Cachoeira do Sul, na região central do RS, vem consolidando sua posição como um dos principais polos emergentes da olivicultura gaúcha e brasileira. Impulsionado por condições climáticas favoráveis, características de solo adequadas e pela chegada de novos produtores, o município se insere em um cenário de expectativa de safra histórica de olivas em 2026, com projeções de recuperação após dois anos de colheitas inferiores no estado.
A estimativa do setor é de que a safra de 2026 seja a mais expressiva já registrada no Brasil, com possibilidade de o país alcançar a marca de 1 milhão de litros de azeite extravirgem. No Rio Grande do Sul, principal polo produtor nacional, a expectativa é de colher até 300 mil toneladas de azeitonas, em um contexto de clima favorável ao desenvolvimento das oliveiras. Segundo o Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva), o ciclo foi marcado por um inverno com maior volume de horas de frio, condição essencial para a dormência das plantas, seguido por uma primavera com baixa incidência de chuvas, o que favoreceu a floração e o pegamento dos frutos.
Nesse cenário, Cachoeira do Sul se destaca por reunir fatores naturais que favorecem a produção de azeites de alta qualidade. De acordo com o sócio-diretor da Puro, Fernando Farina, o microclima da região é um dos principais atrativos para os olivicultores. “A gente tem uma serra que ajuda na altitude e nas horas frias que a planta precisa para entrar em dormência. Além disso, são solos bem drenados, pedregosos, que não retêm água, o que é fundamental, porque a oliveira não suporta solos encharcados”, explica.
A combinação entre altitude, frio e solo adequado cria um ambiente semelhante ao de regiões tradicionais da Europa, origem da cultura da oliva. Outro fator relevante é a ventilação constante, que reduz a umidade e, consequentemente, a incidência de fungos nas plantas. “A qualidade da fruta está diretamente ligada a esse ambiente. Fruta sadia resulta em azeite de qualidade”, acrescenta.
Essas características têm atraído produtores para a região. Segundo estimativas do setor, Cachoeira do Sul já reúne cerca de 30 olivicultores, e lagares como Olivas do Sul e Lagar H, além de integrar um corredor produtivo que inclui municípios como Encruzilhada do Sul, São Sepé e Caçapava do Sul. O avanço da atividade também movimenta a economia local, com impactos que vão além da produção agrícola. “A cadeia envolve transporte, indústria, turismo e serviços. A gente vê cada vez mais visitantes vindo conhecer os olivais e a fábrica”, afirma Rafael Farina, também sócio-diretor da Puro.
Entre os cases que ilustram esse movimento está a própria Puro, controlada pela agroindústria Nostra Terra e considerada uma das três maiores empresas do setor no Brasil. Com 37 mil oliveiras distribuídas em 150 hectares, a empresa projeta produzir até 35 mil litros de azeite na safra de 2026. O portfólio inclui diferentes variedades e blends, além de produtos saborizados, posicionando a marca no segmento premium.
O crescimento da olivicultura ocorre em um momento de maturação dos pomares no Estado. Mesmo sem expansão significativa da área plantada nos últimos anos, atualmente em cerca de 6,5 mil hectares no Rio Grande do Sul, o aumento da idade produtiva das oliveiras contribui para a elevação natural da produção. Esse movimento reforça a estratégia do setor de atuar em nichos de maior valor agregado, já que não há escala para competir com grandes produtores do Mediterrâneo, berço da cultura.
Apesar do avanço, o setor ainda enfrenta desafios importantes. “O nosso maior concorrente hoje não é outra marca, é a desinformação”, afirma Rafael Farina. Segundo ele, muitos consumidores ainda não sabem diferenciar um azeite fresco de qualidade de produtos mais antigos ou importados que chegam ao país após longos períodos de armazenamento. “As pessoas buscam saúde, mas não vão encontrar isso em um azeite velho. Por isso, a gente trabalha muito na educação do consumidor”, destaca.
A necessidade de ampliar o conhecimento sobre o produto também passa por mitos disseminados no mercado, como a ênfase excessiva na acidez como indicador de qualidade. De acordo com Fernando Farina, aspectos sensoriais, como aroma, amargor e picância, são mais relevantes para avaliar um azeite extravirgem.