Na semana passada, tive a oportunidade de ministrar uma capacitação na área da desburocratização e do planejamento de compras públicas para o município de Alto Garças, no Mato Grosso, distante quase 400 quilômetros da capital, Cuiabá. Cheguei no domingo, perto do meio-dia, e o meu primeiro compromisso foi um almoço no CTG Tropeiros da Saudade. Era como se eu estivesse no Rio Grande do Sul.
Nosso churrasco, nossas músicas, nossa dança, a bombacha, o vestido de prenda, tudo pulsava com naturalidade, como se o pampa tivesse criado raízes no cerrado. Fui recebido com aquele carinho que só o gaúcho sabe oferecer quando encontra outro longe de casa. Recepção digna de gaudério. E, enquanto o calor mato-grossense apertava, daqueles de fazer até o cusco procurar a sombra mais próxima, eu pensava no quanto essa cena diz sobre o Brasil.
Nas minhas andanças pelo País a trabalho, vou ao Mato Grosso desde 2007. Ao longo desses anos, construímos uma bela história com diversos municípios daquele Estado, e fiz grandes amizades. E uma coisa sempre me chama atenção: a presença gaúcha por lá não é detalhe, é marca viva. Está no sotaque que escapa numa roda de conversa, na cuia que circula cedo da manhã, no CTG que reúne famílias, nas histórias de pioneirismo e, principalmente, no jeito de trabalhar.
Muita gente saiu do Rio Grande do Sul levando pouca coisa além da coragem, da experiência na lida com a terra e da disposição para recomeçar. Foram homens e mulheres que enfrentaram distância, calor, estradas difíceis e incertezas para fincar os pés em outra região do País. E não foram apenas para morar. Foram para produzir, empreender, construir comunidade, abrir caminho e ajudar a desenvolver cidades inteiras.
O Mato Grosso, que hoje impressiona o Brasil pela força do agronegócio e pelo vigor de sua economia, também carrega a contribuição dessa migração sulista. O gaúcho ajudou a plantar lavouras, mas plantou também valores. Levou consigo a cultura da família, do trabalho duro, da palavra empenhada, do associativismo, do apego à tradição e da crença de que progresso se constrói com esforço diário. Mas é preciso dizer que o Mato Grosso não é grande por causa de um povo só. Sua riqueza está justamente na mistura. Ali convivem influências indígenas, nordestinas, sulistas, paulistas, cuiabanas e tantas outras, formando uma identidade própria, forte e acolhedora.
O que a presença gaúcha fez foi somar. Somar trabalho, somar cultura, somar afeto, somar história. Talvez seja por isso que, ao entrar num CTG em pleno coração do Mato Grosso, a sensação não seja apenas de saudade. É também de orgulho. Orgulho de ver que o povo gaúcho, onde chega, não leva apenas seus costumes. Leva entrega, compromisso e vontade de fazer dar certo. No fim das contas, o mais bonito dessa história não é encontrar o Rio Grande do Sul fora do Rio Grande do Sul. O mais bonito é perceber que há brasileiros que saíram de sua terra sem jamais abandoná-la dentro de si, e que, ao mesmo tempo, souberam amar e ajudar a prosperar a nova terra que os recebeu. Obrigado Mato Grosso, vocês fazem o gaúcho se sentir em casa.