê geoparques com potencial para consolidar novo eixo turístico

O RS concentra metade dos seis geoparques reconhecidos pela Unesco no Brasil; outros dois estão em desenvolvimento

O RS concentra metade dos seis geoparques reconhecidos pela Unesco no Brasil; outros dois estão em desenvolvimento

/Rodrigo Temp Müller/Divulgação/JC
O movimento que começa nos municípios gaúchos encontra respaldo também no governo estadual, que vê nos geoparques uma estratégia para diversificar e qualificar o turismo no Rio Grande do Sul. Coordenador do Comitê Gaúcho de Geoparques, Álvaro Machado afirma que o Estado reúne algumas das áreas mais relevantes do mundo para o estudo dos primeiros dinossauros, mas que o potencial vai muito além da ciência.
"Sabemos do imenso potencial que o Estado possui, tanto do ponto de vista paleontológico quanto paleobotânico. Porém, não é só a questão dos fósseis em si: é tudo o que essa presença pode gerar em termos de cadeia produtiva do turismo", diz.
Atualmente, o Rio Grande do Sul concentra metade dos seis geoparques reconhecidos pela Unesco no Brasil, incluindo, além da Quarta Colônia, Caçapava do Sul e Caminhos dos Cânions. Além disso, há novos projetos em desenvolvimento, como o Raízes de Pedra e o Geoparque Triássico Vale do Rio Pardo.
Segundo Machado, a consolidação desses territórios ajuda a transformar um patrimônio antes restrito ao meio acadêmico em um produto turístico integrado, capaz de atrair diferentes públicos - de pesquisadores a famílias em busca de experiências culturais e de natureza.
Mas, apesar dos avanços, ainda há desafios, como a estruturação de rotas integradas e a ampliação da promoção turística. Mesmo assim, o cenário é visto como promissor: "Depois de mais de 30 anos acompanhando o turismo no Estado, posso dizer que é um novo momento para regiões como a da Quarta Colônia", finaliza.

O QUE É UM GEOPARQUE?

Geoparques são territórios reconhecidos por abrigar patrimônios naturais de grande valor - como formações geológicas, fósseis e paisagens únicas - e que usam essa riqueza para promover educação, turismo e desenvolvimento sustentável. Mais do que preservar rochas ou sítios científicos, eles conectam ciência e comunidade, incentivando o cuidado com o ambiente e a valorização da cultura local. A ideia é proteger o passado da Terra enquanto se constrói oportunidades no presente. No Brasil, há seis geoparques mundiais reconhecidos pela Unesco, sendo que três deles (Caçapava, Caminhos dos Cânions do Sul e Quarta Colônia) estão localizados no Rio Grande do Sul. Ainda buscam reconhecimento: Raízes de Pedra e Triássico Vale do Rio Pardo.

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