Chimarrão: a tradição mais amada dos gaúchos

No Mês Farroupilha, leitores do Jornal do Comércio votaram e escolheram o mate como a tradição que mais orgulha os gaúchos


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Reportagem:
Juliano Tatsch
Edição:
Amanda Jansson Breitsameter
Paula Sória
Editor-chefe:
Guilherme Kolling
Leitores do JC escolheram o mate como a tradição que mais orgulha os gaúchos

Leitores do JC escolheram o mate como a tradição que mais orgulha os gaúchos

ANTONIO PAZ/Arquivo/JC

Dos jovens na praça, no parque ou na orla, aos mais velhos na varanda da casa. Na beira da praia ou no galpão na estância, no intervalo das aulas ou durante o trabalho no escritório. Do roqueiro ao tradicionalista. Do funkeiro ao sambista. No campo ou na cidade. Na Capital, no Interior, pelo Brasil afora e pelo mundo inteiro. Onde houver um gaúcho, lá estará ele. No Mês Farroupilha, os leitores do Jornal do Comércio votaram em uma enquete em parceria com a Bom Princípio Alimentos e, com quase o dobro de votos do que o churrasco, que ficou em segundo lugar, escolheram o chimarrão como a tradição preferida dos gaúchos.
É difícil encontrar uma residência em algum dos 497 municípios do Rio Grande do Sul em que não haja três coisas: uma cuia, uma bomba e um pacote com erva-mate. Há quem goste do mais simples e tradicional possível, há quem prefira com a adição de chás aromáticos e digestivos, há quem não abra mão da cuia de porongo e há quem prefira de porcelana ou até de metal. Há quem goste “pelando” de quente (o que não é bom para a saúde) e há quem se sinta melhor com a temperatura da água mais amena.
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Tradição mais amada dos gaúchos e gaúchas teve de se adaptar à pandemia. Foto: Luiza Prado/JC
O chimarrão é democrático. Há espaço para todos. A tradição de sorver o mate amargo vai passando de geração para geração, e a roda de chimarrão, seja em família, seja entre amigos, é uma espécie de patrimônio cultural imaterial do Rio Grande do Sul.
Desde o início do ano passado, porém, a tradição mais amada dos gaúchos e gaúchas teve de se adaptar. Com a chegada da pandemia do novo coronavírus, compartilhar a bebida passou a ser desindicado por questões sanitárias. Mais de um ano e meio depois, porém, com a disseminação das vacinas contra a Covid-19, ainda com a manutenção dos devidos cuidados, o mate começa a voltar a ser um agregador, uma força que une as pessoas, que aproxima os desconhecidos, um companheiro nas lidas diárias.
O consumo do chimarrão vai além do aparentemente simples ato de colocar a erva na cuia, adicionar a água quente, inserir a bomba e sorver. O chimarrão é um ritual para o gaúcho. Cada um faz do seu jeito. Não existe uma receita pronta, um modo correto ou um jeito errado de preparar. O importante é sentir a conexão com o passado, com os povos que deram início a essa história, e manter viva a cultura.
Ao sair às ruas, principalmente nos finais de semana ensolarados, não é preciso procurar muito para encontrar grupos sentados em bancos, cadeiras ou até mesmo no chão compartilhando a bebida, que tem uma história profundamente ligada com a terra e com as populações originárias da região Sul brasileira.
Confira o resultado da enquete do JC

Qual tradição gaúcha mais te orgulha?

1º Chimarrão – 39,8%
2º Churrasco – 23,0%
3º Hino – 12,1%
4º Chimia – 7,0%
5º Música – 7,0%
6º Dança – 5,8%
7º Vestimenta – 3,5%
8º CTG – 1,5%
 
