Mauro Belo Schneider

O Corcovado funcionava na avenida Borges de Medeiros, no Centro Histórico da cidade

Empresário fecha restaurante de 51 anos de Porto Alegre e conta receita do negócio

Mauro Belo Schneider

O Corcovado funcionava na avenida Borges de Medeiros, no Centro Histórico da cidade

O restaurante Corcovado, na avenida Borges de Medeiros, nº 983, no Centro Histórico de Porto Alegre, operou durante 51 anos, seis meses e seis dias. A precisão das datas só podia ser calculada por quem deu a vida por ele, José de Jesus Santos, 73, que no último dia 6 de agosto não aguentou esperar o fim do expediente, já que seria o último.

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O restaurante Corcovado, na avenida Borges de Medeiros, nº 983, no Centro Histórico de Porto Alegre, operou durante 51 anos, seis meses e seis dias. A precisão das datas só podia ser calculada por quem deu a vida por ele, José de Jesus Santos, 73, que no último dia 6 de agosto não aguentou esperar o fim do expediente, já que seria o último.
“Foi uma emoção dos funcionários e dos clientes na hora da despedida, a tal ponto que eu não consegui ficar até fechar. Estava me sentindo mal, querendo voltar atrás. Vou acordar um bom tempo pensando em ir para lá”, confessa.
Embora nostálgico, De Jesus, como diz ser conhecido na praça, reconhece que as filhas, Fernanda e Renata, estavam certas: chegou o momento de parar. As herdeiras não darão continuidade ao estabelecimento que foi responsável pelas conquistas da família pois seguiram outras áreas. Direito e Fisioterapia, respectivamente.
“Na vida, temos que saber nossos limites. A hora de entrar e a de sair. Ver outros horizontes”, interpreta o empreendedor. Nascido em Portugal, está nos seus planos, agora, levar a esposa, Suzana, que sempre trabalhou ao seu lado, à terra que não visita desde 1989. Não dava tempo. Por décadas, bateu ponto das 6h à meia-noite no Corcovado. “As pessoas acham que dinheiro cai do céu”, brinca.
Arquivo Pessoal/Divulgação/JC
A pandemia não foi a motivação para o fechamento, mas serviu de ensaio. De março a outubro de 2020, por conta do risco de contágio do coronavírus, o local ficou isolado. Em casa, De Jesus descobriu que há atividades para explorar longe da Borges de Medeiros. Se revelou, inclusive, como motorista particular dos netos.
No Corcovado, ele fazia de tudo. Trabalhava na chapa, na cozinha, no caixa e se emocionava com as histórias da clientela. “Queria interagir com as pessoas, até porque, no meu entendimento, o restaurante é a extensão do nosso lar. Numa mesa, a gente confraterniza, faz negócios, namora”, elenca.
Antes de virar dono, De Jesus acumulou experiências no comércio. Foi entregador de pão, ajudante de padeiro e de confeiteiro, balconista e auxiliar de cozinha. E tinha o costume de economizar, algo que aprendeu com o pai analfabeto. “Ele era meu ídolo. O pai tinha o dom de enxergar as coisas para frente. Ele sempre se parava ao lado da caixa registradora e me dizia que eu tinha que identificar qual era o meu dinheiro. Ressaltava que aquilo tudo não era meu. Dizia que o que sobra temos que cuidar, guardar, pois quem trabalha em comércio pode ter dias bons e dias não muito bons. Passei pela pandemia porque tinha recursos para manter meu estabelecimento fechado”, afirma, relacionando o ensinamento antigo à crise atual.
Arquivo Pessoal/Divulgação/JC
 
O Corcovado se adaptou ao longo do tempo. Teve à la carte, frango prensado, café e lanchonete. Por último, funcionava com buffet. O carro-chefe eram os bacalhaus às natas e à Gomes de Sá, a sobrecoxa grelhada e o bife na chapa. O empreendimento contava com sete funcionários, a quem De Jesus destaca ter muita gratidão. Seu relacionamento com o Sindicato de Hospedagem e Alimentação de Porto Alegre e Região (Sindah), onde foi diretor e presidente, também contribuiu para a longevidade do negócio, segundo De Jesus.
Após tantos anos no ramo, ele aprendeu que a forma de se relacionar faz toda a diferença. “Além do alimento, sentir o calor humano é muito importante. Independentemente do lucro, é preciso haver esse prazer, essa satisfação de ver as pessoas felizes”, ensina De Jesus.
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Mauro Belo Schneider - editor do GeraçãoE

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