Mestra Cilene Saorin deu curso na Capital em novembro Mestra Cilene Saorin deu curso na Capital em novembro Foto: /Arquivo Pessoal/Divulgação/JC

Mulheres mudam o mercado cervejeiro

Há 26 anos no meio cervejeiro, a engenheira de alimentos, mestre cervejeira e sommelier paulista Cilene Saorin, 46 anos, viu este mercado crescer e se transformar. Só para citar alguns feitos, ela faz parte do grupo de jurados degustadores profissionais dos eventos World Beer Cup nos Estados Unidos e European Beer Star na Alemanha, e é a responsável pela vinda da Formação Profissional de Sommelier de Cervejas da Doemens Akademie para o Brasil. A entrada para o mercado através do curso de sommelier, que é voltado para serviços e escapa do ambiente industrial, abre um leque para que mais mulheres se sintam convidadas a adentrar este meio, acredita.
Ela esteve em Porto Alegre em novembro para falar sobre equidade no mercado cervejeiro, durante o Congresso da Cerveja Poa, realizado pela Matinê Cervejeira. Foi a primeira vez que Cilene abordou o assunto de forma mais ampla, contemplando gênero e sexualidade.
O que tudo isso tem a ver com o mercado cervejeiro? Você confere a seguir.
GeraçãoE - Como você começou a trabalhar com a cerveja?
Cilene Saorin - Eu tinha 20 anos, muito interesse em tecnologia das fermentações e no final do curso de sommelier consegui um estágio em uma cervejaria. Me apaixonei pelo líquido e pelo entorno social que ele traz: as pessoas perguntavam onde eu estava trabalhando, e eu falava que era numa cervejaria, e isso era demais. Me fez popular como nunca fui (risos). Até hoje sou mais introspectiva e tendo a ficar em casa. E aquilo me fazia sair e falar com pessoas, foi revelador para mim. E tinha também uma pitada de desafio em particular. Hoje, a gente vê um número de mulheres neste meio, mas lá nos idos de 1990 era predominantemente masculino. A gente já tomou este espaço de uma maneira importante, 25 anos atrás a coisa era bem mais complicada. Me sentir desafiada foi um ingrediente fundamental também.
GE - Como foi ver o ambiente cervejeiro se transformar?
Cilene - Este ambiente masculino se tornar um pouco menos masculino se deu muito mais nos últimos cinco anos no Brasil, por conta da introdução da formação profissional de sommelier de cervejas da Doemens Akademie. Desenvolvemos um projeto de educação, em que estou intimamente ligada, voltada ao serviço da bebida. Um ambiente mais afável à entrada das mulheres, a pensar bares, restaurantes, empórios, mercados, eventos. Até 2010, os profissionais eram mais ligados às cervejas através da produção e à indústria, portanto. O ambiente fabril já não é muito convidativo às mulheres e muitas portas são fechadas, muito pelos homens que estão lá dentro. Recebi muita porta fechada lá atrás. Até então, a gente não conseguia muito penetrar a esfera profissional.
GE - Você se sente no papel de referência por conta disso?
Cilene - Sempre tive condição, dentro do possível, de receber e doar inspiração e encorajamento para que as meninas não se sentissem temidas por entrar em fábrica, ainda que seja muito difícil. Em algum momento eu posso ter servido como referência, assim como recebi inspiração de outras. Doar e receber inspiração é muito importante.
GE - Por que falar de equidade para o mercado cervejeiro?
Cilene - Para falar de equidade tem que falar de ética. Trago números e estatísticas que possam fazer com que enxerguem a equidade como oportunidade. Se for difícil ser humano e falar de inclusão, que seja por números, oportunidades e cifras. No mundo cervejeiro está rolando uma inclusão interessante que é a da idade. O público-alvo que consome em volume é majoritariamente formado por pessoas de 25 a 35 anos. Dentro dos mundos possíveis da cerveja, as marcas vão precisar se comunicar com o público que tem mais de 50, por conta da curva demográfica que vai haver daqui uns anos. Instigar as pessoas a alcançar esta lucidez é o mais importante.
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