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Porto Alegre, quarta-feira, 28 de março de 2018.

Jornal do Comércio

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

Notícia da edição impressa de 29/03/2018. Alterada em 28/03 às 17h29min

Quem conhece sabe fazer

O prazer de se assistir a um texto inteligente, uma direção sensível e um elenco absolutamente correto faz com que a encenação de Master Class, do norte-americano Terrence McNally, com direção de José Possi Neto e interpretação central de Christiane Torloni, seja algo emocionante.
A ideia dramática é ótima: fixar a grande soprano Maria Callas, agora já num ponto de início de derrocada, numa máster class, diante de alguns jovens e utópicos cantores que pretendem seguir carreiras semelhantes à dela. De um lado, a fragilidade da artista que sabe de seu momento mas se digladia com a lembrança das antigas glórias. Do outro, os jovens que esperam um apoio da grande diva mas que encontram uma mulher dura e irônica, por vezes até agressiva mas, ao mesmo tempo, não menos sincera e até mesmo emocionada e protetora.
Isso é uma matéria-prima maravilhosa, mas que precisa do talento de um verdadeiro dramaturgo para poder render. E McNally sabe construir as cenas com estas alternâncias, o que a direção de Possi Neto sublinhou e destacou, com um ritmo correto, de pausas, silêncios e eloquência. Christiane Torloni é soberba desde a entrada. Assume o comportamento de uma ditadora, tal qual devem ter feito com ela. Aos poucos, contudo, revela outro lado de sua psicologia. O encontro com os alunos alterna-se com cenas de memória em que ela vai recordando sua vida, suas vitórias e seus fracassos. Isso dá à personagem uma dimensão humana profundamente emotiva. O final da peça igualmente é perfeito, porque corta, abruptamente, o que vinha num crescendo, de modo a impactar sem causar comiseração, a narrativa em desenvolvimento.
A direção de Possi Neto reconhece a personagem que tem em mãos e sabe como recriá-la através da atriz que está a seu lado. É como um escultor que molda a matéria informe original, dando-lhe consistência. A matéria prima é informe, sim, mas altamente sensível e competente, responde ao criador de maneira perfeita, o que acaba criando uma simbiose entre dramaturgo e diretor, com a intérprete.
É fantástico imaginar-se que a personagem que deve sua história ao bel canto e à música é a única personagem que não exige que a atriz saiba e tenha qualificações de cantora. É certo que a atriz entona, aqui e ali, alguma frase musical. Mas, de fato, ela jamais canta. Quem, de fato, tem de cantar, são os demais intérpretes, a quem cabe apresentar fragmentos de árias conhecidas ou não, de diferentes óperas que consagraram, outrora, a frustrada, mas orgulhosa Callas de hoje.
Julianne Daud vive a mesma personagem - Sharon Graham - que interpretara na montagem em que Marília Pêra era quem encarnava Maria Callas. Tanto por causa da comparação entre Pêra e Torloni, quanto pelas eventuais diferentes linhas de direção das duas montagens, procurei - e encontrei - no YouTube, cenas de ambas as montagens. No caso de Julianne Daud, de certo modo ela é outra atriz, até porque, agora, tem muito mais experiência: de qualquer modo, evidencia personalidade, sobretudo ao enfrentar a grande cantora.
Paula Capovilla torna-se uma simplória Sophie de Pala, enquanto Fred Silveira encarna um engraçadíssimo Anthony Candolino que, no entanto, tem belas nuanças dramáticas; Thiago Rodrigues vive o maestro Emmanuel Weinstock, que acompanha os candidatos ao piano, ao lado do hilário Jessé Scarpellini, que interpreta o contrarregra. O bonito cenário de Renato Theobaldo está concebido de modo a permitir a projeção de filmes que documentam passagens da vida da cantora. Os figurinos de Fábio Namatame e Claudeeteca definem com propriedade as personalidades das personagens. A direção musical de Fávio G. Oliveira, que é também o produtor do espetáculo, diz do acerto de quem conhece o metier.
Em suma, que bom se todos os espetáculos a que assistíssemos tivessem essa qualidade e esse cuidado de acabamento. Todos seríamos felizes.
Por falar em felicidade: o espetáculo de Christiane Torloni foi o primeiro a cumprir temporada desde a morte de Eva Sopher. A sensibilidade da atriz fez com que ela homenageasse a eterna diretora do Theatro São Pedro. Emocionante.
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