A Serra Gaúcha encerrou 2025 provando a resiliência do setor de enoturismo, baseado na tradição regional na vitivinicultura. Após a enchente de 2024, que provocou uma retração estimada em 40% nas experiências turísticas na região, o setor recuperou seu fôlego e, além disso, passou a operar com mais maturidade e eficiência comercial.
Dados da plataforma Wine Locals, que conta com uma participação de cerca de 10% desse segmento no Estado, mostram que a retomada foi consistente. O crescimento na aquisição de pacotes de enoturismo no site foi de 57,8% em relação a 2024. Foram 71 mil experiências enoturísticas vendidas, volume sustentado pela volta do turista de fora do Estado, pelo aumento do consumo de vinhos no Brasil e por uma oferta mais qualificada de experiências nas vinícolas.
O segundo trimestre de 2025 marcou o ponto de virada, com avanço de 126,9% na comparação com o período mais crítico do ano anterior, quando a logística aérea ainda estava comprometida. "Em 2024, ficamos praticamente seis meses sem aeroporto, e cerca de 80% do público do enoturismo gaúcho vem de fora do Estado. Isso derrubou o mercado", explica o CEO da Wine Locals, Diego Fabris.
Com a normalização dos acessos e o retorno do turista do Sudeste, que é o principal mercado emissor, a Serra voltou a atrair visitantes de maior poder de consumo. São Paulo respondeu por 31,6% da demanda em 2025, seguido por Minas Gerais (12,4%) e Rio de Janeiro (7,9%). No total, 79% dos compradores de experiências vieram de fora do Rio Grande do Sul, consolidando a região como destino de alcance nacional.
Além do volume, a recuperação também foi qualitativa. O tíquete médio das experiências chegou a R$ 510, alta de 6%, indicando maior disposição para consumir produtos premium e atividades mais elaboradas. "A gente já cresce em relação a 2023, principalmente no gasto médio. O consumidor está gastando mais com experiências e também com a compra de vinhos nas vinícolas", afirma Fabris. A taxa de recorrência de 22,5% reforça esse cenário, mostrando fidelização e redução do custo de atração de novos turistas.
Entre os municípios, Bento Gonçalves manteve a liderança absoluta, concentrando 71,87% das experiências vendidas pela plataforma em 2025. Já Pinto Bandeira respondeu por 8,09% do total e se destacou pelo maior tíquete médio da região, consolidando-se como polo de enoturismo diferenciado. Farroupilha completa o trio de principais âncoras da demanda.
Para Fabris, a retomada também foi impulsionada por estratégias de mercado. "Aumentamos em mais de 60% o investimento em marketing, com foco no Rio Grande do Sul, e criamos projetos como o Pipa Parade para fortalecer a vindima como um atrativo nacional", explica. A valorização da experiência, com eventos especiais, ativações culturais e maior conexão com a natureza, tornou-se um diferencial competitivo em um mercado cada vez mais disputado.
Outro fator externo contribuiu para o cenário positivo, segundo o CEO: o encarecimento do turismo do vinho na Argentina. "Antes, era mais barato fazer enoturismo em Mendoza do que na Serra Gaúcha. Isso mudou, e parte desse consumidor voltou para o Brasil", observa Fabris. Somado ao crescimento do consumo de vinho no país - hoje estimado em 44 milhões de consumidores regulares - o resultado foi um reposicionamento da Serra Gaúcha como principal hub de enoturismo do Brasil.
A superação da crise climática de 2024, portanto, não se deu apenas pela retomada do fluxo, mas pela consolidação de um modelo mais robusto, baseado em experiências autênticas, profissionalização e maior valor agregado. "Hoje, não basta ter estrutura. O turista busca autenticidade, hospitalidade e algo único. Quem entende isso, se diferencia", resume Fabris.
Safra de 2026 anima setor e reforça calendário turístico da região
As perspectivas para a safra de uvas de 2026 reforçam o otimismo do setor vitivinícola da Serra e tendem a ampliar ainda mais o apelo turístico da região. Projeções técnicas indicam uma colheita estadual de cerca de 905 mil toneladas, crescimento de aproximadamente 10% em relação ao ciclo anterior, segundo estimativas da Emater-RS/Ascar, com expectativa de excelente qualidade das uvas, especialmente para vinhos finos e espumantes.
O inverno mais frio e prolongado contribuiu para uma brotação homogênea e para a sanidade dos vinhedos, criando condições favoráveis para a maturação fenólica e o equilíbrio dos cachos. Na Cooperativa Vinícola Aurora, por exemplo, a projeção é de 85 milhões de quilos de uva, alta de 18,7%, com expansão de áreas destinadas a espumantes, segmento em franca ascensão no mercado.
Esse cenário produtivo funciona como combustível para o turismo. A vindima de 2026 já desponta como um dos principais ativos de marketing territorial do Rio Grande do Sul, com eventos que transformam a colheita em experiências sensoriais. Municípios como Bento Gonçalves, Flores da Cunha, Garibaldi e Gramado organizam programações que incluem pisa da uva, jantares harmonizados, shows e intervenções culturais nos vinhedos.
Para a Wine Locals, a combinação entre boa safra e calendário de eventos fortalece a atratividade do destino. "A vindima é um período-chave para posicionar o enoturismo gaúcho no calendário nacional, especialmente no período posterior ao Natal Luz de Gramado", destaca o CEO Diego Fabris. Com uma base produtiva sólida e um turista cada vez mais disposto a investir em experiências, a expectativa é de que 2026 consolide a Serra Gaúcha como referência absoluta do turismo do vinho no Brasil.