A aposentada Maria Terezinha da Silva é moradora de Roca Sales há 50 anos. Ela e seu marido Cândido moram na rua 31 de Março, logo na entrada da cidade. Ao longo de todos esses anos, a família decidiu investir as economias na compra de terrenos e casas para obter a renda de aluguel. Ao todo, adquiriram oito no município, sendo quatro dessas propriedades na frente de onde moram. O somatório dos pagamentos proporcionava R$ 11,5 mil mensais para a família, fora os valores de aposentadoria que ambos recebiam, o que trazia uma vida tranquila para ambos.
As sucessivas enchentes mudaram o cenário da família de maneira abrupta. Os episódios de setembro e novembro de 2023, além de maio de 2024, acabaram com a renda do casal. As oito casas foram destruídas pelo rio Taquari, que atingiu, também, o primeiro andar da residência de Maria. "Nós saímos no dia 29 de abril, uma segunda-feira à tarde, de casa. Pegamos o carro e fomos até um ponto mais alto da nossa rua para nos abrigarmos. Todo esse tempo fique com meu marido já muito doente por causa do câncer", descreve a aposentada.
De lá, ela conta que viu casas inteiras serem arrastadas. Contêineres do frigorífico começaram a boiar e se chocaram contra as residências. Na casa dela, o primeiro andar foi tomado pela água, e parte da construção também precisou de reforma. Para isso, Maria Terezinha precisou procurar outro lugar para morar. "Perdemos toda a renda e fiquei com um salário mínimo só. Com esse dinheiro, precisei pagar R$ 1 mil de aluguel e sobrava R$ 400,00 para luz, água, alimentação. Fiquei até dezembro do ano passado fora de casa", conta.
Antes das cheias, terrenos eram preenchidos por casas
GOOGLE MAPS/DIVULGAÇÃO/CIDADES
No fim de maio de 2024, o marido de Maria Terezinha faleceu. Segundo ela, houve uma piora no quadro em meio ao caos da enchente, que obrigou ele a ser levado ao hospital. Questionada como é a vida após o desastre climático e o falecimento de Cândido, a aposentada não esconde a tristeza. "Eu choro muito, todos os dias. A minha vida virou de ponta cabeça. Nem sei como estou aqui ainda... O único motivo que me faz ficar viva é meu cachorrinho, o Chico. Meu marido, antes de morrer, disse para mim 'cuida bem dele'. É por ele que eu acordo todos os dias", diz.