Porto Alegre,

Publicada em 09 de Janeiro de 2026 às 18:05

Municipários de Santa Maria temem novos atrasos salariais em 2026

Reforma da previdência e atraso salarial a inativos alimentaram tensões entre a prefeitura e servidores durante todo o 2025

Reforma da previdência e atraso salarial a inativos alimentaram tensões entre a prefeitura e servidores durante todo o 2025

Marcelo Oliveira/Prefeitura de Santa Maria/Divulgação/Cidades
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Lívia Araújo
Lívia Araújo Repórter
O atraso no pagamento de salários de servidores inativos e pensionistas de Santa Maria, cujos valores foram regularizados ao longo da última semana, acendeu o alerta entre os municipários de Santa Maria, que temem que a situação se repita ao longo de 2026. 
O atraso no pagamento de salários de servidores inativos e pensionistas de Santa Maria, cujos valores foram regularizados ao longo da última semana, acendeu o alerta entre os municipários de Santa Maria, que temem que a situação se repita ao longo de 2026
Os vencimentos que deveriam ter sido pagos ainda dezembro de 2025, foram depositados somente no dia 5 de janeiro, juntamente com o salário de cargos comissionados (CCs), do prefeito, da vice-prefeita e dos secretários municipais. A medida foi anunciada pela prefeitura em comunicado no dia 30 de dezembro, data em que pagou o salários dos servidores municipais em atividade.
Após quase duas décadas sem registros de atraso salarial generalizado, o cenário vivido no fim de 2025 e início de 2026 passou a ser visto pelo sindicato da categoria como um marco negativo. "O que mais nos preocupa é a tentativa de dividir servidores ativos e inativos, como se fossem categorias diferentes, quando, na verdade, todos somos municipários”, afirma a presidente do Sindicato dos Municipários de Santa Maria (SMSM), Vívian Serpa. Para ela, no entanto, a situação acabou fortalecendo a mobilização e a união da categoria.
O contexto financeiro ajuda a explicar o impasse. Na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026, a prefeitura estimou uma receita de R$ 1,624 bilhão, frente a despesas que chegam a cerca de R$ 1,69 bilhão, o que gera um déficit aproximado de R$ 66 milhões. Parte relevante dessa pressão decorre da necessidade de complementação mensal da folha de aposentados e pensionistas vinculados ao Instituto de Previdência e Assistência à Saúde dos Servidores Públicos Municipais de Santa Maria (Ipassp), cujo sistema é considerado estruturalmente deficitário pela gestão municipal.
De acordo com a prefeitura, em textos divulgados em seu site, apenas em 2025 foram destinados cerca de R$ 215 milhões para cobrir despesas previdenciárias, somando aportes regulares e valores adicionais. Esse cenário motivou o envio à Câmara de Vereadores, no ano passado, de uma proposta de reforma da previdência, apresentada pelo prefeito Rodrigo Decimo como necessária para garantir a sustentabilidade do sistema no médio e longo prazo. Contatada pelo Cidades, a prefeitura ainda não tinha dado um retorno sobre o tema até o fechamento desta matéria.
Para o sindicato, no entanto, o problema vai além dos números. Vivian Serpa aponta que existe falta de transparência e de diálogo por parte do Executivo. “Eles dizem que há dificuldade, mas não mostram os números com clareza. Desde o ano passado vivíamos a incerteza sobre o 13º salário. O servidor passou meses sob pressão psicológica, sem saber se receberia um direito básico”, relata. Segundo ela, o SMSM conseguiu barrar na Câmara um projeto que autorizava empréstimos bancários aos servidores como alternativa para pagamento do 13º, defendendo que o município utilizasse recursos da própria folha.
Em relação à reforma da previdência, o sindicato afirma não ser contrário à discussão, mas rejeita o projeto apresentado. “Sabemos que a reforma é necessária, mas esse projeto é cruel. Ele prevê aposentadorias calculadas com apenas 60% da média salarial, o que reduz drasticamente a renda justamente na fase da vida em que o servidor mais precisa”, destaca Vivian. A greve realizada durante entre 24 de novembro e 4 de dezembro do ano passado, teve como principal objetivo barrar a votação da proposta, o que foi alcançado temporariamente. A categoria, porém, segue em estado de greve, diz Vivian.
O temor agora é de que os atrasos se repitam. “Se aconteceu com os inativos neste mês, no próximo pode acontecer com os ativos. Isso gera uma tortura psicológica constante, uma insegurança que afeta toda a categoria”, diz a presidente do SMSM. Além do pagamento em dia, os municipários também cobram a abertura de mesa de negociação para uma reposição salarial, suspensa desde 2024, que ao menos amenize as perdas inflacionárias. Ao longo dos anos, a defasagem nos vencimentos dos servidores municipais se acumula em 36%, aponta o sindicato. Segundo Vivian, a prefeitura coloca a aprovação da reforma previdenciária como condição para se discutir um reajuste para a categoria.
Enquanto prefeitura e sindicatos ainda não retomam o diálogo formal em 2026, mobilizações seguem ocorrendo em apoio aos aposentados e como forma de pressão. Para Vivian Serpa, o recado dos servidores é claro. “Queremos diálogo, transparência e compromisso real. O servidor não pode ser sempre o primeiro a pagar a conta da crise”.

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