A oferta hoteleira no interior do Rio Grande do Sul apresenta preços relativamente estáveis, mas é ainda marcada pela predominância de hotéis mais antigos e pela baixa renovação da infraestrutura. Um levantamento realizado pelo Jornal Cidades a partir da comparação de tarifas em plataformas de reservas mostra que a diária média dos quartos mais simples em 20 cidades do interior gaúcho é de R$ 280,00, valor que tende a superar os R$ 300,00 fora de condições promocionais. O estudo considerou as tarifas mais baratas disponíveis para a segunda quinzena de abril, período tradicionalmente classificado como de baixa temporada no setor.
Entre os municípios analisados, Gramado apresentou o maior valor máximo encontrado, com diária chegando a R$ 1.710,00, embora a média entre os 133 hotéis disponíveis na plataforma consultada seja de R$ 343,51, com opções a partir de R$ 121,00. No extremo oposto, o menor preço identificado foi em Torres, onde a diária mais barata custa R$ 92,00, podendo chegar a R$ 458,00, com média municipal de R$ 265,00. Considerando apenas a média entre hotéis disponíveis em cada cidade, o valor mais alto foi registrado em Uruguaiana, com diárias em torno de R$ 391,87, enquanto Canoas apresentou a média mais baixa, de R$ 204,00.
Para o diretor da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis no Rio Grande do Sul (Abih-RS), José de Oliveira Justo, os preços encontrados refletem apenas parte do cenário da hotelaria gaúcha. Segundo ele, plataformas de comparação de tarifas funcionam como um retrato do mercado, mas não capturam toda a dinâmica do setor, especialmente a hotelaria corporativa, responsável pela maior parte da ocupação. “Mais de 90% da ocupação dos hotéis não é gerada por turistas, mas por pessoas em viagens de negócios, participantes de eventos e atividades políticas”, afirma.
De acordo com Justo, o setor hoteleiro gaúcho está estruturado em polos de negócios e polos turísticos. Entre os principais centros corporativos estão Passo Fundo, Santa Maria, Pelotas, Caxias do Sul e Porto Alegre, responsáveis por cerca de 80% do movimento da hotelaria de negócios. Nesse segmento, muitas reservas são feitas diretamente por empresas ou agências corporativas, o que significa que grande parte das diárias não aparece nas plataformas de busca utilizadas por consumidores.
Mesmo assim, os preços seguem a lógica da demanda, semelhante ao que ocorre no setor aéreo. “Hoje não existe mais preço fixo de diária. O valor é determinado pela procura. Se a demanda aumenta, o preço sobe; se diminui, o hotel precisa reduzir a tarifa”, explica Justo.
O dirigente também chama atenção para um fator estrutural do mercado no interior do Estado: a predominância de hotéis antigos e a escassez de novos investimentos. Segundo ele, muitas cidades ainda operam com estabelecimentos construídos décadas atrás, que permanecem ativos com pequenas adaptações, mas sem grandes modernizações. “O que está acontecendo hoje na hotelaria gaúcha é que há muito hotel velho, porque se construiu muito pouco nos últimos anos”, afirma.
Essa realidade é particularmente visível fora dos destinos turísticos mais consolidados, como Gramado, Canela e Bento Gonçalves, onde a hotelaria continua recebendo novos empreendimentos. No restante do Estado, a abertura de hotéis tem sido rara. “Em muitas cidades do interior faz décadas que não se constrói um hotel novo”, observa.
Além disso, o setor enfrenta uma concorrência crescente com o aluguel por temporada, impulsionado por plataformas digitais. Segundo Justo, esse modelo tem reduzido o espaço para hotéis tradicionais, especialmente em destinos turísticos e no litoral gaúcho. “Hoje uma parcela significativa da hospedagem acontece em imóveis alugados por temporada. Isso mudou completamente a dinâmica do mercado”, diz.
Apesar dessas transformações, a avaliação geral da hotelaria no Estado ainda é considerada positiva. De acordo com Justo, a ocupação média dos hotéis gaúchos gira em torno de 70%, patamar considerado saudável para o setor. “Na média, a ocupação está boa e a diária também está em um nível adequado para manter os hotéis funcionando”, afirma.
Renovação da rede hoteleira pode aumentar a competitividade
Já para a CEO da Festuris, Marta Rossi, o cenário revela também um desafio histórico do turismo regional: a necessidade de qualificar e modernizar a oferta de hospedagem fora dos principais destinos consolidados. Segundo ela, embora o Rio Grande do Sul tenha potencial turístico diversificado, muitas cidades ainda carecem de estrutura hoteleira mais atualizada para atender novos perfis de visitantes.
Na avaliação da executiva, a renovação da hotelaria é fundamental para fortalecer o turismo no interior e ampliar a competitividade do Estado. “A hotelaria é parte essencial da experiência turística. Quando há investimento em qualidade e infraestrutura, o destino se torna mais atrativo para eventos, negócios e lazer”, afirma.
DEPARTAMENTO DE ARTES/DIVULGAÇÃO/CIDADES
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