Mauro Belo Schneider

Jornalista deixou televisão após 25 anos em busca de liberdade

'O meu contrato comigo é: te permite', diz Carla Fachim

Mauro Belo Schneider

Jornalista deixou televisão após 25 anos em busca de liberdade

Após 25 anos trabalhando na RBS TV, Carla Fachim pediu demissão em junho passado. Conhecida dos gaúchos por apresentar o programa noturno da emissora, a jornalista diz que começou a sentir falta de uma rotina mais flexível no nascimento do filho Lorenzo, há sete anos. Desde então, perdia o sono e anotava no celular as ideias que surgiam dos novos rumos que gostaria de trilhar. Foi em uma dessas madrugadas que escreveu o texto de despedida das telinhas, muito antes de avisar o departamento de Recursos Humanos sobre sua partida.

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Após 25 anos trabalhando na RBS TV, Carla Fachim pediu demissão em junho passado. Conhecida dos gaúchos por apresentar o programa noturno da emissora, a jornalista diz que começou a sentir falta de uma rotina mais flexível no nascimento do filho Lorenzo, há sete anos. Desde então, perdia o sono e anotava no celular as ideias que surgiam dos novos rumos que gostaria de trilhar. Foi em uma dessas madrugadas que escreveu o texto de despedida das telinhas, muito antes de avisar o departamento de Recursos Humanos sobre sua partida.
Em uma live pelo Instagram do GeraçãoE (@jcgeracaoe), Carla falou sobre essa transição de carreira e contou que se deu até dezembro para decidir seu futuro profissional. Por enquanto, mantém uma rotina diária de transmissões de suas atividades físicas com professores parceiros no Instagram (@carlafachim), sempre às 8h, lançou um canal no YouTube para falar sobre finanças para crianças e promove produtos e serviços.
GeraçãoE - Como está tua saúde mental?
Carla Fachim - Estou muito feliz. Não foi nada fácil, em nenhum momento. A decisão não surgiu da noite para o dia. Agora estou em desconstrução de uma Carla que construí por 25 anos e estou me experimentando. Considero esse período como sabático, pois voltei a estudar. Meu semblante diz tudo.
GE - Tua rotina continua bastante intensa, com lives diárias. Como te organizas?
Carla - Realmente, me tornei uma pessoa mais presente nas redes sociais. Pois, agora, é através desse portal que consigo manter a conexão com as pessoas. Em função do modelo de negócio que eu trabalhava antes, havia algumas restrições e comecei a sentir necessidade de viver outras experiências. Estou mais presente, mas fazendo só o que eu gosto. Peneirando. O que está nas minhas redes sociais é a Carla na sua essência, na sua verdade. Faço as lives de atividades físicas para mim, sou a maior beneficiada disso. E ofereço essa possibilidade para que outras pessoas pratiquem o autocuidado por 40 minutos por dia, de segunda a sexta-feira. O canal do Youtube sobre educação financeira infantil é para aplicar com meu filho. Tudo que tenho compartilhado é a minha verdade, é o que eu sou fora das telas.
GE - Como foi esse processo de se redescobrir?
Carla - Nunca me perdi do meu caminho, fui me encontrando cada vez mais. No ar, temos que se adequar ao perfil do trabalho. Enquanto jornalista e apresentadora, tinha que ter uma postura de acordo com o que estava pronta para fazer. Tinha que incorporar o teor da notícia, pois não era eu, era a apresentadora. Acho que todo mundo passa por redescobertas todos os dias quando abre os olhos.
GE - Por que pediste demissão?
Carla - Pedi demissão porque cheguei no meu limite, cansei, quis viver, virar a página, ter outras experiências. Não queria mais trabalhar com hard news, que já não me fazia feliz. Fui muito feliz, sou muito agradecida. Tudo que me tornei foi graças à RBS, mas tive fatores pessoais e profissionais que foram crescendo e provocando uma insatisfação interna. Comecei a não disfarçar mais isso nem para mim. É no amor ou na dor. Comecei a sentir no físico. Sempre amei o que fazia, mas cheguei num ponto que não tinha mais brilho no olho, tesão para criar. Não foi a empresa, fui eu. Fui corajosa em tomar uma decisão dessas na situação que estamos vivendo, mas fiz isso antes que tivesse que fazer por outro motivo, como doença.
Instagram/Reprodução/JC
GE - De onde veio a ideia de empreender na internet?
Carla - Esse mundo paralelo da internet sempre me fascinou. Estou em todas as redes, curto muito isso. Tinha curiosidade para experimentar. Ainda estou meio que me desconstruindo da jornalista para ser a Carla. Preciso ser eu, mas um eu que ainda está em construção, viver emoções diferentes enquanto tenho saúde e juventude. Sou uma pessoa positiva, não tenho medo do trabalho. Quero saborear tudo, pois não sei o dia de amanhã. Quero viver o hoje muito bem.
