Estive em Brasília na semana passada e voltarei a frequentar a cidade pelos próximos dois anos, em razão do mestrado em Políticas Públicas e Governo que decidi encarar. Converso muito sobre Brasília com prefeitos e prefeitas, pois é de lá que partem muitos dos recursos utilizados pelas nossas cidades. Gestores passam os dias batendo às portas dos ministérios angariando recursos, em meio a muitas dificuldades enfrentadas.
Mais do que uma beleza monumental, impressiona o contraste entre plano e realidade. A capital, planejada por Oscar Niemeyer, foi pensada com um desenho urbano rigoroso, setores muito bem definidos, funções organizadas e um horizonte de população delimitado. Mas o tempo, a migração e a dinâmica econômica foram expandindo a cidade para muito além do que se imaginava. O trânsito é caótico. O ar, demasiadamente seco. O custo de vida se tornou altíssimo. Daí vem a reflexão: planejar uma cidade não é o mesmo que controlar o seu crescimento.
Toda cidade cresce para além da sua planta. O problema não é crescer, é crescer sem direção. Esse é um grande alerta para os municípios gaúchos que estão em pleno crescimento. Temos expansão urbana acelerada, inúmeros novos loteamentos, aumento constante da circulação de mais e mais veículos, pressão constante sobre os serviços públicos e muitas ocupações que acontecem, por vezes, antes mesmo da infraestrutura estar pronta. Aí a equação reversa aparece: crescimento chega primeiro, planejamento vem depois. É nesse ponto que mora o risco.
Essa ausência de planejamento não aparece de imediato. Por vezes, leva anos. No começo tudo parece desenvolvimento: mais casas, mais comércio, mais circulação. Logo em frente vem o trânsito colapsado, escolas superlotadas ou até falta de vagas, serviços de saúde insuficientes, saneamento precário, e o custo para correr atrás é muito mais alto. Sabe aquela pergunta simples que a gente faz de vez em quando: "como não pensamos nisso antes?" Mesmo Brasília, com grandes nomes da arquitetura assinando seu urbanismo, precisou lidar com expansão periférica e seus efeitos.
Se isso acontece em uma das capitais mais planejadas do País, o que pode acontecer com municípios que possuem um Plano Diretor desatualizado, não possuem política habitacional estruturada e carecem de uma visão integrada de mobilidade? Planejar não é engessar, planejar é antecipar. Gestor que planeja para quatro anos atende ao seu próprio plano de governo, mas deixa de lado as necessidades de longo prazo do seu município. Decidir hoje como e onde a cidade pode crescer, com qual estrutura, é evitar que o improviso se torne uma política pública permanente.
Não precisamos repetir os erros das metrópoles para aprender. O crescimento pode - e deve - ser uma oportunidade de organização, e não um passivo urbano que será pago pelas próximas gerações. Os administradores das cidades precisam olhar para muito além de um mandato. A cidade que está sendo aprovada no papel hoje é aquela que o cidadão vai enfrentar amanhã.