São duas décadas de atuação junto às controladorias internas de municípios de grande, médio e pequeno porte. Incontáveis foram as auditorias de frota que já realizei. Ajudar um município a evoluir não é só trabalho: é missão de vida que descobri ao lado do meu pai, quando eu ainda nem sabia ao certo o que era administração pública.
Existe um tipo de crise municipal que raramente vira manchete, mas consegue drenar muito dinheiro da administração pública e, por vezes, paralisar serviços de forma silenciosa: a frota sucateada. Quando ambulâncias, ônibus escolares, caminhões e máquinas começam a falhar com frequência, o problema deixa de ser “da garagem” e passa a ser um risco administrativo. A frota não é apenas patrimônio, ela faz parte da infraestrutura pela qual se entregam políticas públicas.
Manutenção preventiva? Se esse tema é levantado em muitas Secretarias de Obras, o assunto vira deboche. Manutenção corretiva, essa sim, é o lema que combina com boa parte da administração pública. Panes repetidas, peças e serviços contratados no improviso, oficina chamada “na urgência” e a boa e velha compra emergencial, sem planejamento. É assim que o orçamento perde previsibilidade: os municípios pagam mais e têm menos disponibilidade. De rebote, “respingam” apontamentos, glosas e multas aos gestores.
Por vezes, gasta-se, em um ano, mais com a manutenção do que vale o próprio bem consertado. Essa é a prática. Sem um diagnóstico preciso da frota, tudo passa a ser baseado em opinião: “acho isso”, “acho aquilo”, “leva no fulano”, “o ciclano faz melhor”. Quem paga a conta dos erros é o cidadão.
É como se o município estivesse financiando sucata para sobreviver. E não é só custo: há risco. Veículos e máquinas inseguros, sem manutenção preventiva, especialmente quando se trata de transporte na saúde e na educação, expõem a administração a sinistros, responsabilizações, danos ao erário e, na pior hipótese, à perda de vidas, como infelizmente já ocorreu em diversos municípios.
Uma frota ruim empurra a administração pública a tomar decisões reativas, e decisões reativas normalmente custam mais caro. É claro que existem exceções: órgãos públicos organizados, que planejam a renovação da frota e não ficam esperando o “milagre” de uma emenda que traga recursos. A saída passa por dois momentos distintos. No curto prazo, é preciso padronizar rotinas de inspeção, registrar e avaliar manutenções, mapear os custos já empregados, organizar um estoque mínimo de peças (físico ou virtual), estruturar bons contratos de manutenção, adotar controles de abastecimento e, quando fizer sentido, instalar sistemas de rastreamento e telemetria, entre outras medidas simples que geram resultado.
No médio e longo prazo, o caminho é planejar a renovação: adotar uma matriz de substituição por criticidade dos serviços, alinhar metas de disponibilidade e construir um cronograma de investimentos integrado ao Plano Plurianual, à Lei de Diretrizes Orçamentárias e à Lei Orçamentária. A frota bem gerida não aparece. Ela faz a cidade funcionar. E isso, no setor público, já é uma grande entrega.