*Keli Bernardes, Sócia-diretora da Botanismo Soluções Ambientais
Quando uma rua é aberta para receber uma rede de esgoto, o transtorno é imediato: poeira, máquinas, desvios no trânsito. Mas o que se constrói ali, quase sempre invisível aos olhos, é um dos pilares mais decisivos para o futuro de uma cidade. O Novo Marco Legal do Saneamento trouxe metas ambiciosas: até 2033, 99% da população com acesso à água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto. Mais do que números, trata-se de um compromisso com dignidade, desenvolvimento e eficiência econômica.
É comum associar saneamento apenas à saúde pública. E com razão. Menos esgoto a céu aberto significa menos doenças, menos pressão sobre o sistema de saúde e melhor qualidade de vida. Mas reduzir o debate a esse aspecto é ignorar uma dimensão igualmente relevante: o impacto econômico direto dessas obras.
A exigência de investimentos robustos, prevista no novo Marco tem movimentado cadeias produtivas inteiras. Obras de saneamento geram empregos, demandam fornecedores locais, ativam o comércio e estimulam a circulação de renda nos municípios. Em cidades como Campo Bom, Estância Velha e Sapiranga, esse movimento já é perceptível: ruas sendo abertas hoje são também oportunidades econômicas sendo criadas.
Mas há um ponto menos visível, e absolutamente estratégico, nesse processo: a gestão ambiental das obras. Não basta construir redes de esgoto; é preciso fazê-lo com responsabilidade, controle e planejamento. É nesse campo que atua um trabalho técnico fundamental, muitas vezes ignorado pela população, mas decisivo para o sucesso dos projetos.
A implantação de redes coletoras envolve etapas complexas: escavações mecanizadas, movimentação de grandes volumes de terra, instalação de tubulações, compactação do solo e recomposição das vias. Cada uma dessas fases carrega riscos ambientais que precisam ser monitorados com rigor. O controle da poeira, a gestão adequada dos resíduos, a redução de ruídos, a sinalização das áreas e até a preservação da fauna e da flora locais são parte de um esforço contínuo para minimizar impactos.
Mais do que cumprir protocolos, esse acompanhamento garante que as obras avancem sem interrupções, evitando entraves legais e assegurando o cumprimento das condicionantes ambientais. Trata-se de uma engrenagem silenciosa, mas essencial: sem esse controle, o cronograma atrasa, os custos aumentam e o benefício à população demora a chegar.
Outro aspecto relevante é o trabalho de educação ambiental realizado junto às equipes de campo. Orientar trabalhadores sobre boas práticas, descarte correto de materiais e respeito às normas não apenas reduz riscos imediatos, mas contribui para uma cultura mais sustentável no setor da construção.
O Novo Marco do Saneamento impõe velocidade e isso é positivo. O Brasil tem pressa. Mas velocidade sem controle pode gerar passivos ambientais e sociais difíceis de reverter. Por isso, o equilíbrio entre expansão e responsabilidade é o verdadeiro desafio.
No fim das contas, o saneamento é uma obra que começa no subsolo, mas repercute em toda a superfície da vida urbana. Ele melhora indicadores de saúde, valoriza imóveis, atrai investimentos e dinamiza economias locais. E, para que tudo isso aconteça de forma sustentável, há um trabalho técnico criterioso garantindo que cada metro de tubulação instalado seja também um passo seguro rumo ao futuro.