Porto Alegre,

Publicada em 06 de Janeiro de 2026 às 18:18

Venezuelanos em Esteio têm cautela sobre futuro do país

Apesar de sentir falta do país natal, Keila não vê perspectivas seguras para voltar à Venezuela dentro dos próximos dois anos

Apesar de sentir falta do país natal, Keila não vê perspectivas seguras para voltar à Venezuela dentro dos próximos dois anos

Keila Trejo/Arquivo Pessoal/Cidades
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Lívia Araújo
Lívia Araújo Repórter
Morando em Esteio, na Região Metropolitana de Porto Alegre, as venezuelanas Irene Bastidas e Keila Trejo acompanham à distância, com apreensão e expectativas distintas, os desdobramentos da invasão dos Estados Unidos à Venezuela, ocorrida em 3 de janeiro, que culminou na queda do presidente Nicolás Maduro. As duas integram um contingente crescente de imigrantes que encontrou na cidade condições para recomeçar, após anos marcados por crise econômica, escassez e insegurança no país de origem.
Morando em Esteio, na Região Metropolitana de Porto Alegre, as venezuelanas Irene Bastidas e Keila Trejo acompanham à distância, com apreensão e expectativas distintas, os desdobramentos da invasão dos Estados Unidos à Venezuela, ocorrida em 3 de janeiro, que culminou na queda do presidente Nicolás Maduro. As duas integram um contingente crescente de imigrantes que encontrou na cidade condições para recomeçar, após anos marcados por crise econômica, escassez e insegurança no país de origem.
Keila, 43 anos, vive em Esteio desde o fim de 2021. Chegou ao Brasil com os filhos após uma longa permanência em Boa Vista (RR), dificultada pela condição de saúde da filha caçula, que tem hidrocefalia. Hoje, a família está dividida em moradias na cidade; Keila faz faxinas, o companheiro trabalha como motorista de aplicativo, e a filha recebe acompanhamento pelo sistema de saúde. "Nossa situação melhorou muito. Aqui, pelo menos, temos acesso a remédios e serviços básicos", relata.
A percepção de Keila sobre os acontecimentos recentes é cautelosa. Embora comemore a saída de Maduro, ela teme os rumos do processo político. "Estamos felizes por uma coisa, mas preocupados com outra. Muitos que ficaram no poder são tão corruptos quanto ele (Maduro)", diz. Em contato constante com familiares em Caracas, Keila descreve um cenário de medo e desinformação. "As pessoas saem por poucas horas para comprar comida, sem saber o que vai acontecer. É desesperador."
Apesar da saudade da Venezuela, Keila não cogita voltar no curto prazo. "A Venezuela não vai melhorar em um ou dois anos. Nós já temos uma vida aqui, filhos na escola, uma filha que nasceu no Brasil", afirma. Para ela, a esperança precisa vir acompanhada de prudência. "Não vou me submeter à mesma coisa de novo", desabafa.
Irene, 32 anos, vive no Brasil há 10 meses e está em Esteio há seis. Enfermeira formada, ela deixou a Venezuela com o marido e quatro filhas após mais de duas décadas entre Caracas e o estado de Miranda. "O trabalho não era sustentável. Não importava o que você fizesse, o dinheiro não dava para viver nem para pagar as contas", relata. A decisão de migrar foi motivada pela busca por "educação, comida e segurança" para as filhas, em meio ao agravamento da crise e à repressão política após eleições contestadas.
O caminho até o Rio Grande do Sul passou por Roraima, com apoio de organizações humanitárias. Grávida ao chegar ao Brasil, Irene conta que recebeu assistência nos abrigos e, depois, foi interiorizada para Esteio. Hoje, o marido trabalha como assistente de logística; ela, dedicada às filhas pequenas, planeja abrir um pequeno negócio enquanto avalia a revalidação do diploma. "Gosto muito de Esteio. É uma cidade tranquila, a segurança é diferente de tudo o que vivíamos", afirma.
Sobre a invasão americana, Irene demonstra uma postura mais otimista que a conterrânea Keila. O impacto inicial, porém, foi de medo. "Quando vi os bombardeios, pensei que tinham atingido a cidade inteira. Minha mãe mora em Caracas, fiquei desesperada", diz. Após o choque, ela descreve um clima de ansiedade permanente no país, com ruas vazias e comércio abrindo por poucas horas. Ainda assim, acredita que a intervenção era inevitável. "Isso não ia mudar por si só. Tenho fé de que as coisas vão melhorar na Venezuela", afirma, embora descarte um retorno definitivo ao país natal. "Se eu voltar, seria para turismo", complementa
As histórias de Irene e Keila revelam trajetórias distintas, mas atravessadas por um mesmo sentimento: a incerteza sobre o futuro do país de origem e a gratidão pelo acolhimento encontrado em Esteio. Entre o medo do que ainda pode acontecer e a esperança de reconstrução, ambas seguem acompanhando os desdobramentos à distância, enquanto constroem, dia a dia, uma nova vida no Brasil.

Município registra alta no atendimento a imigrantes e projeta novo fluxo com o conflito

Prefeitura projeta capacidade de absorver até 2.500 imigrantes; hoje, são 1,4 mil

Prefeitura projeta capacidade de absorver até 2.500 imigrantes; hoje, são 1,4 mil

Adriano Rosa da Rocha/Prefeitura de Esteio/Divulgação/Cidades
O município de Esteio tem registrado um aumento expressivo no atendimento a imigrantes venezuelanos nos últimos meses, movimento associado à piora das tensões políticas e sociais na Venezuela. A constatação é da Secretaria Municipal de Cidadania e Direitos Humanos, por meio do Espaço Mundo, estrutura dedicada ao acolhimento e à orientação de imigrantes e refugiados na cidade.
De acordo com o coordenador do Espaço Mundo, João Kupka, os números mais recentes indicam uma mudança significativa no padrão histórico de atendimentos. Tradicionalmente, dezembro registra entre 30 e 40 atendimentos mensais. Em dezembro passado, porém, foram 154 atendimentos, muito acima da média mensal, que gira em torno de 85. Em outubro, o serviço contabilizou 130 atendimentos, e em novembro, 108.
Além do volume total, chamou atenção o número de novos imigrantes. Somente em dezembro, 65 pessoas atendidas eram recém-chegadas a Esteio, quando a média histórica é de 10 a 12 novas chegadas por mês. Em novembro, foram 26 novos atendimentos, e em outubro, 17. "Muitas famílias que já estavam aqui juntaram recursos para trazer parentes, com receio do agravamento da situação na Venezuela", explica Kupka.
O início de janeiro manteve a tendência de alta. Em apenas três dias de atendimento, o Espaço Mundo registrou 32 atendimentos, sendo 18 de venezuelanos e 14 de cubanos. Segundo Kupka, o fluxo recente tem sido majoritariamente de pessoas que já estavam no Brasil e buscam regularização de documentos ou informações para reunificação familiar, mas há expectativa de novas chegadas caso a situação na fronteira volte a se flexibilizar.
Atualmente, entre 1,4 mil e 1,5 mil venezuelanos vivem em Esteio. Quanto à capacidade de atendimento, Kupka avalia que, no momento, a rede municipal consegue absorver novos imigrantes. "A educação e a saúde estão bem estruturadas. Acreditamos que seja possível atender até algo em torno de 2 mil a 2,5 mil venezuelanos. Acima disso, será necessário recalcular estratégias e buscar apoio", afirma.

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