Bom Princípio Alimentos/ Divulgação/ JC

Com os índios guaranis, a origem do costume

Pouca gente sabe, mas a maior tradição dos gaúchos não tem origem no Rio Grande do Sul, mas sim na região do Guairá, atual estado do Paraná. Foram os índios Guarani quem descobriram a erva-mate (caá) e passaram a usá-la como bebida misturada em água, tomando-a por meio de uma bomba de taquara, a tacuapi.
“Os índios do Guairá eram mais fortes do que os guaranis de qualquer outra região, eram mais alegres e dóceis e possuíam usos e costumes característicos, ainda não observados em qualquer outra tribo da grande nação. Entre esses hábitos, um por certo despertou a curiosidade entre os homens de Irala (espanhóis); tratava-se do uso generalizado de uma bebida feita com certas folhas fragmentadas, tomadas num pequeno porongo por meio de um canudo de taquara, em cuja base um paciencioso trançado de fibras impedia que as partículas da folha também fossem ingeridas”, diz o folclorista, advogado, ensaísta e um dos fundadores do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), Barbosa Lessa, em sua obra A História do Chimarrão, publicada em 1953.
Os colonizadores espanhóis passaram a fazer uso da caá-i (água da erva), o que foi rechaçado pelos padres jesuítas, os quais não viam com bons olhos os atributos desconhecidos da planta que, inicialmente, era de uso exclusivo dos pajés em suas cerimônias. O controle dos religiosos, porém, não foi eficiente, e o mate se difundiu junto às comunidades. Com uma dieta fortemente baseada na carne, as propriedades digestivas do chimarrão caíram como uma luva no cotidiano popular. No século XVII, os próprios jesuítas passaram a incentivar o uso do mate, trazendo-o para o Rio Grande do Sul.
Em uma época em que os tropeiros cruzavam os campos, não demorou muito para o consumo do mate se espraiar pelo RS e, assim, começar a jornada que iria transformá-lo na tradição mais amada do Estado.

O papel do tradicionalismo na difusão e popularização do hábito

Não há como falar sobre a importância cultural do chimarrão para o Rio Grande do Sul sem citar o papel que o movimento tradicionalista teve na sua popularização. Com o objetivo de recuperar os valores, a história e valorizar e difundir a cultura local, desde suas origens, o movimento, encabeçado por figuras como Paixão Côrtes, Barbosa Lessa e Glaucus Saraiva elevou o mate de patamar, colocando-o como um símbolo da ligação do gaúcho com seu passado.
A bebida, que era muito popular no Estado nos séculos XVIII e XIX, acabou perdendo espaço com a chegada do século XX e a tendência de migração da população das zonas rurais para as urbanas. Ligado à imagem do homem humilde do campo, o consumo do mate entrou em declínio, passando a ser relacionado ao atraso.
Foi com o nascedouro Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) que o mate renasceu, ganhando um significado que, até então, não tinha. Em 1947, foi fundado o Departamento de Tradições Gaúchas (DTG), no Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre. O DTG do Julinho foi o embrião do que hoje conhecemos como Centro de Tradições Gaúchas (CTG), que surgiu no ano seguinte, em 1948, com a fundação do 35 CTG.
Nos CTGs, a cultura e as tradições eram vivenciadas, e não apenas motivo de lembrança. E o mate amargo estava sempre presente nas atividades, ganhando cada vez mais adeptos.
Conforme o doutor em História e professor do Programa de Pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Jocelito Zalla, Barbosa Lessa, com seu livro A História do Chimarrão (1953), teve papel fundamental na criação do elo do gaúcho com os povos originários. “Se o autor já havia afirmado a ligação racial do sul-rio-grandense com o indígena, o chimarrão era o elo cultural com o povo guarani”, destaca o pesquisador.
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Lessa foi o tema da dissertação de mestrado em História de Zalla. Em seu trabalho, o professor salienta o papel destacado que o folclorista dava ao chimarrão dentro do processo de fundamentação do movimento tradicionalista, lembrando uma passagem bastante representativa do livro clássico de Lessa: “Só o chimarrão permanece como tradição fundamental do gaúcho, elevando-se ao patamar de um símbolo imorredouro e inconfundível”, escreveu o folclorista na obra.
Como, à época, o cavalo, a bombacha, a bota, o chapéu, o lenço no pescoço e o churrasco na valeta do chão eram "coisas do Interior", coube ao chimarrão trazer o campo para a cidade, fazendo a ligação da figura típica do homem da terra, das duras lides diárias, com o cidadão urbano que não se via espelhado no gaúcho heroico do imaginário popular.

