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Porto Alegre, terça-feira, 18 de julho de 2017. Atualizado às 21h09.

Jornal do Comércio

Panorama

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ARTES VISUAIS

Notícia da edição impressa de 19/07/2017. Alterada em 18/07 às 17h20min

Delírios organizados: artista plástico carioca é tema de mostra em museu de Nova Iorque

Artista plástico carioca Hélio Oiticica é tema de mostra em museu de Nova Iorque

Artista plástico carioca Hélio Oiticica é tema de mostra em museu de Nova Iorque


FUNDA/DIVULGAÇÃO/JC
Com a abertura da exposição To organize Delirium ("organizar o delírio") de Hélio Oiticica, no fim da semana passada, no Museu Whitney de Arte Americana, em Nova Iorque, a arte brasileira ocupa espaço privilegiado no circuito internacional. Além do artista carioca, o Met Breuer (novo nome do espaço, a partir de 2016) exibe até o dia 23 de julho uma panorâmica da obra de Lygia Pape (artista multimídia fluminense do neoconcretismo, falecida em 2004) - e as galerias Lelong e Driscoll Babcock apresentam artífices do construtivismo brasileiro, em exposições do Grupo Frente e da paulista concretista, pop e experimental Judith Lauand (nascida em 1922).
A mostra de Oiticica encerra na cidade uma turnê que veio de Pittsburgh e Chicago. Reúne obras que vão das incursões geométricas, da década de 1950, aos trabalhos do final dos anos 1970, passando pela imensidão criativa, inquietante e transgressora desse artista incomum, cuja influência tornou-se incontornável.
O carioca não tinha completado 20 anos quando participou da Exposição Nacional de Arte Concreta, realizada em 1956, em São Paulo, e 1957, no Rio de Janeiro. A partir de 1959, sua produção geométrica começou a deixar a superfície plana para lançar-se no espaço, em trabalhos como os Relevos espaciais e os Bilaterais. Essa linha, marcada pelo interesse pela cor, desdobrou-se nos Bólides - enigmáticas caixas de madeira e recipientes de vidro preenchidos com pigmentos e acrescidos de materiais retirados de sua realidade funcional ou natural.
Em meados dos anos 1960, época de rebeldia, reincorporação da ideia de vanguarda e alargamento de fronteiras estéticas, ele estreitou o entrelaçamento entre arte e vida. Começou a frequentar o Morro da Mangueira e a propor trabalhos que convidavam ao envolvimento sensorial e corporal, como os Parangolés.
Mergulhado no mundo da cultura popular carioca, Oiticica usava a arquitetura precária e engenhosa das favelas como inspiração para suas obras - caso da célebre Tropicália (ao lado) , de 1967, que deu título à canção de Caetano Veloso. Em anos de ditadura militar, manifestava um tipo de transgressão que não era da ordem apolínea do operariado industrial e da revolução marxista, mas da desordem dionisíaca do morro, do samba, dos gays e da marginalidade.
"Seja marginal, seja herói", dizia seu famoso poema-bandeira, de 1968, sob uma foto do corpo do bandido Cara de Cavalo. A obra serviu de cenário para o show tropicalista da boate Sucata, em São Paulo, que levou Caetano e Gilberto Gil à prisão.
Depois de passar um ano em Londres (em 1969), Oiticica, com uma bolsa da Fundação Guggenheim, partiu para Nova Iorque, em dezembro de 1970 - onde viveu durante sete anos.
Há uma sala da mostra dedicada àqueles tempos de intenso experimentalismo, marcados pela contracultura e por trabalhos como as Cosmococas, em parceria com o cineasta Neville d'Almeida, e os Ninhos (estes, a lamentar, ausentes na exposição).
"É um período vasto e ainda pouco compreendido", afirma Cesar Oiticica Filho, sobrinho do artista. Fred Coelho, que juntamente com Cesar compilou em livro alguns textos nova-iorquinos do artista, foi convidado para participar da montagem dessa seção - selecionou documentos e ajudou a formatar seu conceito expositivo. "Ele fez muita coisa em Nova Iorque. Deixou filmes inacabados, escritos e o projeto do livro Novaiorkaise. Fez também novos Parangolés, agora com materiais diferentes, mais industriais, e deixou projetos para obras ainda não realizadas", relata Fred.
Oiticica deixou sua obra e seus projetos minuciosamente ordenados. Artista-crítico, um formulador de ideias, era obcecado pelo registro e catalogação de seus trabalhos. Como alguns outros de sua geração, conciliou o "delírio" com o rigor e a discussão conceitual - uma herança, ao menos em parte, da influência concretista.
Quando retornou ao Brasil, em 1978, Oiticica declarou que estava no "prólogo" de sua carreira. Dois anos depois, morreu, aos 42, vitimado por um AVC, em seu apartamento no Rio de Janeiro. Mais sobre o artista no site do Projeto Hélio Oiticica: http://www.heliooiticica.org.br.
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