GE - Tendo que trabalhar à noite, foram muitas jantas e atividades com o filho perdidas?
Carla - Era o modelo de negócio. Não tinha essa flexibilidade. O fato do meu filho estar crescendo e eu estar perdendo algumas fases, sem poder estar com ele nos momentos que são importantes para ele e para mim, pesou muito. Agora não estou 100% disponível para ele, pois tenho compromissos, alguns contratos, mas consigo ter controle sobre a minha agenda. Consigo trabalhar um dia 20 horas e no outro estar liberada para passar o dia dedicada a ele, a mim ou a quem eu quero dedicar. Algo que eu nunca tive em 25 anos.
GE - Tu tinhas tudo planejado?
Carla - Nada. Tinha anseios. A cabeça vai conspirando com o universo. Por algumas noites, perdi o sono pensando no que poderia fazer. Por exemplo, o projeto Na Casa da Carla, que são aulas de graça de atividades físicas, surgiu na minha cabeça em uma noite que acordei às 4h da manhã e me perguntei o que poderia fazer por mim. A mesma coisa quando fiz o post do balanço dos meus 25 anos, onde agradeci à empresa e a mim, que também me doei. É uma profissão de muita abnegação de família, amigos e relacionamentos. Fiz há muito tempo durante uma madrugada que perdi o sono. Tu vais compondo a tua árvore e, de repente, ela ganha vida.
Instagram/Reprodução/JC
GE - Foram anos pensando?
Carla - Meu start foi a chegada do meu filho. À medida que ele foi crescendo, eventos na escola, reunião de pais, apresentações às 18h, homenagens às mães. Eu dizia: “ai, meu Deus”. Conforme ele foi crescendo, foi se tornando latente a vontade de me libertar.
GE - Nas Olimpíadas, vimos a Simone Biles falando sobre saúde mental. Como enxergas isso?
Carla - Agradeço por ter tomado essa decisão antes de ter um problema de saúde, pois quando não estamos felizes em um lugar, seja qual for o cenário, aquilo vai gerar algo interno que pode, no futuro, te fazer mal. Ouve teu corpo. A saúde mental é tão importante quanto a saúde física. Temos que buscar o equilíbrio físico. Teve gente que me perguntou: “tu vais trocar o jornal mais assistido do Rio Grande do Sul?”. Mas ele vai continuar sendo o jornal mais assistido, e com alguém disposto a seguir o modelo que a empresa exige. Quero viver de uma forma mais simples, mais dentro do que me dá prazer, alegria, verdade.
GE - Que serviços tu ofereces hoje? Como é a Carla empreendedora?
Carla - A empreendedora ainda está em construção. Mas hoje tenho dois projetos: de saúde e bem-estar e de educação financeira, com o canal no YouTube Mamãe Eu Quero. Além das ações publicitárias. Tenho recebido muitas propostas. Todas as que me alinho, fecho parcerias. Hoje, por exemplo, estava tomando café e falando de um colágeno com o cabelo amassado da aula que tinha feito, sem filtro, para a pessoa ver que tem verdade. Tudo que aceito divulgar nas minhas redes sociais é porque está fechado comigo, porque deu match com o que quero para mim.
GE - A linguagem da internet é muito diferente da TV?
Carla - É um aprendizado diário, muito diferente. As pessoas acham que, por eu vir da TV, tenho prática. É outro universo. E aí é que está o barato da coisa, essa novidade, essa experimentação diária. Nem sempre eu acerto o tom. Mas, enfim, é do jogo, pois está tudo ainda muito novo para mim. O meu contrato comigo é isso: Carla, te permite. Te experimenta. Vê até onde tu vais.
GE - Qual será a duração do projeto de lives no Instagram?
Carla - Três meses. Quem conseguir fazer vai despertar a vontade de se cuidar mais. Daqui a três meses já terá passado o inverno, nos sentiremos mais seguros para sair de casa por conta da pandemia, todo mundo já estará vacinado. Quando nosso projeto acabar, já estaremos na primavera e todos poderão ir em busca de seus objetivos.
GE - Há chances de voltares para a TV?
Carla - Não digo não para nada. O futuro a Deus pertence. Agora, não vou voltar, até dezembro, pois não quis sair da RBS, quis sair do hard news. Não ia trocar seis por meia dúzia. Não ia sair de um canal para outro. Me dei um tempo, até dezembro, para eu descansar, fazer essas experiências. Não estou pensando nisso agora. Não é um objetivo de vida, mas adoro televisão.
GE - Que cuidados as pessoas têm que ter para fazer uma transição de carreira como a que tu fizeste?
Carla - Eu não tinha nada previsto, mas tinha reserva financeira, pois as contas chegam. Foi uma coisa matematicamente pensada para fazer essas experiências e o período sabático. Se há uma insatisfação, comece a fazer uma poupança. Se queremos mudança, não dá para ficar reclamando. Faça contatos, amplie sua rede. O que não se pode aceitar é não estar feliz e não fazer nada para mudar. O corpo vai acusar isso.
Mauro Belo Schneider

Mauro Belo Schneider - editor do GeraçãoE

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