A etiqueta na roda de chimarrão

Entre as regras, está a de sempre passar o mate com a mão direita

Entre as regras, está a de sempre passar o mate com a mão direita

JOÃO MATTOS/ARQUIVO/JC

O mate não é só uma bebida. O mate é uma celebração que tem na roda de chimarrão o seu símbolo maior da hospitalidade gaúcha. É possível e comum preparar um chimarrão para tomar sozinho. Mas é na comunhão, na coletividade, que a tradição floresce e se fortalece.
Todo mundo que já esteve em uma roda dessas sabe que existe uma certa etiqueta a ser cumprida. Primeiramente, a água não pode ferver ao fogo. Quando a chaleira chiar, já é hora de encher a cuia. O mate é cevado pelo anfitrião, que sorve a primeira cuia. A cuia sempre deve ser passada com a mão direita. Nunca devolva a cuia ao preparador sem antes fazê-la roncar, afinal ninguém deve tomar o resto do seu mate. Qualquer um pode entrar a qualquer hora na roda, mas sem furar a ordem, sempre esperando a sua vez. Outra norma é nunca mexer na bomba. Se ela entupir, é papel do cevador resolver o problema.
Confira algumas das regras da roda de mate:
  • A água não deve ser fervida, devendo ser aquecida na casa dos 70°C
  • O dono da casa ou aquele que convidou os outros para a mateada é quem enche a cuia e quem sorve o primeiro mate
  • A cuia deve ser sempre passada com a mão direita
  • O mate deve ser tomado todo, fazendo a cuia "roncar" antes de passá-la adiante
  • Apenas o cevador pode mexer no mate, desentupir a bomba ou ajustar a erva
  • Quando entrar em uma roda de chimarrão, sente à esquerda do cevador, aguardando o mate percorrer toda a roda até chegar a sua vez
  • Não exagere na conversa, permanecendo muito tempo com a cuia nas mãos; o mate tem de circular na roda

Erva-mate movimenta mais de meio bilhão de reais por ano no Brasil

Além de aquecer nos dias frios, ajudar na digestão e ser um companheiro logo cedo pela manhã ou ao fim da tarde após um longo dia de trabalho, o chimarrão – ou apenas “chima”, para os mais íntimos – movimenta uma grande cadeia produtiva, movendo a economia e gerando renda para quem produz e comercializa e riqueza para o Estado como um todo.
Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2020, o Rio Grande do Sul produziu um total de 214.552 toneladas de erva-mate, em 24,3 mil hectares de área colhida, gerando R$ 231,7 milhões em produção. O RS é o segundo estado que mais produz a Ilex paraguariensis – nome cientifico da erva-mate – no Brasil, ficando atrás apenas do Paraná (228.382 toneladas colhidas em 29.876 hectares, gerando R$ 283,2 milhões em 2020).

Tamanho da produção de erva-mate no Rio Grande do Sul

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Em todo o Brasil, foram produzidas 527.546 toneladas de erva no ano passado, colhidos 69.047 hectares, gerando um valor de produção total de R$ 576,8 milhões. A produção brasileira não sustenta apenas o consumo local. Em 2019, conforme dados compilados pela Unidade de Estudos Econômicos da Fiergs, foram exportados US$ 79,5 milhões em erva-mate pelo Brasil, com o Rio Grande do Sul sendo o responsável por 81,9% desse volume (US$ 65,1 milhões). O município de Encantado, na região Central do Estado, é o maior exportador de erva-mate do RS, sendo responsável, em 2019, por 75,9% de toda a exportação gaúcha do produto.

Valor gerado pela produção de erva-mate no Rio Grande do Sul

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Apesar de ainda ser uma potência na produção, o Rio Grande do Sul vem perdendo espaço na participação nacional. Em 1991, o Estado era responsável por 75,8% de toda a erva-mate colhida no País. Nove anos depois, em 2010, o RS colhia 61,8% de toda a produção nacional. Passada uma década, a participação gaúcha no total produzido no Brasil caiu para 40,6%, sendo o primeiro ano da série histórica em que o Rio Grande do Sul deixou de liderar o ranking nacional de produção (o Paraná assumiu a liderança, colhendo 43,2% de toda a erva-mate brasileira no ano passado). Ainda assim, o faturamento aumentou consideravelmente, na medida em que, com a oferta menor do produto, o preço subiu. Além disso, com a pandemia, e a impossibilidade do compartilhamento da cuia, as vendas de erva-mate cresceram, aquecendo o setor.

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Reportagem publicada em 29/09/2021 pelo

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