O educador escocês Charles Watson fará palestras em Porto Alegre a partir desta quinta-feira O educador escocês Charles Watson fará palestras em Porto Alegre a partir desta quinta-feira Foto: /LUCAS DE GODOY/DIVULGAÇÃO/JC

Criatividade é tema de palestra no Instituto Ling

Evento será coordenado pelo educador escocês Charles Watson

Especialista em processo criativo, o educador escocês Charles Watson estará em Porto Alegre a partir de hoje até 10 de agosto. Em um workshop ilustrado e com cinco palestras, o pesquisador mostrará a relação entre altos níveis de motivação e desempenho criativo no Instituto Ling.
Investigando fatores culturais, históricos, psicológicos e neurocientíficos, os encontros mostram como novas tecnologias de pesquisa nessas áreas estão esclarecendo os mecanismos envolvidos em processos de inovação e pensamento criativo. As inscrições estão abertas em www.institutoling.org.br.
Formado pela Bath University, na Inglaterra, Charles atualmente reside no Rio de Janeiro e é professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, onde foi vice-presidente, participante do conselho de direção e coordenador do núcleo de pintura. Ele realiza palestras desde a década de 1990 em centros culturais por todo o Brasil e em empresas como Coca-Cola, Natura, Procter&Gamble, Globo, Dow Chemical e Vale. Acumula mais de 25 anos de pesquisa interdisciplinar, frequentemente alimentadas por entrevistas realizadas com profissionais da indústria criativa.
Veja a conversa que tivemos com ele antes de sua vinda ao Estado:
GeraçãoE - O que falará em Porto Alegre?
Charles Watson - Farei a primeira MasterClass de uma série de seis, no Instituto Ling. A MasterClass 01/Sol na Barriga frisa a importância de motivação em quase todos os aspectos da produção criativa, e, em particular, a sua relação com talento, trabalho, produtividade, prática deliberada, persistência, curiosidade e a capacidade de tolerar ambiguidade e desconforto (fatores importantes para o desempenho criativo).
GE - Qual a relação entre motivação e criatividade?
Charles - A maioria das pessoas criativas não está tentando ser criativa. Essas pessoas estão ocupadas demais com o que estão fazendo para se preocuparem com isso. Estão também ocupadas demais para se preocuparem com o sucesso, e é daí, pelo menos em parte, que o seu sucesso muitas vezes vem. Sua criatividade nasce das atitudes que elas desenvolvem em relação às atividades que trazem um verdadeiro significado para suas vidas. É difícil ser criativo numa área com a qual você não está profundamente envolvido. Não estou dizendo que não existem técnicas criativas que podem ser aprendidas - é claro que existem. Há várias técnicas capazes de nos ajudar a sermos mais criativos e cuja eficácia está bem documentada, mas seu uso demanda um grande investimento de energia, e essa energia precisa vir de algum lugar. Ela pode vir do medo (dizem que Samuel Johnson escreveu o primeiro dicionário porque precisava dar um jeito de pagar o aluguel ou seria preso), ou então pode vir da paixão (de longe a melhor opção). Mas uma coisa é certa: ela com certeza não virá da indiferença. Para ser genuinamente criativo, é preciso haver um envolvimento profundo com um tema ao longo de um intervalo de tempo suficiente para desenvolver o que se costuma chamar de "conhecimento tácito". Pesquisadores estimam que esse período seja de aproximadamente 10 anos ou 10 mil horas, dependendo da intensidade do investimento. Quando se trata de criatividade, não existem pílulas mágicas ou atalhos. "Não há boca-livre no universo", como dizem na física. Os seus ganhos são sempre equivalentes ao que você investiu - ou ainda, nas palavras de John Lennon, "The love you take is equal to the love you make" (o amor que você recebe equivale ao amor que você gera).
GE - Como estimular a criatividade dentro das empresas?
Charles - Por mais surpreendente que pareça, poucas empresas estão genuinamente interessadas no pensamento criativo. Elas discursam sobre o assunto enquanto ainda prestam homenagem aos conceitos do Taylorismo - e sofrem as consequências. A questão é que existem contradições perceptíveis entre certos aspectos da criatividade e a morfologia hierárquica e "top-down" da maior parte das empresas. Como Upton Sinclair declarou, "é muito difícil fazer um homem entender algo, se o seu salário depende dele não entender." A maioria das empresas está mais interessada em copiar modelos pré-existentes do que em investigar possibilidades verdadeiramente novas e peculiares a seus problemas em particular - mais interessada em copiar os resultados de outros, do que em investigar os processos que criaram esses resultados. E, francamente, isso deve ser uma experiência exaustiva e desmoralizante porque assim que você consegue copiar a fórmula, a empresa que você copiou já está em outro lugar. Então você está sempre a um passo atrás, buscando pelo rastro das iniciativas passadas e condenado a uma vida de simulação. Então você corre para Nova Iorque ou Londres ou Amsterdam novamente para pegar as últimas tendências para a próxima temporada do mercado local. E ainda tem a audácia de fingir que está sendo criativo. Estimular criatividade na empresa não é uma questão de bean bags, lava lamps, bolas de plástico coloridas ou mesas de snooker no ambiente de trabalho. Acabamos de descobrir também que nem incentivos econômicos funcionam quando se trata de um pensamento mais aventureiro e criativo. Ainda temos o problema da baixo auto-estima que ronda a condição de colonializado, e a constante presença da necessidade de aprovação. O buraco é mais embaixo e envolve a reavaliação de paradigmas ultrapassados que dominam nossa maneira de pensar - ainda hoje. Nós podemos aprender muito a partir de estudos de sistemas que não apenas sobrevivem como florescem em situações de constante transformação. É importante a adoção e incorporação de uma postura de "transiência permanante", "criatividade promíscua" e "limites permeáveis" como estratégias criativas para ajudar a sobreviver em um futuro inerentemente incerto.
GE - É verdade que você é contra o planejamento?
Charles - Não, é claro que não. O planejamento é uma parte necessária da maioria das nossas atividades, é uma das coisas que nos faz humanos. A habilidade de planejar foi um dos atributos que nos deu uma enorme vantagem no ambiente ancestral e está associada a uma parte do cérebro chamada "córtex pré-frontal". Nenhum outro animal tem um córtex pré-frontal de tamanho comparável ao nosso. E isto é responsável, em parte, pelo sucesso da nossa espécie. Mas o planejamento em si não é suficiente para o desempenho criativo, seja no campo artístico, na área científica ou em um contexto empresarial. Veja bem, o que é planejamento? É quase sempre uma tentativa de usar uma experiência passada como um modelo para o futuro. Nós projetamos a nossa percepção (geralmente equivocada) de eventos passados sobre possíveis cenários de futuro e, ainda que esta habilidade seja fundamental para a maioria das atividades humanas, o futuro nem sempre corresponde às nossas expectativas. Ele é indiferente às nossas melhores intenções. E ainda há, é claro, o aspecto psicológico do planejar. Nada como trabalhar em uma planilha no domingo à noite para ficar com a impressão - frequentemente ilusória - de que você está no controle da sua vida. O planejamento em si pode até ter um efeito tranquilizante, mas a sua capacidade de nos preparar para um futuro incerto é inerentemente limitada. Então, quando o inesperado acontece, geralmente não estamos preparados para lidar com ele. Como disse o estrategista e general prussiano Helmuth von Moltke, "nenhum plano sobrevive ao primeiro contato com o inimigo". O pugilista Mike Tyson, conhecido pela crueza, fez coro: "todo mundo tem planos, até que leva um soco na cara". E é este soco na cara, metafórico ou não, que vira e mexe o futuro nos dá.
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