Porto Alegre,

Publicada em 18 de Fevereiro de 2026 às 18:06

Violência contra a mulher avança em cidades do interior do RS

Até 12 de fevereiro, Rio Grande do Sul já registrou 13 feminicídios em 2026

Até 12 de fevereiro, Rio Grande do Sul já registrou 13 feminicídios em 2026

BRENO BAUER/JC
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Gabriel Margonar
Gabriel Margonar
Os primeiros números de 2026 escancaram que a violência contra a mulher segue como um dos principais desafios do Rio Grande do Sul. Até 12 de fevereiro, o Estado já havia registrado 13 feminicídios, distribuídos por municípios como Novo Hamburgo, Santa Cruz do Sul, Sapucaia do Sul, Tramandaí, Santa Rosa e Guaíba. Em janeiro, foram 11 casos em apenas 29 dias.
Os primeiros números de 2026 escancaram que a violência contra a mulher segue como um dos principais desafios do Rio Grande do Sul. Até 12 de fevereiro, o Estado já havia registrado 13 feminicídios, distribuídos por municípios como Novo Hamburgo, Santa Cruz do Sul, Sapucaia do Sul, Tramandaí, Santa Rosa e Guaíba. Em janeiro, foram 11 casos em apenas 29 dias.
Ampliando o marco temporal, os dados consolidados da Secretaria da Segurança Pública (SSP-RS) revelam que, em 2025, o Rio Grande do Sul ultrapassou a marca de 80 feminicídios, com aumento de 10% na comparação com o ano anterior. Mas os números letais são apenas a ponta de um problema mais amplo: as planilhas oficiais mostram milhares de registros de ameaça, lesão corporal, estupro e outros crimes enquadrados na Lei Maria da Penha, espalhados por praticamente todos os municípios gaúchos, das grandes cidades da Região Metropolitana e da Serra aos centros médios e pequenos municípios do Interior.
Em cidades maiores, os volumes absolutos são mais altos. Em centros médios e pequenos, poucos casos já representam impacto significativo quando considerada a população. O padrão, no entanto, é semelhante: a violência aparece de forma persistente e multifacetada.
Em Caxias do Sul, o Centro de Referência da Mulher realizou 2.234 atendimentos ao longo de todo 2025. A Casa de Apoio Viva Rachel acolheu 165 mulheres em situação de risco extremo, muitas acompanhadas de filhos. Nos serviços públicos de saúde, houve 776 registros relacionados à violência.
Para a titular da Coordenadoria da Mulher, Jeane Schulz, os números precisam ser analisados em conjunto. “A redução nos registros não significa, necessariamente, diminuição da violência. Ela pode indicar que as mulheres estão procurando outros serviços da rede antes de registrar ocorrência, buscando orientação, proteção e acolhimento”, afirma.
Segundo ela, a violência psicológica e moral costuma ser o primeiro sinal do ciclo de agressões. “Humilhações, ameaças, controle, isolamento e chantagem são indicativos de alto risco de evolução para violência física e até feminicídio.” O desafio, diz, é fortalecer a prevenção e a busca ativa para que as mulheres cheguem à rede antes de estarem em situação extrema.
Apesar do volume de atendimentos, Caxias está há mais de um ano sem registro de feminicídio. Em janeiro, conforme informado pela delegacia na reunião da rede de proteção, não houve caso nem tentativa.
Já em Guaíba, na Região Metropolitana, o cenário recente ganhou outro significado. O município havia completado três anos consecutivos sem feminicídio até 2025. A gestão atribui o resultado à articulação entre delegacia, Patrulha Maria da Penha, Ministério Público, assistência social e ao fortalecimento do Centro de Referência de Atendimento à Mulher. No último ano, foram cerca de 500 medidas protetivas concedidas.
Para a primeira-dama e responsável pela pauta na cidade, Deisi Maranata, o aumento nas medidas não é necessariamente um dado negativo. “Quanto mais divulgamos os canais de ajuda, mais mulheres denunciam. Acreditamos que parte desse crescimento está relacionada à redução da subnotificação”, afirma.
O ciclo, no entanto, foi interrompido no início de 2026 com um feminicídio que recolocou o município nas estatísticas estaduais. Segundo Deisi, a vítima não tinha registros prévios na rede de atendimento. “Sem sinalização ou procura por ajuda, a rede não tem como intervir”, diz. O caso levou a prefeitura a aprofundar o diagnóstico sobre perfil de vítimas e agressores, com a intenção de aprimorar mecanismos preventivos.
As duas cidades ilustram caminhos distintos dentro de um mesmo cenário estadual: de um lado, uma rede estruturada que amplia atendimentos e reforça a conscientização; de outro, o limite das políticas públicas quando a violência permanece invisível até o desfecho mais grave. Os dados mostram que os crimes mais frequentes continuam sendo ameaça e lesão corporal, muito acima dos casos letais. São esses registros que, muitas vezes, indicam risco de escalada.
Na Assembleia Legislativa, propostas voltadas ao endurecimento de medidas e ao fortalecimento das políticas de prevenção voltaram à pauta neste início de ano. Nos municípios, a aposta segue na ampliação da informação, no atendimento humanizado e na articulação entre áreas como saúde, assistência social e segurança pública.

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