Ana Heidel, chef de cozinha e consultora de gastronomia
Um fim de tarde em incontáveis tons de laranja que se diluem soberbamente nas linhas das coxilhas, um horizonte pleno e com jeito de infinitudes. Campos sem fim. É essa a percepção quando chegamos à vastidão territorial e simbólica do Pampa. Campos largos, ventos assoviantes e um silêncio que remete à escuta, à distinção reconhecível do antagonismo pulsante entre imensidão e humildade.
O Pampa e seu bioma não é apenas exuberante em si, ele é necessário, porque é o que lhe permite ser tão fértil em saberes, culturas e gostos. E valida a máxima de que o fundamento essencial está no simples, e que a memória não precisa do excesso para ser inesquecível. É nesse espaço que uma enogastronomia que surge de forma quase revolucionária, repleta de história e ao mesmo tempo, cheia de inovações, encontra eco. Uma voz que nasce da terra, atravessa o fogo, repousa nos campos, nos mates e nas charlas e que não encontra medo no novo. Vai ao encontro dele.
Os vinhedos, os olivais, os pastos, se vêem artísticamente desenhados e gratos por um solo ousado e forte, uma geografia única e a dádiva de um aquífero precioso. As impressionantes oposições sazonais e, sem menos, a sabedoria e a sensibilidade para seus manejos. A terra é sagrada, o fogo é ritual, o alimento é resultado. Há o respeito, a história, a magia. Os sabores nascem do tempo, jamais da pressa ou da ambição. Os vinhos e as olivas têm seu próprio relógio; o assado também, não há dúvidas. Ao redor, o arroz, o mel, os queijos artesanais fantásticos, já tão reconhecidos Brasil afora, carnes de cortes específicos, cuja qualidade se deve a recuperação e manutenção de pastos nativos, formam hoje uma cozinha de base sólida e promissora, onde cada ingrediente sabe sua origem.
Há uma beleza silenciosa e cheia de cumplicidade quando vinho e comida se encontram na Campanha, assim como seus convivas. Não há sobreposição, não há competição. Caminham juntos, em campo aberto, em equilíbrio, reconhecendo a cada gosto seu território de pertencimento. Uma enogastronomia que se constrói na experiência, no fazer, sem perder a dimensão da sua identidade. Exalta seu passado sem deixar de abrir espaços para a contemporaneidade e a descoberta. Sem clichês excessivos, exalta o carisma dos seus arredores, abrindo portas e incentivando um novo momento para o turismo gaúcho e de fronteira.
A Campanha se mostra aos poucos, quase tímida, para quem se dispõe a reformatar o tempo e os espaços. Descobrir estes lugares de prazer compartilhado, de sóis inesquecíveis, de taças memoráveis e sabores únicos cabe à nossa alma sensível e faminta. A Campanha carrega, nela mesma, extremos: o espaço abundante, o calor da terra e dos ventos quentes de verão, a energia aberta e vibrante do minuano e dos campos brancos do inverno. Como as paixões, a Campanha Gaúcha será sempre, uma surpresa.