Janeiro tem um jeito próprio de cobrar os novos prefeitos. A festa da posse já virou memória, as fotos perderam o brilho nas redes sociais, e, de repente, o calendário entrega: passou um ano. É justamente aí que a prefeitura se revela, não aquela da campanha, mas a de verdade. A que range portas, carimba papéis, engole prazos e responde com silêncio quando alguém pergunta: Dá pra fazer?
No primeiro ano, o gestor aprende que o orçamento tem destino certo, como uma carta selada; folha de pagamento, saúde, educação, obras inacabadas, contratos que não esperam, contas que vencem sem piedade. O resto - o pouquíssimo que sobra - é esperança e disputa. Porque, no fundo, todo prefeito descobre cedo que governar é priorizar. E priorizar, muitas vezes, é suportar o desconforto de dizer “não”.
Há, também, o que não está na planilha: o estoque que acaba sem avisar, a máquina que quebra a 50 quilômetros da sede, a licitação que volta impugnada ou suspensa, o processo que “sempre foi assim” e ninguém sabe explicar por quê. Tem a obra que até parece ser simples, até aparecer o detalhe técnico inesperado, o convênio que exige uma contrapartida que ninguém colocou na conta, o servidor que falta e deixa um setor inteiro paralisado. E tem, sobretudo, a população batendo na porta e cobrando com a urgência de quem vive o problema no dia a dia e não pode esperar.
Essa é a história real e que muda pouco: a rua pede lâmpada, o interior pede estrada, o posto pede remédio, a escola pede merenda, e o gabinete pede tempo. É quando o prefeito descobre que a caneta não é varinha mágica: é ferramenta, mas só funciona com mão firme e planejamento. A “entrega” que mais importa nesse começo, muitas vezes, não é a que aparece em placa, mas a que ninguém vê: reorganizar fluxo, reconstituir rotina, dar previsibilidade ao que estava no improviso.
O primeiro ano é mais sobrevivência do que inauguração. É o ano do “apagar incêndios” com um balde em cada mão: revisar o que está pendurado, fechar o que está aberto, organizar o que está desordenado. Parece pouco, mas não é. Arrumar a casa é também uma forma de governar. Diagnóstico não é desculpa, é o mapa antes da viagem. Uma gestão que não entende o que herdou, não governa: só reage.
O segundo ano, porém, é "outro bicho". Ele cobra a virada. Cobra que o governo pare de correr atrás do dia e comece a puxar o futuro pela coleira. É quando a palavra governança deixa de ser palestra e vira rotina: reunião curta, prioridade clara, contrato fiscalizado, compra planejada, metas que sejam possíveis de cumprir. É quando o prefeito troca a ansiedade do anúncio pela disciplina do acompanhamento. E descobre que o segredo, quase sempre, não está em fazer mais, mas em fazer melhor, com sequência, com registro, com responsabilidade.
Uma prefeitura que aprende a se enxergar também aprende a se conduzir. No fim das contas, os 12 primeiros meses fazem isso: retiram a maquiagem e mostram o rosto. E é a partir do segundo ano que, de fato, começamos a medir a capacidade dos gestores. Uma vez revelada, não há perdão para o improviso. O ano 1 ensina os limites. O ano 2 é quando se prova que eles podem ser contornados, com coragem para escolher, humildade para ajustar e disciplina para repetir o que dá certo.